Entrevista (Edição nº 41)

"Cultura é Patrimônio"

A nossa entrevistada desta edição é a socióloga, pesquisadora e professora do CPDOC/FGV do Rio de Janeiro, LUCIA LIPPI OLIVEIRA. Ela fez seus estudos de graduação em Sociologia e Política na PUC-RJ (1966), de mestrado em Ciência Política no SBI/IUPERJ (1973) e de doutorado em Sociologia na USP (1986). Faz pesquisa na área de Sociologia, com ênfase em Outras Sociologias Específicas, sobre os temas: intelectuais, identidade nacional, historiografia, pensamento social e patrimônio cultural. Tem publicados dezenas de artigos e capítulos em livros, além de uma dezena de livros dos quais ela é autora exclusiva ou organizadora. Dentre eles destacamos: A questão nacional na Primeira República (1990); Americanos: representações da identidade nacional no Brasil e nos Estados Unidos (2000), Nós e eles: relações culturais entre brasileiros e imigrantes (2006).

Neste ano de 2008, ela publicou mais um livro Cultura é patrimônio. Um guia (Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2008, 192 p.), objeto privilegiado desta entrevista. O livro é produto do curso profissionalizante do PPG de Bens Culturais e Projetos Sociais do CPDOC/FGV que a professora Lúcia Lippi ministrou, mas foi pensado para um público amplo de produtores, organizadores, criadores e consumidores de cultura com perspectiva histórico-cultural. A sua leitura nos leva ao conhecimento ou ao reconhecimento do patrimônio que desenha nossa identidade ou a cultura brasileira através de aportes culturais do nosso passado colonial e revela a nossa incansável capacidade de inventar tradições. O livro propõe-se enquanto “guia”, conduzindo-nos para uma viagem que nos leva do passado ao presente, permitindo uma leitura e ampliando a compreensão da nossa realidade social.

>> CVA - Obrigada pela entrevista. Tive muito prazer com a leitura do teu livro. Tomando o nosso patrimônio como pano de fundo, você parte da civilização do barroco, passa pela missão artística francesa e chega à modernidade, levando em conta a iniciativa de homens públicos e a criação de políticas culturais. Acompanhamos assim a formação e os desdobramentos da nossa civilização brasileira por via de “um guia”, o que não deixa de causar algum estranhamento, em se tratando de um estudo sobre cultura. Por que a estratégia de um guia?

Lippi - Eu sempre gostei de mapas e guias. O guia pretende sinalizar os pontos mais interessantes ou importantes; vai dizer o que não pode deixar de ser visto. Tem assim um caráter prático já que oferece “o caminho das pedras”, aquele que possibilita a travessia de rios caudalosos ou profundos. Acho que é o caso da cultura brasileira. Vale lembrar que recentemente foram reeditados o Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, de Gilberto Freyre, e o Guia de Ouro Preto, de Manuel Bandeira. Acho que eu estava com estas obras em mente quando defini o título do livro.

>> CVA - Mas não apenas pela materialidade cultural você tece o trajeto do teu estudo; muito fortemente você vai nos revelando a participação ativa, subjacente, de uma intenção consciente de construção do mito da nação nas iniciativas de constituição ou reconstituição da nossa identidade por parte de intelectuais e políticas públicas. As noções de invenção de uma tradição, esforços por desenho e retratos do Brasil, modelos de civilização, criação de autenticidade, tudo isso constituindo o mito da nação, muito bem trabalhado no teu texto. Você reconhece esses esforços ainda hoje? Estamos ainda inventando a nossa tradição?

Lippi - O trabalho simbólico de inventar tradições é mais intenso nos momentos de maior mudança social. Mudar envolve romper com algumas versões do passado e recriar outras. Cabe aos estudiosos entender este processo, apontar intelectuais e instituições que são os responsáveis por tais feitos, ou seja, “desnaturalizar” estes processos.

>> CVA - A Europa, sobretudo, sabe valorizar a sua tradição e isso fica muito evidente na importância que dão aos seus museus. Os brasileiros que viajam à Europa entendem depressa essa importância e colocam na agenda das suas viagens as visitas aos museus. Nós temos bons museus que não devem nada aos europeus, não é verdade? Estou pensando no Museu Histórico Nacional, no Museu Imperial de Petrópolis e no Museu Paraense Emilio Goeldi, que você destaca no livro, sem falarmos dos belos, modestos e culturalmente riquíssimos museus que temos como do Índio, o do Folclore, o Afro-Brasileiro, o da Maré ou o Museu de Arte Popular Casa do Pontal, todos relativamente pouco visitados, pouco conhecidos daqueles mesmos brasileiros. Por que?

Lippi - Eu diria que hoje os museus no Brasil não estão tão abandonados assim. O Museu Imperial, por exemplo, tem cerca de 500 mil visitantes ao ano. O Museu Histórico Nacional está se reciclando para ocupar o espaço que lhe cabe. As exposições temporárias apresentadas nos museus e no Centro Cultural Banco do Brasil conseguem atrair e criar público. Os museus locais ou temáticos também estão em alta.

>> CVA - Nós falamos de uma classe social privilegiada que visita museus europeus, e quanto às classes populares? As nossas escolas devem ter papel fundamental na educação dos jovens para a importância dos museus. Vez por outra, a gente vê professores levando seus alunos de nível primário e secundário aos museus. Apesar de você não ter explorado este aspecto no teu livro, talvez você tenha conhecimento sobre estas iniciativas, quero dizer, existem orientações do Estado ou da Educação para esclarecer ou educar os alunos sobre a importância dos museus?

Lippi - Acho que os museus estão cientes da necessidade desta conexão com as escolas. Minha diarista, uma paraense que faz o segundo grau em escola pública, foi levada para visitar uma exposição no CCBB. Ficou encantada ao ver a arte marajoara naquele espaço!

>> CVA - No teu livro, você destaca uma distinção nos perfis políticos de Rodrigo Melo Franco de Andrade e Aloísio Magalhães, nos seus respectivos focos de valorização do patrimônio recolhido do passado ou sendo resgatado na dinâmica do presente. Qual é o foco nos nossos dias? o que as políticas públicas vêm valorizando?

Lippi - Se Rodrigo valorizou o patrimônio de “pedra e cal” e Aloísio, o saber-fazer de múltiplos grupos sociais, Gilberto Gil está incentivando bens culturais atrelados à mídia. Não é ele que diz em uma música que quer “entrar na rede/promover debate/juntar via Internet”? É importante notar que o novo não deve substituir o antigo. O patrimônio deve ser visto como um sítio arqueológico composto por várias e diferentes camadas.


>> CVA - No último capítulo do livro, você considera que, apesar de repetirmos as mazelas que congelam as grandes possibilidades de mudanças no país, nós, brasileiros gostamos e apostamos no “novo”. Você nos lembra apropriações nominais como: Estado Novo, Nova República, Bossa Nova, Cinema Novo entre outros “novos” e chama a nossa atenção para os discursos do presidente Lula, que gosta de repetir o mote: “nunca na história deste país...” – você acha que esse nosso gosto é ingrediente para a nossa resistência contra as tradições? E que herança é essa? Não é lusitana...

Lippi - A aposta no novo não é lusitana. Talvez seja componente do continente que veio a ser chamado de Novo Mundo. Este ingrediente da cultura brasileira aposta no novo, na mudança, no futuro. Acontece que o futuro chegou e não é tão cor de rosa quanto se pensava. Acontece que o passado sempre se faz presente. Nós dávamos pouca atenção às tradições mas acho que hoje isto está mudando. O interesse por livros como este pode ser entendido com sinal desta mudança. Quanto mais rápido o ritmo da mudança, mais nos voltamos para o passado local, familiar, das origens. Creio que isto está acontecendo no mundo e também no Brasil.

>> CVA - Parabéns pelo trabalho e obrigada pela entrevista. Abraço cordial, Gláucia.

Atualizado em 13/05/08

 

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