Entrevista (Edição nº 44)

"Travessias e cruzamentos culturais"

A nossa entrevistada desta edição é Helenice Rodrigues da Silva. Historiadora, ela cursou a graduação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em seguida, partiu para a França, nos anos 1970, onde viveu por mais de duas décadas. Fez uma especialização em História Contemporânea na Université de Franche-Comté (Besançon), o mestrado e o doutorado em História e em Ciências Humanas na Université de Paris X (Nanterre). Trabalhou como pesquisadora associada no Laboratório Communication et Politique – Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS, Paris) até 1996; regressou ao Brasil e lecionou na USP, durante um ano. Em 2004, ela realizou um pós-doutorado no Institut d’Histoire du Temps Présent (CNRS, Paris). Atualmente, ela é pesquisadora do CNPq. Helenice Rodrigues publicou dezenas de artigos em periódicos e em capítulos de livros nacionais e estrangeiros e escreveu 2 livros de autoria exclusiva: “Texte Action et Histoire: Refléxions sur le Phénomène de l’engagement” (Paris: L'Harmattan, 1995, 185p) e “Fragmentos da história intelectual: entre questionamentos e perspectivas” (Campinas: Papirus, 2002, 160p.).

Este ano, Helenice Rodrigues (professora associada na UFPR) acaba de ter mais uma obra publicada, organizada por ela e por Heliane Kohler (professora na Université de Franche-Comté – França), intitulada: “Travessias e cruzamentos culturais - a mobilidade em questão” (Rio de Janeiro: FGV Editora, 2008. 203 p), objeto desta entrevista. Esse livro reúne 10 textos cujos interstícios dos mesmos convergem para a problemática da mobilidade. Resultado de trabalhos de pesquisas nas áreas da História, Literatura Comparada, Comunicação, Sociologia e Ciência Política, ele exprime diferentes objetos e abordagens: Helenice Rodrigues analisa o exílio dos intelectuais e os intelectuais exilados; Heliane Kohler, o personagem narrador migrante em Caio Fernando Abreu; Vera Lucia Soares, as travessias culturais em Milton Hatoum; Maria Fernanda Arentsen, as migrações e nomadismo em Sergio Kokis e em Carlos Fuentes; Eliane Scotti Muzzi, a paisagem e a cultura no poeta árcade Claudio Manuel da Costa; Angelina Vinagre Mendes estuda a travessia cultural em obra de Nélida Piñon; Renato Lopes Leite questiona a idéia do republicanismo no Brasil em Cipriano Barata; Eliane Freitas Dutra apresenta um estudo da cultura brasileira dos anos 30 através da Coleção Brasiliana e Cia Editora Nacional; Walnice Nogueira Galvão examina a temática dos intercâmbios culturais através da Carmen Miranda, do Pato Donald e dos manuais escolares; e, finalmente, Laurent Jeanpierre faz uma análise crítica do lugar da exterritorialidade. Todos esses ensaios têm em comum o tema da mobilidade e a idéia do movimento. Noção polissêmica, a mobilidade se encontra, atualmente, aplicada ao contexto sociocultural da globalização. Assim, são analiticamente explorados os conceitos de desterritorialização, transculturação e alteridade, pelas vias do exílio, do desterro, das mudanças espaciais e das transposições culturais.


>> CVA - Olá Helenice, obrigada pela entrevista. Você poderia começar nos falando um pouco sobre “cruzamentos culturais” enquanto temática?

Helenice - Dos 10 autores dessa coletânea, dois são de origem estrangeira e seis (autoras) viveram experiências de desterritorialização, ou seja, partindo para o exterior, por um curto ou por um longo tempo, conheceram de perto processos interculturais e transculturais. Analisando temáticas diversas como: o exílio, a migração (na literatura), as circulações culturais, a exterritorialidade, procuramos mostrar os fenômenos de interações, de imbricações, de transposições, de traduções, de apropriações de modelos estéticos e políticos. Através desses exemplos tentamos ressaltar, no contexto da “mundialização” do conhecimento, o hibridismo e o cruzamento cultural. Praticamente, não existem culturas que não tenham sofrido processos de “transferências culturais”. Tema recorrente dos estudos sócio-culturais e da história intelectual na Europa e nos Estados Unidos, as noções de cruzamentos e de transferências culturais transformaram-se em paradigmas epistemológicos, nessa última década.

>> CVA - A relação de tudo isso com o fenômeno sócio cultural da globalização é direta; podemos dizer que trata-se de uma abordagem teórica demandada pelo nosso tempo sob o signo da globalização...

Helenice - No contexto atual da globalização, marcado paradoxalmente, pelo sentimento de eliminação de fronteiras e pela “vigilância” de espaços, ou seja, por essa consciência difusa de se pertencer, embora não pertencendo, a um mesmo e único mundo, as questões culturais tendem a ocupar uma posição central nos debates teóricos. Conduzindo a uma distorção do espaço e do tempo, o fenômeno da globalização acentua, sem dúvida, o sentimento de perda de identidade. Nas ciências humanas, as reivindicações culturais tiveram por conseqüência a revalorização do paradigma das identidades. O culto do passado predispôs a própria disciplina história a se mobilizar na construção de memórias coletivas e de identidades particulares. No entanto, vivemos num mundo globalizado (pela economia e comunicação), significando fluxo migratório, intersecção de cultura, circulação virtual.

>> CVA - A mobilidade social é um tema caro à Antropologia, como é que essa temática inaugura um novo paradigma?

Helenice - Essa noção emerge com o movimento das Luzes no século XVIII, conotando a idéia de liberdade e de emancipação social. Conceito polissêmico, a mobilidade exprime significados diversos em função de situações e contextos históricos. Se nos anos 60/70, a idéia da mobilidade traduziu um sentimento libertário, a partir da década dos 80, com a globalização da economia, ela passa a exprimir uma palavra de ordem das estratégias econômicas: flexibilidade, adaptabilidade e/ou precariedade. “Mobilidade” significa assim adaptação às regras do mercado, o que exige deslocamentos e efemeridade, como mostramos na introdução teórica da coletânea.
Sinônimo de “nomadismo” (em Deleuze), a mobilidade reveste de significados diversos: filosófico, antropológico, histórico, econômico.....

Levando em conta os objetos de estudo escolhidos (a circulação de pessoas e idéias nos anos 1970), nos baseamos, particularmente, na teoria deuleuziana. Uma leitura antropológica de Deleuze sobre a “mobilidade” revela a idéia de uma descentralização em relação à norma, um novo esquema identitário voltado para a margem. Conhecido pelo nome os “trinta anos gloriosos”, as décadas de 60/70 na Europa ocidental (e nos EUA) permitem a colocação em prática dos movimentos de resistência à ordem, à autoridade, ao conformismo. A “mobilidade” serviu de parâmetro identitário dessa geração, em busca, não de uma revolução política mas de uma revolta existencial.

>> CVA - Orientando as análises e observando as referências bibliográficas utilizadas pelos autores dos ensaios, podemos identificar alguns teóricos recorrentes. Você poderia melhor destacá-los para os nossos leitores? Talvez possa comentar rapidamente a importância de um ou outro mais representativos...

Helenice - Alguns livros teóricos contribuíram para nossa pesquisa, como, por exemplo: G. Deleuze e F. Guattari. Mille Plateaux (Capitalismo e Esquizofrenia) publicado em 1980 (o conceito de “desterritorialização”). Os trabalhos de Michel Espagne sobre “transferências culturais” (Transferts culturels franco-allemands); Michael Werner sobre o método de “cruzamentos culturais” (De la comparaison à l’histoire croisée); Zilá Berndt, (Americanidade e transferências culturais), etc. No Brasil essa questão é trabalhada, notadamente, nos estudos de literatura comparada.

>> CVA - A mobilidade social tal como vocês organizaram neste volume aparece como um tema multiplidisciplinar, o que é uma forma de transpor igualmente fronteiras disciplinares. Foi intencional ou foi demanda do tema?

Helenice - Ambos. Estudar a noção de mobilidade sócio-cultural pressupõe a ultrapassagem de fronteiras: geográficas, teóricas, disciplinares. Tentamos federar as disciplinas, através de uma abordagem interdisciplinar. Em outras palavras, procuramos refletir sobre as mesmas problemáticas, a partir de objetos e temas distintos das ciências humanas e sociais. Valorizamos a idéia da transversalidade, da alteridade, do “entre dois”, das travessias, estudadas pelas diferentes disciplinas.

>> CVA - Os artigos do livro tratam da mobilidade em seus diversos possíveis – exílio, deslocamentos, desterritorialização, assimilações, apropriações, transposição, etc -, você poderia destacar em que aspectos estes fatos são distinguidos do exílio, dos deslocamentos, etc, de outros tempos?

Helenice - O exílio tornou-se uma metáfora do deslocamento, No meu capítulo apresento-o, ao mesmo tempo, como um drama da expatriação e uma chance de reconstrução de uma nova identidade. Os exílios (forçados ou voluntários) e as migrações, ou seja, a desterritorialização, possibilitam as interações culturais. O fenômeno de relações, intercâmbios, circulação de idéias e pessoas é constitutiva da história. Através deles ocorrem, simplificando ao máximo nosso pensamento, as apropriações que, inevitavelmente, geram processos de tradução, de assimilação, de deformação. O estudo do método das “transferências culturais”, desenvolvido nos estudos culturais franco-alemães permite melhor compreender esses fenômenos.

>> CVA - No teu ensaio, você trata do exílio dos intelectuais, sugerindo a existência de uma relação estreita entre o distanciamento e uma produção científica e crítica em intelectuais exilados e, ao mesmo tempo, distinguindo percepções diferentes do exílio nos casos brasileiro, latino-americano e europeu. Você poderia nos dizer em poucas palavras o que determina estas percepções?

Helenice - Os exílios na história sócio-cultural do século XX foram determinados pelas circunstâncias políticas: guerras, ascensão do totalitarismo, repressões do autoritarismo político. Nos anos 30/40, o exílio dos intelectuais judeus alemães, em direção aos Estados Unidos, constituiu o mais importante em termos numérico e qualitativo. No final da guerra da Espanha, o exílio dos intelectuais na França foi, igualmente, significativo. Já nos anos 1970, o exílio dos chilenos, provocado pelo golpe de estado de Pinochet, desencadeia na Europa uma enorme solidariedade por parte do governo e da sociedade. Data, em grande parte, dessa época a chegada de uma nova leva de brasileiros ao exílio. Comparativamente, esses dois exílios se distinguem fundamentalmente.

>> CVA - Helenice, em nome de toda a equipe da CVA agradeço esta entrevista e desejo sucesso no teu trabalho, Gláucia.

Helenice - Agradeço-lhe pela oportunidade de expor, sumariamente, nosso livro.


Atualizado em 30/09/08

 

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