Entrevista (Edição nº 34)

"Humor judaico e psicanálise"
Entrevista com Liana Feldman, por Samira Marzochi (coordena a seção coluna da CVA)

Liana Feldman, graduada em psicologia pela Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), desenvolve pesquisa de pós-graduação sobre Humor Judaico no Laboratório de Psicophatologia Fundamental e Psicanálise sob a orientação do Prof. Dr. Zeferino Rocha, filósofo e psicanalista. Nesta entrevista, que entrelaça ciências sociais e psicanálise, discute o conceito de humor judaico como categoria analítica e suas relações com a questão da identidade, muito cara à antropologia. Para ela, “é preciso observar que o humor judaico não é somente uma piada, é uma narrativa que gera uma reflexão”. Liana investiga se este traço cultural pode ser compreendido como forma de “resistência”.

>> Samira / CVA - Por que o interesse em pesquisar o "humor judaico"?

Liana - Desde pequena ouço as piadas do meu avô, do meu pai, e nos eventos da comunidade judaica. Também vejo estudos acadêmicos que freqüentemente focam o judaísmo como ponto relevante na teoria psicanalítica. Mas o interesse formal para uma pesquisa surgiu quando entrei no mestrado de psicologia clínica com um tema completamente diferente, e percebi que lá há espaço para trabalhos que pretendem unir psicanálise e religião. Então mudei o tema, fiz outro projeto e segui em frente com a nova idéia.

>> Samira / CVA - Há outras pessoas que pesquisam o mesmo tema em sua área?

Liana - Aparentemente há poucas pessoas, por enquanto. Aqui no Brasil, conheço Renato Mezan, Daniel Kupermann, Abrão Slavutzky e Antônio Ricardo. Todos eles pesquisam o humor e suas variações com base na psicanálise, independente de ser o humor judaico. Deve haver outros pesquisadores com textos em andamento ou até mesmo publicados, mas que eu ainda não tive acesso. Além disso, há trabalhos psicanalíticos que falam do riso e de outros temas próximos do humor.

>> Samira / CVA - Quais são as suas referências bibliográficas mais importantes?

Liana - Em primeiro lugar, Freud. Especialmente o livro "Os chistes e sua relação com o inconsciente", de 1905. É um texto que por muito tempo não teve sua importância esclarecida ou compreendida pelos psicanalistas. Agora começa a existir uma preocupação com ele, mesmo por quem não estuda diretamente o humor.

Outra referência de primordial importância é a Torá, livro sagrado dos judeus, bem como suas interpretações. Eu preciso estudar a religião para compreender melhor a cultura judaica, e também para tentar encontrar trechos ou citações dos sábios judeus que falem do humor. Sei que a alegria no judaísmo é considerada uma mitzvá, uma boa ação. Mas sobre o humor, ainda preciso me aprofundar. A religião judaica e a cultura judaica andam juntas, portanto a Torá e todos os outros livros sagrados do judaísmo são parte do meu campo de pesquisa.

>> Samira / CVA - Estão entre elas referências das ciências sociais?

Liana - Formalmente, não. Porém, a psicanálise entende o sujeito como inserido em um laço social, na cultura.

>> Samira / CVA - Durante a sua formação acadêmica fez cursos de antropologia ou sociologia? Foram interessantes para a sua pesquisa?

Liana - Infelizmente, a graduação em psicologia clínica só contém uma disciplina chamada Introdução à Sociologia, no ciclo básico, ou seja, primeiro ano de curso. Já no final, estudamos Cultura e Subjetividade, onde o elo entre psicanálise e cultura pareceu mais estreito. Não sei se a grade curricular mudou, mas de qualquer modo esse modelo não tem muito tempo, visto que ingressei na graduação em 2000. No mestrado, voltamos ao mesmo tema de modo mais proveitoso. Fica claro que essas disciplinas permeiam o meu trabalho. Debatemos no mestrado se o meu projeto tem mais aproximação com os estudos da cultura ou da religião. Não chegamos a uma resposta, nem acho possível chegar, ainda mais se a filosofia resolver entrar no páreo, por conta das referências ligadas a Henri Bergson.

>> Samira / CVA - Como definir o "humor judaico"?

Liana - O humor judaico tem as características comuns a todo tipo de humor. Segundo Freud, o humor em geral permite ao sujeito preservar o ego em situações extremas ou não, liberar a agressividade e gerar prazer. Assim, contar uma piada sobre o presidente do Brasil é uma forma de ser agressivo dentro dos padrões, de sentir algum prazer e continuar íntegro mesmo com as adversidades, por exemplo. O que diferencia o humor judaico das demais formas de humor é o endereçamento da piada, a auto-referência vista nos chistes do povo judeu. O humor judaico se caracteriza por fazer piada sobre si mesmo, envolvendo a cultura e a religião nas temáticas, como também questões políticas e históricas do povo. Nesse caso, pouco importa as piadas sobre loiras e portugueses, nossos colonizadores.

>> Samira / CVA - Como explicá-lo?

Liana - Explicar o humor judaico significa todo o meu trabalho, que não está pronto. Mas, preliminarmente, posso dizer que se trata de uma transmissão oral auxiliar, ou até mesmo fundamental, na tradição judaica. É preciso observar que o humor judaico não é somente uma piada, é uma narrativa que gera uma reflexão. Moacyr Scliar diz que esse humor é agridoce, que faz pensar e não gargalhar. Concordo plenamente, não vejo as pessoas morrendo de rir por conta de um chiste judaico, mas vejo por trás da contação de piadas um momento que passa de geração a geração, especialmente entre os homens. Não pretendo me aprofundar na questão de gênero, mas é notório que os homens judeus contam as piadas, enquanto as mulheres têm outros atributos. E assim esse tipo de narrativa se sustenta há tantos anos, séculos, por alguma razão. Resistência? Vamos ver, quando o trabalho ficar pronto eu aviso.

>> Samira / CVA - Todo humor entre judeus ou sobre judeus é necessariamente "humor judaico"?

Liana - Não. Meu avô pode contar piadas de papagaios, de portugueses, ou sobre qualquer outra temática que deseje. O humor não passa a ser judaico porque vem dele. E até onde pensei, nem todo humor sobre judeus entra na categoria de humor judaico, mas isso ainda pode ser revisto ao longo da minha pesquisa. O que confere a nomenclatura "humor judaico", em minha opinião, é quando o narrador contempla fragmentos da religião e cultura judaica, mesmo que estereotipados. Na verdade, totalmente estereotipados, pois o cômico vem de um exagero da imagem. Falar da mãe judia é quase como falar da mãe italiana, tem uma carga dramática que sufoca os filhos, então a piada "contra" elas surge como forma de fazer uma barreira. As piadas sobre os algozes e sobre as perseguições também se mostram minimamente eficazes na manutenção da dignidade de um povo que, muitas vezes, pareceu perdê-la.

>> Samira / CVA - Se o "humor judaico" pode ser construído como uma categoria independente, é possível identificá-lo em situações de humor entre não-judeus e sobre temas não judaicos?

Liana - Entre não-judeus talvez sim; entre temas não judaicos, não. A especificidade do humor judaico é justamente falar sobre os judeus, portanto não poderia ser encontrado em meio a outros temas. Se uma pessoa que não é judia e não integra a comunidade judaica em nenhum aspecto, fizer uma piada sobre judeus, pode até ser humor judaico, mas geralmente soa como discriminação. É preciso ter muito cuidado ao fazer piadas sobre judeus, porque os temas abordados não são leves: mães neuróticas, economia excessiva, filhos infantilizados, aspectos marcantes da religião... Parece que tudo isso pode ser criticado apenas por alguém inserido nesse laço social. É como falar de um irmão, só nós mesmos podemos falar mal, ninguém mais.

>> Samira / CVA - O que é o judaísmo: uma cultura, uma religião, uma tradição, uma história, um estado de graça?

Liana - O judaísmo é uma religião, a primeira religião monoteísta do mundo. A partir da crença num D´us único, e escrevo a palavra incompleta porque não se deve falar o nome em vão, surgiu a cultura. A cultura judaica muitas vezes deixa a religião meio à parte, embora isso pareça impossível. Como exemplo, posso citar as comidas típicas: todo judeu já deve ter comido um fluden, doce de massa folhada feito com nozes, passas e damasco. É uma delícia, no Rio de Janeiro e em São Paulo é possível encontrar em vários locais. Mas, não significa que esses fluden vendidos no shopping sejam kasher. Não necessariamente passaram por um processo de preparo onde de maneira alguma se mistura carne e leite, crustáceos, carne de porco, onde a cozinha segue os preceitos de higiene mais rígidos que as recomendações da Vigilância Sanitária. Mas fluden, mesmo fora dos padrões da alimentação kasher, é cultura judaica.

A mesma coisa ocorre com a dança. Há muitos grupos de dança judaica juvenil que se apresentam em vários países, e nessas organizações os rapazes e moças ensaiam e dançam juntos. Pela religião judaica, não deveria. A moça e o rapaz devem ter recato e dançar separados e, quando casados, poderão dançar como acharem devido, na sua intimidade. Mas, ainda assim, esses encontros de dança logo se transformam numa grande festa adolescente, e a dança é um rico aspecto da cultura judaica.

Além disso, pode-se citar que nem todo judeu é um violinista no telhado. Há os judeus sefaradim, askenazim e até mesmo os falashas, que são judeus etíopes e negros que habitam Israel. Os primeiros são originários de Portugal, Espanha, de países do Oriente Médio e da África. Os sefaradim têm costumes muito parecidos com os árabes, bem como os traços físicos. Já os askenazim vêm do Leste Europeu, trazendo ao ocidente os hábitos de países frios, das aldeias russas; por fim, os falashas são geralmente etíopes, e com toda a bagagem cultural do seu país de origem, conservam o judaísmo. Essa imensa variedade de hábitos e formações culturais está presente em cada judeu, pois vivemos espalhados pelo mundo. Não há um rosto ou um jeito que caracterize o judeu. Judeu é quem nasce do ventre de uma mãe judia, diz a Torá. Logo, se uma moça judia quiser casar com um japonês, terá um filho judeu japonês.

Além de toda a cultura herdada dos antepassados, nós, judeus brasileiros, também comemos feijoada kasher na sinagoga. É feita sem carne de porco, mas muito saborosa, e mostra que somos adaptáveis a qualquer lugar, pois podemos nos integrar ao local sem deixar de seguir os preceitos sagrados.

Com isso, os dialetos, os costumes próprios, as interpretações da Torá, a culinária, a aparência física e as vestimentas de cada grupo judaico são incorporados ao cotidiano das novas gerações. E mesmo aqueles que moram em Israel podem ter um pai que veio do Marrocos, a mãe do shtetl (aldeia) russo, uma das avós alemã ou francesa e um primo argentino que vai passar as férias lá. E no fim das contas, todos comem falafel e fumam narguila, do mesmo modo que os árabes. É uma salada cultural, mas todos se entendem e são ligados pela crença monoteísta.

Assim, o judaísmo é primeiro uma religião, que originou uma vasta cultura e está inserido na história. Embora muitas vezes a cultura judaica não dê conta de todos os aspectos, lições e mandamentos da religião.

>> Samira / CVA - Como você relaciona "humor judaico" e psicanálise/psicologia?

Liana - Freud começou esse trabalho em 1905 com o livro Os chistes e sua relação com o inconsciente. É um trabalho lindíssimo, onde ele fala dos tipos de humor e classifica suas formas mais vistas. A relação do humor judaico com a psicanálise é toda a minha dissertação de mestrado e muito mais, por isso não será possível descrever em espaço tão curto. Mas é possível pontuar que o humor judaico auxilia o povo judeu na transferência da tradição, é uma tradição oral, como eu disse anteriormente. Quando se faz uma piada sobre Hitler, o propósito não é somente xingar aquele algoz como parece, mas também tornar o repúdio público e passar isso para as novas gerações. O mesmo em relação ao louco, ao pedinte, ao sapateiro, que são figuras folclóricas do anedotário judaico. Hoje em dia não vivemos mais em aldeias isoladas, onde a prática da religião, quando permitida, era discreta. Mas, mesmo assim, é preciso dar sustentação aos ditos do próprio povo, de modo a ensinar que o humor também está a serviço da manutenção da cultura judaica, do mesmo modo que o jornalzinho e a revista mensal da comunidade.


Anexo: piadas

Álcool:
- Por que as mães judias não bebem?
- Porque o álcool prejudica o seu sofrimento.

Cara de judeu:
Um judeu brasileiro foi conhecer uma sinagoga no Japão. Lá, um judeu japonês lhe pergunta:
- Você é judeu, non?
- Sim, responde o brasileiro.
- Non palece.

Terra prometida:
D´us encarregou Moisés de escolher a terra prometida que quisesse. Moisés, que sempre ficava gago diante do Senhor, não pensa duas vezes:
- Ca... cana...
- Canaã? - Pergunta D´us, surpreso. - Você é quem sabe.
E retira-se para a sua morada celeste, enquanto Moisés, aflito, grita para as nuvens:
- Ca... Cana... dá, eu disse Canadá!

Música:
Perguntaram certa vez a Isaac Stern por que escolhera o violino como instumento.
Respondeu ele: "Em caso de pogrom, é mais fácil de carregar que um piano."

Profissões:
Uma mãe judia passeia com dois filhos. Alguém pergunta a idade das crianças:
- “O médico tem quatro, o engenheiro dois e meio”.

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