Entrevista (Edição >> abr - mai 2001)


Nesta entrevista, a Comunidade Virtual de Antropologia conversa com Alexandre Fernandes Corrêa (*), que acaba de defender sua tese de doutorado "Vilas, Parques, Bairros e Terreiros: Novos patrimônios na cena das políticas culturais em São Paulo e São Luís" - Doutorado em Ciências Sociais da PUC/SP. 

Alexandre nos fala a respeito do seu tema de pesquisa sobre "as recentes mudanças de perspectivas e paradigmas na preservação, conservação e promoção dos chamados 'novos patrimônios'"; além de falar sobre o processo de escrita da tese, os sentimentos contraditórios que eclodem no momento de defesa, dentre outras questões.


Bloco I - Sobre o tema de pesquisa


>> Comunidade Virtual - Por que estudar as políticas de tombamento de cidades que num primeiro momento parecem tão distantes e diferentes? Onde São Luís e São Paulo se encontram ou se distanciam? 

Alexandre - O fato de São Luís e São Paulo apresentarem contrastes tão marcantes, por si só é um convite à pesquisa antropológica comparativa. De um lado uma cidade histórica com desenvolvimento industrial e de serviços recentes, de outro uma metrópole de dimensões estatísticas impressionantes. Este quadro propiciou à observação de diferentes políticas de tombamento em contextos regionais peculiares. O que aproxima uma da outra são percepções semelhantes em relação a necessidade urgente da salvaguarda de acervos bio-culturais em risco, o que distancia são os métodos e as prioridades.


>> Comunidade Virtual - Você fala de mudanças de perspectivas e paradigmas na preservação, conservação e promoção dos chamados Novos Patrimônios. O que está mudando? Para onde apontam essas mudanças? 

Alexandre - Os chamados Novos Patrimônios são novos objetos heteróclitos que aparecem no cenário preservacionista contemporâneo: vilas, parques, bairros, terreiros, cinemas, árvores, teatros, etc. O que está mudando é “arquitetura da destruição” engendrada pela conhecida “globalização”. Vestígios e traços identitários, modos de vida, etc., correm o risco de desaparecerem no confronto com a barbárie contemporânea. As mudanças nas perspectivas e paradigmas se dão no sentido da recuperação urgente destes bens e acervos bio-culturais.


>> Comunidade Virtual - De que forma os novos paradigmas dizem respeito à velha dicotomia natureza/cultura? 

Alexandre - Os novos patrimônios rompem com a velha dicotomia natureza/cultura. Eles trazem a novidade de serem patrimônios bio-culturais integradores, em que a fragmentação finalmente é superada.


>> Comunidade Virtual - Hoje, o que se encontra em situação de risco em termos de patrimônio cultural? 

Alexandre - Traços culturais, formas de vida tradicionais, qualidade de vida, saúde das crianças, parques públicos, a vida animal e vegetal, etc. 


>> Comunidade Virtual - Qual a relação da memória com a identidade cultural? 

Alexandre - Total. As memórias coletivas são o substrato, o lastro das identidades culturais. É da memória que os grupos humanos retiram o repertório de traços identitários, para a construção de suas singularidades provisórias, que estão sempre em processo, variando no tempo e no espaço.


>> Comunidade Virtual - O que significam os termos "etnologia do patrimônio" e "meta-etnologia"? Qual sua especificidade? Podem ser consideradas áreas da Antropologia? 

Alexandre - A etnologia do patrimônio é um campo da antropologia e enfoca os processos étnicos ligados a construção de patrimônios coletivos. A meta-etnologia referida é uma perspectiva transdisciplinar de análise, uma atitude intelectual que supera os reducionismos etnológicos presentes na prática científica.


>> Comunidade Virtual - Muitos internautas têm manifestado curiosidade sobre aspectos específicos do trabalho de campo. Poderia falar um pouco mais de sua pesquisa de campo? Dificuldades encontradas, metodologia utilizada...? 

Alexandre - O trabalho de campo desenvolvido nesta pesquisa não foi difícil de efetuar. Como morei nas duas cidades por anos suficientes pude exercitar observações e entrevistas num prazo razoável. As vicissitudes de se viver em “selvas” urbanas são mais ou menos confortáveis, dependendo do ponto de vista. A metodologia foi comparativa, se assim posso dizer, não me apeguei a “correntes” de pensamento específicas. Meu objetivo foi “observar”, “entrevistar”, “investigar”, “ler” e “escrever”. Não acredito na “metodologia” em sí, existe sim teorias antropológicas e métodos de trabalho, mas não “metodologia”.


>> Comunidade Virtual - Que autores da Antropologia acompanharam seu trajeto durante a pesquisa? Marcel Mauss faz parte deste rol? 

Alexandre - Os autores que utilizei foram diversos, o que criou um ambiente um tanto eclético. O que não foi um mau, pelo contrário. Poderia citar, portanto, diversos autores, mas para ser informativo cito Mário de Andrade, Darcy Ribeiro, Edgar Carvalho, no Brasil. No contexto europeu, cito, K. Pomian, H.P. Jeudy, Edgar Morin, entre Outros. Quanto à Marcel Mauss, digo que foi a fonte inspiradora fundamental. Seu lema: “é preciso recompor o todo”, sedimentou o meu trabalho do início ao fim.


>> Comunidade Virtual - Qual a maior contribuição de seu trabalho? 

Alexandre - Acredito que meu trabalho contribui para a formação e fortalecimento de uma consciência cidadã sobre os patrimônios bio-culturais no Brasil. Creio que a linha de força principal dos textos que produzi é a luta pela salvaguarda de muitas coisas boas nessa vida, tipo: vilas, parques, bairros, terreiros, cinemas, teatros, e tudo mais que corre o risco de desaparecer no cenário das cidades brasileiras. Bens e acervos hoje ameaçados pela especulação imobiliária feroz, pelos shopping-centers, pelas barragens hidrelétricas, pelos estacionamentos de automóveis, pelos viadutos, etc.


Bloco II - Sobre a defesa


>> Comunidade Virtual - Sem dúvida a defesa de tese é um momento especial. Alguns consideram-no como angustiante, outros como mágico e pleno, como se fosse o nascimento de um novo ser. Você poderia falar de seus sentimentos às vésperas da defesa da tese?

Alexandre - É um momento em que eclodem sentimentos contraditórios. De um lado marca o fim de um processo de pesquisa, de outro, o começo de uma nova etapa na carreira de professor e pesquisador. Sem dúvida que é um ritual de passagem acadêmico importante, mas é também curioso já que encena conflitos internos e externos. Acredito que a humildade do conhecimento é a melhor forma de evitar problemas narcísicos mais sérios.


>> Comunidade Virtual - Quais as maiores dificuldades encontradas na elaboração de seu trabalho? Teóricas? Metodológicas? Práticas?

Alexandre - As adversidades foram muitas e estimulantes, não tenho condições de hierarquizá-las, no entanto. O certo é que tive sorte de escolher um assunto fascinante. Como o tema me contagiava cada vez mais, as dificuldades foram superadas com trabalho e dedicação.


>> Comunidade Virtual - Fale um pouco da composição de sua banca. Você participou da escolha de seus componentes? Foi um processo consensual? Ficou satisfeito com a forma como esta escolha aconteceu?

Alexandre - A Banca Examinadora contou com minha participação na composição dos membros. Acho isso importante. Esperava o melhor dos participantes, e estou satisfeito.
 

>> Comunidade Virtual - O que a banca apontou como ponto forte e franco de sua tese? 

Alexandre - A Banca Examinadora apontou como ponto forte a novidade do conceito de Patrimônios Bio-Culturais, por mim formulado. Um dos membros chegou a sugerir que se fizesse uma carta ao Ministro da Cultura, propondo que se instituísse essa figura pelo IPHAN. Os pontos fracos foram apontados no que diz respeito ao formato dos capítulos, sugerindo uma nova composição dos textos, para edição futura.


>> Comunidade Virtual - Os membros da banca possuem posições teóricas distintas?

Alexandre - Alguns membros da Banca divergiram quanto a perspectiva etnológica assumida no trabalho. Criticaram também o romantismo de minhas posições políticas.


>> Comunidade Virtual - Quais questões foram levantadas durante a defesa da tese e que ate aquele momento você não tinha pensado? 

Alexandre - Exatamente a que se refere à perspectiva etnológica. Creio que é um ponto que devo considerar. Uma perspectiva antropológica parece ser a mais abrangente, e evitaria com mais eficiência os reducionismos próprios às posições disciplinares restritas.


>> Comunidade Virtual - O que ficou faltando nesta tese? Há desejo de se aprofundar nestas questões num segundo momento?

Alexandre - Sempre falta alguma coisa num trabalho de pesquisa realizado em 4 anos. Mas pretendo continuar buscando aprimorar dados e a superação dos principais problemas teóricos colocados no estudo. Pretendo avançar no pós-doutorado, com pesquisas sobre a eficácia das práticas preservacionistas contextualizadoras, assim como na busca por novas práticas museológicas.


>> Comunidade Virtual - Como foi sua relação com o orientador?

Alexandre - Minha relação com a orientadora Dra. Teresinha Bernardo (PUC/SP) foi interessante, mas por vezes confusa e conflitante. Minha postura foi auto-didata, procurei exercitar a maior autonomia possível no campo acadêmico.


>> Comunidade Virtual - Como é ser um doutor?

Alexandre - Ser doutor é um passo importante na carreira de um pesquisador e professor, abre novas portas e inaugura novas responsabilidades. É um prazer sentir concretizar sonhos e desejos de juventude, e que agora estão mais vivos do que nunca. 

Clique aqui e leia o resumo e índice da tese (PDF).

OBS: para ler o arquivo em PDF, faça o download do Acrobat Reader em www.adobe.com/products/acrobat/readstep2.html. No caso de dúvida, entre em contato conosco.

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(*) Alexandre Fernandes Corrêa  é natural do RJ - 1963. Bacharel em Ciências Sociais (IFCS/UFRJ) (1986). Mestre em Antropologia Cultural (CFCH/UFPE) (1993). Doutor em Ciências Sociais (PUC/SP) (2001). Professor Adjunto da UFMA (1991).

 

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