Entrevista (Edição nº 10)

Lévi-Strauss fala de Eduardo Viveiros de Castro e Manuela Carneiro da Cunha à revista francesa Le Nouvel Observateur (edição n° 1979 - 10/10/2002) (*). Segue a tradução da entrevista, feita por Sylvie Chiousse, sócio-antropóloga francesa que pesquisou no Brasil, doutora pela EHESS, Paris - França (1995) (**). Revisado por Cidnei Raul Soares - revisor e tradutor.

" Visitando Lévi-Strauss "

Às vésperas de seus 94 anos, o famoso antropólogo faz sua entrada em " Que sais-je ? " [NDLR : "O que sei?" - coleção da PUF - Imprensa universitária de França, que desenvolve um assunto em 126-128 páginas no máximo]. Foi a ocasião para o nosso colaborador Didier Eribon conversar com um dos maiores pesquisadores da nossa época.

Em 1993, no momento de lançar a publicação de "Regarder, écouter, lire" (Olhar, ouvir, ler), Claude Lévi-Strauss me disse: "É o meu último livro". É verdade que esta grande variedade de estudos em vários assuntos da Arte que acompanharam sua vida e sua obra oferecia todos os jeitos de uma finalização. Lévi-Strauss falava de pintura, de música, de letras até chegando à antropologia... Na verdade, tudo já estava escrito, abraçado pelo mesmo olhar, unificado num mesmo modo de estudo. Apesar disso, não acreditei muito na sua palavra. E cada vez que a gente se encontra, pergunto-lhe se está preparando novo livro. E como das outras vezes, ele diz: "Não, com certeza. Somente umas coisinhas: um prefácio, um relatório um pouco desenvolvido teoricamente, um pequeno artigo para dizer em quatro ou cinco páginas algumas coisas que tenho que dizer - mas que necessitaria de trinta páginas... Mas, não tenho mais jeito nem capacidade para escrever coisas mais extensas".
Como sempre, há livros na sua mesa na sala. Fico meio intrigado com um enorme volume, com o título em português ("Um outro olhar"). É um álbum de fotos de tribos indígenas do Brasil, nos anos 1930.

Lévi-Strauss diz: "Luiz de Castro Faria foi o meu companheiro de viagem em 1938-1939. Quando publiquei, há alguns anos, minhas fotos das viagens nas tribos ("Saudades do Brasil", Plon, 1994), decidiu publicar as suas, no mesmo tempo em publicou o seu jornal de pesquisa. Na época, o Brasil tinha um regime autoritário, e um estrangeiro não podia penetrar as terras sem um inspetor. Foi assim que Luiz de Castro Faria, etnólogo jovem, tornou-se inspetor, podendo, ao mesmo tempo, fazer suas pesquisas de campo".

Umas fotos deste livro parecem com as de Lévi-Strauss. Dá para reconhecer as mesmas paisagens, as mesmas pessoas, sobretudo com os Nambikwara - que Lévi-Strauss ajudou em fazer conhecer ao mundo quando escreveu "Tristes tropiques". (Ainda existem, diz ele, são ainda algumas centenas). Mas as fotos de Castro Faria mostram, às vezes, o próprio Lévi-Strauss, e numa delas, pode-se vê-lo... pegando fotos.

Tem outro livro na sua mesa: os "Indian Myths and Legends from the North Pacific Coast of America". "São os mitos que Franz Boas tinha recolhidos e que publicou, em alemã, em 1895. Isto nunca tinha sido traduzido ainda em inglês. É uma riqueza extraordinária". Lévi-Strauss escreveu o prefácio desta edição, descrevendo Boas como "o maior etnólogo de todos os tempos", um destes "gigantes de espírito dado pelo século XIX , e como jamais se verá outro".

Usou aproximadamente as mesmas palavras falando de Georges Dumézil quando fez o discurso para acolhê-lo na Academia francesa, em 1978. Ele, Lévi-Strauss, que teve como colegas de trabalho Benveniste, Braudel, Dumézil; ele, que teve laços de amizade com Merleau-Ponty; ele, que conversou através de livros com Sartre, como está vendo a vida intelectual de hoje? Está se interessando por ela?

"Estou lendo os livros que me foram enviados, mas não são os que eu gostaria de ler. Estou muito por fora de tudo o que acontece para poder responder. Não estou mais neste século. Sabe, com a idade, a gente perde a curiosidade intelectual".
Mas, pelo menos, deve estar satisfeito de constatar o renascimento de interesse pelo estruturalismo, como se pode ver atualmente na universidade francesa: um filósofo, jovem, de Nanterre, Patrice Maniglier, que publicou na revista "Temps modernes" ("Tempos modernos") um artigo muito apreciado sobre a sua obra, está pronto para defender uma tese sobre Saussure, e de um modo mais geral, se vê que estamos nos encaminhando de novo para o que foi um dos grandes movimentos intelectuais do século XX .

"Se for verdade, só posso estar satisfeito. Já sei que as pesquisas de que você está falando estão caminhando, mas não sei se eles são representativos do que acontece em outros lugares da universidade... O que tenho certeza é que houve um eclipse do estruturalismo durante os anos 1980-1990. Acho que estava ligado aos acontecimentos de maio de 1968. Houve, depois de 1968, por exemplo na antropologia, uma volta ao espírito de Sartre e do pensamento espontaneista. Achei engraçado que aparecem depois pessoas fazendo do estruturalismo uma das manifestações do espírito de 1968, que, na verdade, foi exatamente o contrário".

Em todo caso, Lévi-Strauss permanece sempre fiel a este estruturalismo ao qual seu nome está associado.

"Não fico ligado ao que uma moda fugaz fez, mas ao esforço para não se deixar levar por um sentimento de identidade pessoal e por tentar descobrir, dentro dos fatos sociais, relações independentes das deformações que os interesses pessoais do indivíduo levam, sejam individual ou coletivo".

Qual é o olhar dele sobre a antropologia de hoje?

"Ela está numa situação crítica, tem menos campos para pesquisar e torna-se mais difícil de atingi-los. Assim, os novos antropólogos estão olhando para a esquerda e para a direita para se encontrar com outras disciplinas: está nascendo de novo uma antropologia cheia de psicanálise, de filosofia, de ciência política... não é mais a antropologia que conheci".

Ele evoca com carinho o trabalho de Philippe Descola, hoje professor no Collège de France, que "está construindo uma obra". É sobretudo nos livros dos seus "colegas brasileiros" que está vendo atualmente uma grande vitalidade da disciplina:

"É lá que parece existir ainda uma etnologia clássica, com, ao mesmo tempo, grandes novidades. Eles pesquisam principalmente sobre as sociedades ameríndias, mas também tem uma reflexão teórica bem ampla".

Lévi-Strauss, neste momento, mostra-me dois outros livros em sua mesa. Uma grossa "Enciclopédia da mata" de Manuela Carneiro da Cunha - "um livro fascinante" - e um livro de Eduardo Viveiros de Castro, cujo título me surpreende: "A inconstância da alma selvagem" ("L'inconstance de l'âme sauvage"). São os jesuítas que lastimavam muito isso nos séculos XVI e XVII - porque os índios deixavam-se converter um dia e, no dia seguinte, voltavam às suas crenças. Viveiros de Castro se interessou por este fenômeno - que era percebido, neste momento, como 'inconstância'".

Eu lhe pergunto o que está lendo neste momento, fora dos trabalhos dos antropólogos.

"Li romances ingleses do século XIX durante todo o verão: Jane Austen, Thackeray, Trollope e Dickens. Já o tinha lido quando jovem, em francês. Então, peguei de novo estes Dickens clássicos que já conhecia desde a infância, mas desta vez, eu os li em inglês".

E diz ainda: "Também li de novo Balzac, foi a 40a vez e com total encantamento." Dá para entender que não se interessa muito pela literatura contemporânea: "Tenho a impressão de que o romance é um gênero que não existe mais".

Falamos agora de política. Lévi-Strauss não ignora que sua obra foi invocada várias vezes nos últimos anos em debates, por exemplo, pelos adversários do pacs [NDLR: pacs - pacto civil de solidariedade, votado em 1999 e autorizando o equivalente de casamento entre homossexuais] ou da homoparentalidade. Mas não deu importância ao caso. Certamente quer afirmar de novo que "a antropologia não tem vocação para prescrever quais soluções devem ser adotado em nossas sociedades". Mas deixou fazer, sem reações, porque "não dou tanta importância ao que escrevo para me sentir na obrigação de reagir quando alguém utiliza um modo ou outro. Eu jamais gostei da idéia de ter meu trabalho servindo de guia para os meus contemporâneos. Eles têm o direito de usá-lo, mas a meu ver, é um contra-senso total. É isso".

Falamos de outras coisas, como clonagem: "Parece-me evidente que, quando tecnicamente for ser possível, vai acontecer. Se pudesse ainda me lançar numa pesquisa, teria escrito alguma coisa sobre a gemelidade. Parece-me que as sociedades sempre sentiram uma fascinação pelos gêmeos: às vezes, admiração, outras vezes, horror. É o que vai acontecer com clonagem: quando isso existir, vamos vê-lo com curiosidade, mas vai ser perfeitamente integrado à vida da sociedade".

Quando falamos da subida dos integrismos religiosos, Lévi-Strauss torna-se mais vindicativo:

"Já disse em "Tristes tropiques" o que eu pensava do Islam. Apesar de usar um estilo mais fino, não era tão longe do que disse Houellebecq a quem hoje se persegue. Tal perseguição não se podia imaginar há 50 anos; na mente de ninguém. Temos o direito de criticar a religião. Temos o direito de dizer o que pensamos".

Então, que foi que mudou?

"Estamos contaminados pela intolerância islâmica. É assim também com a idéia que se precisa introduzir o ensino das religiões na escola. Eu li que Regis Debray foi encarregado de cumprir esta missão. Aqui, também, me parece estar uma concessão que estamos fazendo ao Islã: na idéia que a religião deva penetrar fora do seu espaço. Ao contrário, me parece que a laicidade, pura e forte, funcionou muito bem até hoje".

Sobre os perigos que as atividades humanas e a poluição geram sobre o estado do planeta, Lévi-Strauss está preocupado com isso há muito tempo, e me disse que já foi "um dos temas centrais de "Tristes tropiques": "Quando nasci, tinha na Terra 1.500.000.000 de almas. Depois dos meus estudos, quando me inseri na vida profissional, já havia 2 000 000 000. Hoje há 6, e 8 ou 9 amanhã. Não é mais o mundo que conheci, que gostei ou que posso ainda conceber. É para mim um mundo inconcebível. Dizem que tem um ponto de estabilização na escada, que vai descer nos anos 2050; quero acreditar nisso, mas os desastres gerados neste ínterim nunca vão ser recuperados".


Didier Eribon publicou um livro de entrevistas com Claude Lévi-Strauss, "De près et de loin" ("De perto e de longe"), Odile Jacob, 1988, 2. ed. em Opus poches-Odile Jacob, 2001.

Catherine Clément, "Lévi-Strauss", PUF, col. "Que sais-je?", 128 páginas.

Biografia:
Nascido em Bruxelles (Bélgica), em 1908, Claude Lévi-Strauss descobriu sua vocação etnográfica durante uma viagem no Brasil ("Tristes tropiques", 1955). Professor de antropologia social a partir de 1959 no Colégio de França, publicou, entre outros livros, "Structures élémentaires de la parenté" ("Estruturas elementares do parentesco") em 1949, "La pensée sauvage" ("O pensamento selvagem") em 1962, "Le cru et le cuit" ("O crudo e o cozido") e "L'homme nu" ("O homem nu") em 1971. Entrou na Academia francesa em 1973.


(*) Fonte: Le Nouvel Observateur - kiosques - n° 1979 - 10/10/2002 (endereço eletrônico capturado em julho/2003).

(**) Sylvie Chiousse: Sócio-antropóloga francesa que pesquisou no Brasil. Doutora pela EHESS, Paris - França (1995).
 

 



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