Resenha (Edição nº 53)

"Instruções para a vida intelectual", por Candice Vidal e Souza (*)

Dados do livro:
Título: Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios
Autor: C. Wright Mills
Editora: Zahar
Número de páginas: 96 páginas

O sociólogo texano Charles Wright Mills pesquisou e publicou avidamente em sua vida relativamente breve. Vítima de problemas cardíacos morreu em março de 1962, aos 45 anos de idade. É bastante improvável que um aluno iniciante nas ciências sociais não tenha lido trechos de seu livro A imaginação sociológica, cujo estilo direto e seguro sobre o que faz ou deve fazer um sociólogo é especialmente motivante para quem começa a trajetória nessa área. Nesta coletânea de ensaios de Mills, reencontramos o capítulo “A promessa”, já publicado em seu livro mais conhecido. A forma incisiva, segura e certamente normatizadora do autor reaparece nas outras partes dessa seleção organizada e introduzida por Celso Castro.

As posições afirmadas em torno do artesanato intelectual perpassam o livro e se concentram no principal ensaio, “Sobre o artesanato intelectual”. O leitor compreende melhor o que Mills fala sobre o trabalho e sua articulação com a vida de cada um que exerce um ofício intelectual, bem como o tom em que expressa suas opiniões, depois de ler a introdução à coletânea. Elementos da trajetória de Mills, de seus interesses de pesquisa, de suas atividades cotidianas e das interações que mantinha com colegas da Universidade de Columbia fazem-nos ler os seus ensaios enquanto posições acerca de como pensar problemas sociológicos e exercer a fala intelectual sobre o estado da vida social. Desolado com as condições da atividade intelectual, constata em “O que significa ser um intelectual?”, escrito em 1959, que “muitos intelectuais pararam de julgar, retiraram suas exigências, engoliram sua presunção, caíram de volta nas rotinas políticas e morais de seus ambientes profissionais e residenciais” (p. 89).

Em vários momentos, Mills critica processos em curso na sua própria sociedade. O ensaio “O homem no centro: o designer”, conferência proferida para um público de designers em 1958, critica a associação do designer com os interesses de venda, que os fazem criar objetos a serem desprezados rapidamente, pois derivam de “projetos tolos para necessidades tolas”. O designer “projeta o próprio produto como se fosse uma publicidade, pois seu objetivo e sua tarefa (...) não é tanto fazer produtos melhores mas fazer produtos que vendam melhor” (p. 71). A mercantilização dos produtos e a inclusão de seus criadores no sistema de estrelato da cultura norte-americana transformaram o papel do designer, que Mills enxerga sua melhor forma no trabalho do artesão. O ideal do artesanato, exposto no pequeno ensaio em que se percebe a paixão reflexiva e prática do autor com o saber fazer com as próprias mãos, tem seus elementos expostos para essa platéia a quem Mills conclamava a retornar ao princípio do artesanato como valor. Afinal, “a sociedade humana, em suma, deveria ser construída em torno do artesanato como a experiência central de um ser humano não alienado e a própria raiz do livre desenvolvimento humano. (...) Pois o mais elevado ideal humano é: tornar-se um bom artesão” (p. 80).

Mills proclama a autonomia de pensamento, a liberdade e criatividade na proposição de temas de pesquisa como formas de preservação da independência intelectual. Contudo, o papel de apreciação do trabalho e das condutas de outros intelectuais é exercido com desenvoltura por Mills. Lembremos as suas ironias sobre o fato de “95% dos livros de ciência social podem ser traduzidos para o inglês” (p. 50), em razão da escrita original em sociologuês. A consciência da escrita (Para quem escrevo? Posso dizer de modo mais econômico e mais preciso? Que status estou reivindicando quando escrevo?) e a crítica ao texto exclusivo para iniciados está no comentário de que “para superar a prosa acadêmica, temos de superar a pose acadêmica” (p. 50, grifos originais).

Convenhamos que essa crítica interna ao modo de escrever dos cientistas sociais, se existe, é bastante discreta no tempo que Mills publica suas idéias. A voz de Mills parece estar sozinha nessa cruzada pela depuração estilística de certas sociologias. O combate pelo estilo adequado, no entanto, não exclui a demarcação de um texto propriamente sociológico; ou seja, o autor está certo da diferenciação da escrita sociológica das formas que caracterizam o jornalismo e a literatura. Na sua lista de “preceitos e advertências” aos jovens sociólogos alerta: “Não seja meramente um jornalista, ainda que seja tão preciso quanto. Saiba que o jornalismo pode ser um grande empreendimento intelectual, mas saiba também que o seu é maior!” (p. 57). A vigilância quanto às fronteiras estilísticas pode explicar a linguagem sociológica que Mills procura evitar em seus escritos. De acordo com o autor, para o acadêmico nos Estados Unidos, “ser chamado de um ‘mero jornalista’ o faz sentir-se indigno e superficial”.

Teria sido Wright Mills acusado de escrever como jornalista? Como ficamos sabendo por meio de Celso Castro, o autor ocupava uma posição marginal na Universidade de Columbia, onde ingressou em 1947. A sua entrada na universidade se deu por um acesso prestigiado que era o Bureau of Applied Sociology, dirigido por Paul Lazarsfeld. De acordo com Celso Castro, nesse período Mills “teve acesso a farto material empírico, trabalhou coordenando equipes de investigadores e pôde adquirir habilidades em métodos e técnicas de pesquisa quantitativa” (Introdução, p. 8). Em 1952, há o rompimento desses laços de trabalho. Os efeitos de um confronto com Lazarsfeld podem ser imaginados a partir de um comentário de Pierre Bourdieu sobre o sociólogo americano, “de quem é hoje difícil imaginar a influência social e científica que exercia sobre a sociologia mundial”[1].

Outros desentendimentos internos impediram Mills de atuar na pós-graduação. Sua exclusão dessa posição de prestígio acadêmico revela a tensão e os conflitos do mundo intelectual, mas infelizmente não sabemos pela voz de seus adversários sobre os aspectos que o desqualificaram entre os colegas. Contudo, essa condição de insubordinação relativa ao establishment pode explicar alguns dos trechos desses ensaios, nos quais o autor expressa o afastamento de certas posturas e modos de trabalho intelectuais. Quando cita “(...) medíocres, que, compreensivelmente, querem excluir aqueles que conquistam a atenção de pessoas inteligentes, acadêmicas ou não” (p. 49), é difícil não associar a própria trajetória de sucesso editorial e público de Wright Mills – que em sua época teria comparação apenas com a popularidade de Margaret Mead (Introdução, p. 10) – combinado com a subalternização interna ao cenário acadêmico em que atuava.

Mills ensina o jovem sociólogo a prestar atenção ao cotidiano e extrair das experiências no mundo os materiais a serem convertidos em reflexões sociológicas e futuros projetos de pesquisa. Viver e fazer sociologia são uma só coisa e esta fusão é animada pelo espírito lúdico na tarefa de compreender o mundo. Mills era um sociólogo entusiasmado com as ferramentas de compreensão do mundo que a melhor sociologia, encarnada, segundo ele, em autores como Herbert Spencer, E.A. Ross, Auguste Comte, Émile Durkheim, Karl Mannheim, Karl Marx, Thorstein Veblen, Joseph Schumpeter, W.E.H. Lecky e Marx Weber, poderia oferecer.

O leitor atual dessa coletânea de ensaios de Mills deve ter em consideração o horizonte da produção acadêmica em sociologia de sua época, atentando para o fato de Mills ser um intelectual com respeitabilidade conquistada extramuros. Quero com isso dizer que alguns dos seus combates devem ser problematizados, tal como aquele que associa linguagem especializada ou hermética a carência de idéias. Afinal, a prosa sociológica tem variantes consideráveis e autores que têm vocabulário e estilo próprios, cuja obra é capaz de confrontar o senso comum sociológico, não podem ser desqualificados com avaliações intempestivas.

O argumento em torno do estilo como demarcador de fronteiras entre obras e autores é uma batalha que Mills toma para si, mas que faz parte da diferenciação da sociologia em relação a outras linguagens de descrição do mundo social[2]. No seu caso, combater certas linguagens sociológicas significa também questionar as interpretações dos fatos sociais que elas carregam, ou seja, são tomadas de posição teóricas e políticas.

O livro pode ser lido dentro dos limites do que está escrito, porém pode nos inspirar a irmos além. Em outras interpretações, Mills seria ele mesmo tomado como um nativo do campo intelectual da sociologia americana em seu tempo e seus textos a expressão de um modo de ver situado no “sistema de estrelado” que também se configura no mundo dos intelectuais, sejam eles mais acadêmicos ou mais afeitos à circulação pública ou midiática de suas idéias. Para compreender C.Wright Mills podemos tomar essa coletânea de ensaios como ponto de partida, mas outros elementos seriam necessários para redesenharmos as linhas do campo intelectual em que se movia. Porque a forma da escrita de Mills, a maneira direta de falar o que pensa, incita-nos a levar adiante a investigação sobre esse personagem de nossas bibliografias introdutórias à sociologia, à procura da compreensão do campo em que ele se fez e contra o qual se fez[3].


[1]  BOURDIEU, Pierre. Esboço para uma auto-análise. Lisboa: Edições 70, 2005, p. 81
[2] Ver o excelente estudo de Wolf Lepenies, As três culturas. São Paulo: Edusp, 1996.
[3] Como instrui Pierre Bourdieu na auto-análise de sua trajetória (cf. nota 1).


(*) Candice Vidal e Souza é  Professora do Departamento de Ciências Sociais (PUC-MG), doutora em Antropologia Social (PPGAS-MN).

Atualizado em 24/11/09