Entrevista (Edição nº 7)
O antropólogo Vagner Gonçalves da Silva, professor de Antropologia da USP e autor de vários livros, participou de um fórum de discussão sobre seu livro mais recente “O Antropólogo e sua Magia” (Ed. Edusp, 2001). Vagner respondeu às perguntas dos internautas e expressou suas idéias sobre a dinâmica do trabalho de campo e o papel do antropólogo. 

Quem quiser conhecer melhor os trabalhos do antropólogo, indicamos não apenas seus livros “Candomblé e umbanda: Caminhos da devoção brasileira” (Ed. Ática, 1994),  “Orixás da Metrópole” (Ed. Vozes, 1995) e “O Antropólogo e sua Magia” (Ed. Edusp, 2001), mas também seu site, www.aguaforte.com/da/vagner, já comentado no informativo nº 3 da Comunidade Virtual de Antropologia.

Depois de ler a entrevista, clique aqui e participe do fórum de discussão dedicado a ela. Poste uma mensagem dizendo o que achou dessa entrevista, enviando alguma contribuição sobre o tema ou fazendo perguntas para o Vagner. 

>> Gerson Lindoso / Comunidade Virtual - Oi, professor Vagner!!! Meu nome é Gerson Lindoso, estudante de Comunicação Social (Jornalismo), maranhense e há algum tempo faço pesquisas sobre religiões afro-maranhenses (Tambor de Mina e Pajelança). Gostaria de frisar que ainda não sou um grande pesquisador do porte de Sérgio Ferretti e Mundicarmo Ferretti, mas entendo um pouco do assunto. Faço parte do grupo de pesquisa Religião e Cultura Popular dos Ferretti. 

A minha questão é a seguinte: além dos antropólogos, como vai se dar a relação observador-observado, não apresentada nos depoimentos dos antropólogos, e sim no depoimento dos profissionais de Comunicação, que também costumam diariamente lidar com entrevistas e fazer pesquisa de campo.
1) Quais os limites dos comunicadores ao lidarem com a cultura das minorias (religiões afro-brasileiras) ao escreverem seus textos e veicularem notícias e reportagens nos meios de comunicação, enfocando as religiões afro-brasileiras; 2) Há ou não uma exclusão da mídia pelos temas considerados como culturas das minorias (religiões afro-brasileiras)?.  

Vagner - Gerson, suas questões revelam uma percepção importante: as dinâmicas das entrevistas variam em função dos seus objetivos e dos sujeitos nelas envolvidos (apenas para citar duas variáveis entre inúmeras outras). Assim reflexões sobre a utilização dessa técnica de investigação em diferentes áreas devem ser feitas considerando os interesses específicos. Não me considero apto a falar de “limites” ou postular regras na área dos meios de comunicação (ou em outras áreas), mas durante alguns anos dei aulas de antropologia para alunos de um curso de jornalismo e costumávamos analisar as notícias, algumas inclusive sobre as religiões afro-brasileiras, veiculadas pela imprensa escrita, discutindo os preconceitos que nelas existiam imersos na suposta forma “neutra e objetiva de narrativa dos fatos”. 

Acho que os meios de comunicação possuem uma “política de temas” que está vinculada, entre outras coisas, ao seu próprio perfil político-ideológico e a uma lógica mercadológica. De qualquer forma, todo discurso sobre o outro é uma forma de representação e colocar na pauta a própria construção dessa representação pode ser um hábito salutar tanto para os profissionais dos meios de comunicação como para os das ciências sociais.

>>  Isanda Canjão / Comunidade Virtual - Há alguns anos atrás tive acesso em São Luís, através do professor Sergio Ferretti, à tese do professor Vagner Gonçalves, muito interessante. Gostei não apenas do conteúdo, mas da metodologia utilizada.Ao falar do trabalho de campo, é bastante significativo e sensivelmente ressaltada a questão do envolvimento do "pesquisador. O professor Vagner utiliza uma perspectiva, freqüente, enfatizada por Geertz de que "realizamos uma interpretação da interpretação", premissa fundamental para a relativização de valores e significados culturais existentes. A questão que venho levantar diz respeito ao envolvimento do pesquisador e ao processo de relativização e interpretação dos dados. Parece que o trabalho de campo sempre nos prega uma peça, visto que, o envolvimento necessário, a familiarização com o universo e "objeto" de pesquisa, nos imprime também autoridade, a autoridade do interlocutor. Uma autoridade manifestada quando escolhemos e apresentamos os dados. Claro que o trabalho do pesquisador não pode desconsiderar esse preceitos, é este o caminho traçado. No entanto, será que conseguimos relativizar nossa autoridade, admitir nossa relação de poder junto ao campo, principalmente quando nosso envolvimento é permeado por sensações prazerosas, por uma diversidades de sentimentos e emoções? Por fim, como relativizar um "poder" e autoridade incentivados na academia e, muitas vezes, desejados e reconhecidos no próprio campo?

São estas perguntas que sempre me acompanham, porque sempre são condições presentes. Um abraço, Isanda Canjão.

Vagner - Isanda, sua pergunta me trouxe à mente a imagem de um antropólogo-herói voltando de suas viagens ao campo, amarrado ao mastro de um barco e tentando resistir ao chamado da sereia que lhe oferece Poder em troca do Conhecimento adquirido sobre o outro. Acho que este poder de fato existe, mas existe de muitas formas e em diferentes graus considerando as áreas de pesquisa, contextos acadêmicos, trajetória pessoal dos pesquisadores etc. No campo das religiões afro-brasileiras, sobre o qual minha “autoridade de falar” é mais legítima, procurei “relativizar” este poder (ou iniciar uma discussão sobre o tema) refletindo sobre as próprias condições de produção das representações etnográficas e seu impacto nos grupos religiosos estudados pelos antropólogos. Colocar esta discussão na pauta, como já mencionei, é importante não porque assim fazendo nos libertaremos dos apelos da sereia. Que o conhecimento é poder, já sabemos; mas o que resulta quando investigamos do que são feitas nossas amarras (seja porque pleiteamos recusar os braços da sereia ou neles cair apaixonadamente), penso que isto mereça ainda algumas reflexões.


>> Comunidade Virtual - Em suas publicações fica claro a importância do trabalho dos antropólogos para a definição de um padrão de pureza dos candomblés. Quer dizer.o papel da razão científica interferindo no terreno da fé. E o outro lado da questão, ou seja, qual importância o contato intenso do pesquisador no mundo dos candomblés tem para o trabalho antropológico?

Você diz que "'acreditar' nem sempre é o único verbo que os adeptos nos pedem para conjugar quando nos falam e nos convidam a penetrar nos espaços mais sagrados e íntimos do culto". Até que ponto o contato íntimo do pesquisador com o povo-de-santo faz aumentar ou diminuir sua fé? Um antropólogo que 'crê' é mais valorizado no meio do candomblé? E na academia, há um confronto entre fé e razão, ou uma harmonização?

Vagner - Na área dos estudos afro-brasileiros, as informações sobre a natureza e intensidade do contato do pesquisador com os grupos estudados raramente aparecem descritas nos textos etnográficos de forma mais sistemática, o que torna difícil a análise de sua importância para o processo de construção das etnografias. Sabe-se, entretanto que o contato intenso do pesquisador (incluindo participação em vários níveis nos rituais dos terreiros) faz parte de uma certa rotina de pesquisa na área, por isso optei por realizar entrevistas com antropólogos e religiosos pesquisados para tentar reconstituir minimamente algumas características da relação entre participação na religião e elaboração das representações. O problema é que nós, antropólogos, assim como nossos “nativos”, também demonstramos um descompasso entre o que falamos e o que fazemos. A diferença é que além de tudo ainda escrevemos.

Falar sobre intensidade da fé dos pesquisadores é muito difícil devido aos aspectos subjetivos que esta noção envolve. Procurei analisar os vários significados que a fé pode ter quando transformada em tema de um discurso inserido numa dinâmica de entrevista entre mim e os pesquisadores. Os grupos religiosos tendem a valorizar mais os pesquisadores que demonstrem sinais de sua crença, mas isto não deve ser visto como uma regra absoluta. Na academia, os critérios de valorização são outros, mas como reconhecimento e legitimidade também resultam de uma ação entre pares, o pesquisador pode fazer valer seu conhecimento e sua inserção religiosa para estabelecer alianças com certos grupos tanto no mundo da academia como no dos terreiros ou entre estes dois mundos. 


>> Comunidade Virtual - Vários antropólogos afirmam que o trabalho de campo se estabelece na relação entre o pesquisador e o nativo - muito diferente da antiga concepção polarizante observador/observado. Quando encontra uma abertura para o diálogo, para a interação, para olhar e ser visto, parece que o trabalho do antropólogos será facilitado. A pergunta é: e quando a paisagem etnográfica se torna refratária ao contato? É possível realizar um trabalho de campo quando a cultura cria barreiras/obstáculos para ser investigada, ou seja, é importante a participação do outro na constituição do texto etnográfico? Sua negativa impossibilita a articulação do discurso antropológico, ou este é independente da vontade nativa? 

Vagner - Bom, se o grupo cria barreiras/obstáculos para ser investigado é porque ele está expressando uma vontade que deveria ser respeitada pelo antropólogo. Mas é preciso lembrar que o “discurso antropológico” não resulta apenas de inserções a campo e, além disso, o problema não está nesta rejeição declarada que em si mesma deveria ser suficiente para descartar a inserção do antropólogo. A questão principal é que vivemos uma situação de tensão constante em campo, pois a inserção, mesmo quando consentida, não vem com manual de instrução e geralmente lidamos com pessoas reais, e não com entidades do discurso como ‘o grupo”, “o terreiro”, ‘o mundo do candomblé” etc. Assim, os limites do que se pode ou não fazer (observar, invadir domínios, colocar-se como uma sombra constante na vida das pessoas) serão sempre resultados de negociações importantes para o próprio conhecimento que se produz nestas condições. 

Nossos interlocutores em campo são sempre importantes para a constituição do texto etnográfico, mas talvez a pergunta contemporânea seja: É importante pensarmos nesta importância? Acredito que sim, não porque com isso estaríamos sendo “politicamente corretos”, “dando voz aos nossos informantes”, “respeitando a vontade nativa” (que é tão etérea quando a “vontade dos antropólogos”), mas porque ao fazermos isso, podemos fixar a construção do discurso antropológico também em formas observáveis como os demais discursos sociais que reconstruímos.


>> Comunidade Virtual - Geertz, em "O saber local", diz que a questão é muito menos de "empatia" em relação aos nativos do que de "descobrir que diabos eles acham que estão fazendo" (p. 89). Você, particularmente, pensa que é necessário ter "empatia", quando propõe o exercício da alteridade na prática etnográfica, através do desenvolvimento de uma relação dialógica entre pesquisador (antropólogos de carne e osso) e pesquisado (nativos de carne e osso), onde os pesquisados devem ser considerados até mesmo "co-autores" dos textos etnográficos?

Considerando o ofício do antropólogo e sua busca de compreensão do outro, associada a uma postura relativista, como agir em situações em que parece ser impossível o exercício de tornar o exótico familiar? Possíveis "mal-estares" sentidos por um antropólogo diante de seu objeto, "nativos de carne e osso", podem comprometer os resultados de uma pesquisa? Essa pergunta mostra-se em grande parte motivada pela perplexidade gerada a partir dos últimos ataques terroristas nos EUA. Imaginemos o estudo de "grupos terroristas". Em casos como esse, bastaria ao antropólogo, avesso ao terrorismo, não omitir em seu texto etnográfico, nem mesmo deixar para as introduções e notas de rodapé, certos "estados metafísicos da alma", como você mesmo diz? Até que ponto tais "confissões" são aceitas e não comprometem um trabalho que se quer antropológico? 

Vagner - Acho que é muito mais difícil fazer antropologia quando o sujeito não tem uma sensibilidade especial para se deixar “desfocar” e ver o mundo sob outras óticas, pois se não devemos ver o mundo “nativo” com nossos próprios olhos e não podemos vê-lo com os “olhos do nativo”, só nos resta esse “exercício esquizofrênico” de tentar ver o que os outros nos dizem que estão vendo. Entretanto, devemos acrescentar a esta fórmula de Geertz o fato de que o tempo todo também vemos coisas das quais não podemos nos desvencilhar totalmente. Em minha experiência de pesquisa aprendi muito quando as pessoas riam de minhas perguntas e me faziam entender através de suas respostas o quanto elas eram descabidas. A sensibilidade necessária para o contato com seres humanos num processo de investigação não deve ser confundida com a “empatia”. Esta, aliás, não me parece necessária para o exercício da antropologia e o estabelecimento de um conhecimento sobre a alteridade. Nossa preferência pelo estudo de grupos marginalizados fez da empatia e solidariedade que efetivamente demonstramos pela luta destes grupos por melhores condições de vida, valores desejáveis à prática da disciplina. Entretanto, o estudo dos grupos dominantes, racistas, homofóbicos etc poderia revelar que mesmo na ausência de empatia, essa sensibilidade especial continua sendo necessária para produzir esse descentramento. Afinal, qualquer projeto de investigação da alteridade pressupõe (ou deveria pressupor no meu entender) uma exegese dos qualificativos, inclusive morais e éticos, que permeiam as relações entre os sujeitos envolvidos (incluindo o antropólogo). 


>> Comunidade Virtual - Anotações no diário de campo, imagens congeladas nas fotografias ou revividas nas fitas de videocassete são "frágeis fios de Ariadne que precariamente nos ajudam a não nos perdermos nos labirintos do outro". Você acha que as possibilidades geradas pela Internet, conexão entre som, imagem e texto (hipertexto), poderiam contribuir para que trabalhos etnográficos, que utilizem esse suporte, vejam amenizadas a tortuosa passagem do campo ao texto, evitando que nos percamos nos "labirintos do outro"? Ainda falando da Internet, você pensa que ela "denuncia" ainda mais os limites do texto etnográfico "impresso" e a necessidade de se colocar o próprio texto, senão o método etnográfico como objeto de investigação? 

Vagner - Alguns dilemas da passagem do campo ao texto, como o da transposição de uma experiência performática e polissêmica da alteridade para uma representação mais prescritiva e restrita, certamente sofrerão importantes impactos com o advento da hipermídia e sua difusão. Atualmente, a academia ainda está muito reticente sobre a capacidade e legitimidade de um discurso imagético ser capaz de, por si mesmo, transmitir reflexões ou algum tipo de saber antropológico (sem contar o próprio uso da Internet como meio ou objeto de pesquisa de campo). A possibilidade de articular textos, imagens e sons de forma não linear pode trazer, entretanto, um novo alento para as discussões sobre representação etnográfica, seja quando consideramos a etnografia sob a ótica de uma “descrição densa”, de uma “rede de significados”, ou de um “texto confuso” potencialmente mais aberto aos múltiplos interesses dos autores e leitores. Para o processo de construção das etnografias, sobretudo as mais experimentais que apostam na dialogia, a hipermídia sugere, portanto, caminhos muito tentadores. Além disso, as inúmeras possibilidades e usos da hipermídia e da Internet permitirão um reordenamento das relações de poder associados aos tradicionais campos de produção e divulgação do conhecimento científico. 

 

 

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