Entrevista (Edição nº 35)

Entrevista com M. Alain Caillé

Nesta edição, eu, Gláucia B. R. de Mello (antropóloga e socióloga, responsável por esta sessão) e Paulo H. Martins, coordenador do Núcleo de Cidadania da UFPE, estamos entrevistando o sociólogo, economista, antropólogo e filósofo francês Alain Caillé, autor de vários livros (dentre eles, destacamos fortemente: Critique de la raison utilitaire. Paris: La Découverte, 1989; e Antropologia do dom. O terceiro paradigma. Petrópolis: Vozes, 2002), fundador do MAUSS (Mouvement Anti-Utilitariste dans les Sciences Sociales) e editor geral da RevueduMAUSS. O MAUSS é um movimento intelectual surgido na França a partir de 1981, fortemente inspirado na obra de Marcel Mauss (sobretudo no seu “Ensaio sobre a dádiva”), com o objetivo de fazer, de forma sistemática, a crítica antiutilitarista nas Ciências Sociais. O movimento criou num primeiro momento o “Bulletin du M.A.U.S.S.”, que circulou de forma discreta até 1989, quando recebeu o apoio da Editora La Découverte e tornou-se a “Revue du Mauss Trimestral”. Em 1994, a revista adotou o seu formato atual, denominada “Revue du Mauss Semestral” (disponível também no endereço www.revuedumauss.com.fr). A revista vem conquistando crescente reconhecimento no meio intelectual de vários países. Para atender este crescente interesse, neste ano de 2007, foi criado o Journal du Mauss (www.journaldumauss.net), virtual, portanto mais ágil, para canalizar e difundir o volume de conhecimento embasado neste enfoque teórico e crítico. Por último, está sendo criada uma versão luso-espanhola do Journal du Mauss, com a coordenação de Paulo Martins e para a qual eu tenho a satisfação de colaborar.

>> CVA - Alain Caillé, é com grande satisfação que realizamos esta entrevista. Que balanço o senhor faz em relação à difusão do pensamento antiutilitarista ao nível mundial, em particular fora da Europa?

Caillé - Faço um balanço bastante modesto. Nós somos muito pouco conhecidos nos países anglo-saxões, já que quase nada foi traduzido, afora L’esprit du don
[1]. É como se a idéia de ser antiutilitarista fosse dificilmente pensável para um espírito de tradição anglo-saxônica. Nós temos mesmo assim laços estreitos com alguns antropólogos, como Mary Douglas (que infelizmente faleceu recentemente), Keith Hart, David Graeber, etc. É na Itália que nós somos, de longe, melhor conhecidos, mais que na França quase. Uma dezena de livros de colaboradores do MAUSS foram traduzidos e existe uma versão italiana de La Revue du MAUSS. Há um início de interesse na Ásia, muito tímido ainda no Japão e na China, mais claro na Coréia, onde um número da revista foi traduzido. Para o anti-utilitarismo, a América do Sul tem uma entrada maior porque é aí que se pode elevar ao primeiro escalão um humanismo democrático de inspiração antiutilitarista e porque existe toda uma tradição de pesquisa e de pensamento nesse sentido, o que pode nos ajudar fortemente. É o que entende todos nossos amigos brasileiros.

>> CVA - E no que concerne à presença do pensamento antiutilitarista e da Revue du MAUSS, em particular, no campo intelectual francês, sobretudo após a crise do estruturalismo?

Caillé - Em um artigo surgido há 10 anos, D. Graeber se perguntava justamente onde havia desaparecido a Teoria Francesa (French Theory), tão influente no campo americano há vinte anos, e explicava que o MAUSS representava a única corrente de envergadura comparável, ainda viva atualmente. Era lisonjeiro para nós. O que eu acredito ser verdadeiro de qualquer forma é que o MAUSS é uma das únicas escolas de pensamento atualmente na França a se fazer portadora de uma ambição teórica importante, aquela que retoma o fio e a tocha da grande tradição sociológica e antropológica (e, portanto, também filosófica) clássica, e nós tentamos fazê-la precisamente evitando os erros do estruturalismo, que se poderia mostrar mais e mais, derivam para todos um pouco de uma má compreensão da herança de Durkheim e Mauss. O que eu observo com prazer é que, se durante seus 10 ou 15 primeiros anos, o MAUSS (criado em 1981) foi olhado com desconfiança pela comunidade científica francesa, uma espécie de OVNI teórico, ele vem sendo a cada dia mais reconhecido e legitimado.

>> CVA - Como o senhor vê a participação e a importância do pensamento luso-espanhol e latino-americano na formação do front antilitarista?

Caillé - Como eu já disse, eu acredito que o papel possível das comunidades luso-espanhola e latino-americana seja absolutamente essencial, isto porque essas culturas são fortemente estruturadas, no melhor e no pior, para os valores antiutilitaristas, notadamente para aqueles de honra e de solidariedade. Eu disse: no melhor e no pior. No pior, por causa do seu assentamento sobre uma visão muito particularista e retrógrada que explica uma boa parte dos problemas do mundo latino-americano (clientelismo, corrupção, familismo, violência, etc.) mas, simetricamente, é também nesses valores, uma vez reinterpretados de maneira reflexiva e mais universalista, que se pode esperar encontrar os recursos essenciais para refundar um ideal democrático universalizável. Eu não acredito que a velha Europa seja hoje ainda suficientemente vigorosa e poderosa para poder realizar esse trabalho de atualização e de universalização do ideal democrático.

>> CVA - Como o senhor explica a relação entre o movimento antiutilitarista e as perspectivas do socialismo do XXI século?

Caillé - O novo socialismo será uma social-democracia radicalizada, i.e., universalizada e aberta ao mesmo tempo para a pluralidade das culturas e para o respeito à natureza. Ele realizará sua atualidade, se se refunda sobre suas bases antiutilitaristas; quer dizer, se ele compreende claramente que o problema político não é somente aquele da redistribuição das riquezas (isto, um utilitarismo de esquerda pode perfeitamente compreender e fazer), mas também e mais ainda, um problema de acesso ao reconhecimento e às fontes de auto-estima.

>> CVA - Pode-se dizer que existe um domínio temático privilegiado para as discussões sobre o dom? Se sim, isto seria um incondicional universal?

Caillé - Vasta questão. Para mim, a lógica do dom é uma lógica disso que eu chamo: a incondicionalidade condicional. A expressão não é fácil de se explicar em duas palavras; eu me explico sobre este tema no Antropologia do dom.

>> CVA - Sobre a criação de La Revue du Mauss Permanente (Journal du Mauss), o senhor acredita que esta iniciativa traz uma contribuição efetiva para o avanço da discussão antiutilitarista? Será que a esfera virtual representa uma entrada estratégica para o avanço de um pensamento contra-hegemônico?

Caillé - Esta iniciativa é ao meu ver inteiramente fundamental. Trata-se da criação de um meio e de um espaço de discussão e de elaboração coletiva permanente. Servirá também para mostrar como as mesmas questões se colocam um pouco por todos os lugares através do mundo e, mesmo se sua formulação é sempre tributária da diversidade de contextos locais, permanece virtualmente uma comunidade democrática humanista e antiutilitarista através do mundo. A nós atualizá-la.

>> CVA - Enfim, para concluir, o que o senhor gostaria de dizer aos internautas da Comunidade Virtual de Antropologia e aos simpatizantes do MAUSS, entre os pesquisadores e simpatizantes de língua luso-espanhola?

Caillé - Benvindos. Nós temos grande necessidade de vocês, de vossa energia, de vosso entusiasmo, de vossas competências e, sobretudo, de vossa amizade, valor antiutilitarista por excelência.

Alain Caillé, em nome da CVA, agradeço a entrevista, Gláucia.


[1] GODBOUT, Jacques T. com a colaboração de Alain Caillé, com o título The World of the Gift. Traduzido para o português como O espírito da dádiva. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 1999, 272 p.

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