Entrevista (Edição nº 43)

"Etnografia urbana"

A nossa entrevistada desta edição é Janice Caiafa, graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (1980), mestre em Antropologia Social também pela UFRJ (1985) e em Antropologia pela Cornell University (1988), doutora em Antropologia também pela Cornell University (1990), com pos-doutorado pela City University of New York (1999). Janice é professora associada da Escola de Comunicação da UFRJ e pesquisadora do CNPq. Atua nas áreas de Comunicação e Antropologia, com ênfase em Teoria da Comunicação e em Antropologia Urbana. Publica textos científicos e poéticos: 1 dezena de livros de sua autoria ou por ela organizados e dezenas de artigos em periódicos ou capítulos de livros publicados. Dentre as suas publicações, destacamos Jornadas Urbanas (Editora FGV), Nosso século XXI (Relume Dumará), Cinco ventos e ouro (7Letras).

Para esta entrevista, ela vai nos falar um pouco sobre sua última obra publicada: Aventura das cidades. Ensaios e etnografias (Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007, 184p.). Este livro traz sete ensaios e um capítulo teórico sobre pesquisa etnográfica. Os ensaios são curtas etnografias sobre aspectos e experiências no Rio de Janeiro e em Nova York, abordando problematizações sobre o trânsito urbano, ocupação das ruas, transporte coletivo, conversas e contatos com transeuntes urbanos.

>> CVA - Janice, de onde veio a tua inspiração para todo um trabalho voltado para etnografia urbana?

Caiafa - As cidades constituem um campo de experimentação e investigação muito importante e atraente. Tantas atividades se desenvolvem ali ou se voltam em algum grau para o espaço urbano. Félix Guattari (em Caosmose) chama a cidade de "problema cruzamento", querendo indicar a multiplicidade de vetores que atravessam a experiência urbana e cujo estudo requer também uma abordagem múltipla.

Desde há muito sou atraída pela propriedade que se desenvolve nos meios urbanos de abrigar e mesmo produzir diversidade. Como mostra o historiador Lewis Mumford (The City in History), as funções urbanas se desenvolvem quando a cidade atrai estrangeiros, outsiders que ali chegam por vários motivos. Escrevo em Aventura das cidades que é capturando atrativamente uma exterioridade que a cidade se constitui. O meio urbano é caracteristicamente heterogêneo, produzido por fluxos que não cessam de atravessá-lo. Embora haja diferentes tipos de configurações urbanas, a heterogeneidade e o movimento são um vetor que, desde seus inícios, caracteriza as cidades, estabelecendo um contraste com os meios fechados e familiais, por exemplo, do pequeno povoado.

Sempre me fascinou nas cidades a possibilidade de avistar ou encontrar estranhos, o fato de que muito de nossa experiência ali envolve uma convivência com desconhecidos. Os encontros citadinos são portanto marcados pela imprevisibilidade. Trata-se de um contato que tem pouco de reconhecimento e muito mais de diferença, de confronto com a alteridade. Isso gera ao mesmo tempo o risco e a abertura para a novidade — tão característica da intensidade urbana.

Daí também meu interesse pelo transporte coletivo. O transporte coletivo é um forte vetor de heterogeneização nas cidades. Embora não supere certamente os códigos sociais, ele realiza em algum grau uma dessegregação, mesmo que provisória e local, como já indico em Jornadas Urbanas.

A etnografia é um tipo de pesquisa que desde o início cultivou uma relação com a alteridade, preocupando-se com a possibilidade de viver e descrever/entender (no mesmo golpe) experiências estranhas, levando-as ao leitor e fazendo pensar. A cidade, creio, pode ser um lugar muito propício para essas inquietações.

>> CVA - Você considera que esses dois complexos universos urbanos (RJ e NY) facilitaram a tua investigação? 

Caiafa - Para o estudo dos transporte coletivos, e particularmente no Rio de Janeiro, Nova York é um caso muito interessante e que vale a pena invocar. Em primeiro lugar, foge ao modelo de cidade de dependente do automóvel predominante no país. Há o fenômeno dos guetos e das investidas da gentrificação — destruição (muitas vezes paradoxalmente chamada "revitalização") de regiões da cidade para a habitação e o consumo dos mais ricos. Mas sua incidência não parece impedir que a cidade se reinvente constantemente como lugar heterogêneo, aberto aos fluxos de pessoas, idéias e atividades, guardando regiões de forte exposição à diferença.

Nesse meio diverso, a presença de um sistema de transporte coletivo antigo (que cresceu com a cidade) e consolidado é componente importante. Um ponto crucial é o fato — pouco conhecido — de que esse transporte coletivo eficiente e que ajuda a produzir a cidade é, em sua maior parte, público. A propriedade e a operação do metrô, de todas as linhas de ônibus e do principal serviço de barca (Staten Island Ferry, que é gratuita) são do setor público. Aliás, a tendência em todo os Estados Unidos é que o transporte urbano local esteja nas mãos do setor público. Esse fato também é muito pouco mencionado. Sabemos que não é essa a receita que os países desenvolvidos, através das organizações mundiais em que eles predominam, prescrevem para o terceiro mundo. Pois em Nova York se descobriu que é bom para economia e é bom para a cidade que o transporte seja público.

Acho muito interessante trazer essas idéias e essas práticas para o estudo do transporte coletivo entre nós. No Brasil, tantas vezes se celebra apressadamente as soluções privadas, como sabemos. O setor de transportes é eloqüente em mostrar que a conversão para os circuitos do lucro privado pode trazer um confronto incontornável com o caráter de serviço. Problematizar a adesão inquestionada às soluções privadas é um exercício importante hoje. Precisamente, é uma preocupação da etnografia fazer com que estranhemos uma idéia pronta, forçar a pensar (uma expressão de Gilles Deleuze). Não que não se deva desenvolver uma perspectiva crítica em relação à administração pública entre nós. A pesquisa deveria tentar realizar isto também.

>> CVA - A etnografia clássica antropológica se assenta sobre “o outro”, distante da realidade do pesquisador moderno com vistas à objetivação científica, como é fazer uma “etnografia urbana”?

Caiafa - A etnografia tem essa inquietação com outras experiências, é marcada pelo desejo de conhecimento do "outro", como você colocou. É um estranhamento que se procura e uma indicação importante é que essa experiência — que caracteriza tão fortemente o trabalho de campo e que deve ressoar na escritura também singular do texto etnográfico — não está garantida. Afastar-se de sua inserção social ou cultural ou distanciar-se geograficamente podem não proporcionar essa desfamiliarização. É preciso que o etnógrafo esteja disponível, receptivo aos acontecimentos do campo. Do contrário, ele permanece em si mesmo e só é possível o reconhecimento.

Por outro lado, o excesso de proximidade, por uma via oposta, pode também constituir-se num empecilho para essa disponibilidade em deixar-se afetar pelos acontecimentos de campo. Arma-se aí também, de outra forma, um esquema identitário que impede o estranhamento. Argumento no capítulo "A pesquisa etnográfica" que o estranhamento que a etnografia busca é um processo, um fator de situação, alguma coisa que pode ser atingida e que depende dessa disponibilidade — onde quer que pesquisemos. No texto etnográfico, depende, entre outras coisas, da posição discursiva que o etnógrafo assume, inseparável da qualidade de sua presença no campo.

Como já disse, acho a cidade um lugar muito fértil para um tipo de pesquisa que produz conhecimento com o confronto, com a diferença. Novamente, vai ser preciso conquistar essa atitude etnográfica no campo e no texto.

>> CVA - É isso o que você denomina um “novo paradigma etnográfico” nas perspectivas de Dwyer, Rabinow e Crapanzano...

Caiafa - Trata-se de um momento muito importante na antropologia americana de que participaram esses e outros autores. Talvez não se possa falar, a rigor, de um novo paradigma, mas de um conjunto de questionamentos que provocou uma abertura no pensamento etnográfico e de que até hoje se exploram as repercussões. Em meados dos anos 1980, alguns antropólogos se reuniram no Seminário de Santa Fé, no estado de Novo México, nos Estados Unidos. O livro Writing Culture, organizado por James Clifford e George Marcus foi um resultado imediato desse encontro. As questões que se debateram naquele momento e, em seguida a partir dele, já há tempo circulavam em trabalhos desses e de outros antropólogos, mas me parece que ali ocorreu uma convergência, uma ocasião propícia.

Afirmou-se, por exemplo, de várias maneiras diferentes, que o texto etnográfico tinha uma opacidade, que não era um meio transparente que deixava passar a experiência de campo, com as exigências do formato disciplinar. O texto etnográfico, como coloca Clifford, é uma confecção. Enfrenta todos os problemas da escritura. Me parece importante também que o texto aqui não aparece autonomizado, mas ligado a uma política de campo, em alguma medida e variando de autor para autor. Coloca-se fortemente a problemática da autoridade do etnógrafo, o questionamento da linha interpretativa e a discussão da perspectiva dialógica. Houve diversos aproveitamentos desses debates nos anos que se seguiram e, inclusive, críticas às posições dos autores. Em "A pesquisa etnográfica" apresento algumas dessas idéias e algumas obras que surgiram dessa inspiração, tentando, de minha parte, avançar alguns pontos.

>> CVA - Você faz uma crítica sobre a antropologia interpretativa. Qual é o papel dessa perspectiva no contexto dessas discussões e na sua visão da pesquisa etnográfica?

Caiafa - A tendência interpretativa na antropologia reuniu trabalhos diversos, que mobilizavam diferentes instrumentos teóricos. Mas essa pluralidade traz como marca a concepção de que a vida social é uma negociação de sentidos e que as culturas são sistemas significantes. É conhecida a afirmação de Cliford Geertz (A Interpretação das culturas) de que as culturas deveriam ser lidas como textos. O grande inspirador aqui é o filósofo Paul Ricoeur. Em "O modelo do texto", ele indicou que a ação social deve ser objetivada, "fixada" da mesma maneira que o discurso é fixado na escrita.

De fato, essa perspectiva rompe com abordagens ingênuas de uma realidade não mediada e enfatiza a importância da linguagem na figura do texto. Mas a textualização da cultura levou, em geral, a uma autonomização das construções discursivas do antropólogo, dando-lhe o poder de exegeta, de decifrador. Outras vozes tendem a ser marginalizadas nesse contexto. Os acontecimentos de campo acabam por recuar e predomina a hiperelaboração linguageira do etnógrafo. Crapanzano ("Hermes' Dilemma", em Writing Culture) analisou a construção da autoridade do etnógrafo na famosa etnografia de Geertz sobre a briga de galos em Bali.

A autonomização dos fatos da linguagem é, a meu ver, um instrumento de poder e tem conseqüências importantes para uma política da etnografia. Gilles Deleuze (Foucault e, com Guattari, "Postulados da Linguística" em Mille Plateaux) afirmou que a linguagem sempre se liga a um estado de coisas, a alguma coisa que não é linguagem. Entre as palavras e as coisas há um vínculo — complexo, difícil de definir, mas que é preciso considerar. A pesquisa etnográfica pode aproveitar muito dessas indicações. No texto etnográfico — como escrevo nesse ensaio — seria preciso deixar entrar a multiplicidade dos acontecimentos de campo numa multiplicidade discursiva que a acolha. 

>> CVA - Janice, parabéns pelo trabalho. Em nome de toda a comunidade virtual de antropologia agradeço a tua entrevista, Gláucia.

Caiafa - Gláucia, obrigada a você e todo o pessoal da Comunidade Virtual de Antropologia.


Atualizado em 18/08/08

 

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