Entrevista (Edição nº 33)
"Maria entre nós"

Este mês estamos entrevistando Cecília Mariz, socióloga, professora do Depto. de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Ela pesquisa sobre religião e mídia, religião e política, pentecostalismo e catolicismo, entre outros temas, sobre os quais resulta um volume considerável de publicações. Juntamente com Carlos Alberto Steil e Mísia L. Reesink, Cecília organizou o livro Maria entre os vivos. Reflexões teóricas e etnográficas sobre aparições marianas no Brasil (Ed. da UFRGS, 2003, 286 p.), objeto privilegiado desta entrevista.

Maria entre os vivos. Reflexões teóricas e etnográficas sobre aparições marianas no Brasil é uma coletânea de nove artigos, apresentados pelos organizadores (que são também autores) seguidos por bibliografia comum de referências. A leitura dos artigos nos convida a refletir a partir de um painel de possibilidades sobre as aparições recentes de Nossa Senhora pelo Brasil. Trata-se de estudos teóricos e etnográficos que, conforme entendem os seus organizadores, sinalizam mudanças em relação ao modelo tradicional de atribuições bíblicas de Maria e às aparições tradicionais do século XIX, refletindo demandas devocionais, apocalípticas ou problemas pontuais, e resultando em tensão entre os setores populares e ortodoxos do catolicismo brasileiro.

>> CVA - De acordo com os estudos apresentados no livro que vocês organizaram, as aparições de Maria têm início a partir do terceiro século da era cristã. No século XIX, a Igreja reconheceu as aparições da Virgem em quatro lugares na França de quatro santas francesas (Rue du Bac, La Salette, Lourdes, Poitmain) e, no século XX, de mais três: Fátima (em Portugal), Beauraing e Banneux (na Bélgica), entre outras. Mais recentemente, acompanhamos grandes movimentos decorrentes das aparições da Virgem de Medjugorje. As sete etnografias apresentadas sugerem uma concentração de aparições no Brasil ou trata-se de fenômeno generalizado internacionalmente? 

Cecília - Estamos estudando o Brasil no livro porque é essa nossa área de estudo, pesquisamos e vivemos aqui, e há poucos trabalhos sistemáticos sobre as aparições brasileiras. Mas esse não é de forma alguma um fenômeno especialmente brasileiro. É um fenômeno do mundo católico, em geral, e não apenas católico romano. Assim, tem havido também muitas aparições nos EUA, no México, na África.

>> CVA - Nos seus respectivos artigos, vocês destacam uma tensão entre a Igreja Católica e os movimentos resultantes das aparições – trata-se de iniciativa independente por parte do catolicismo popular ou de iniciativa da Igreja, reagindo contra o esvaziamento progressivo do catolicismo ou o processo de secularização moderno?

Cecília - Na maioria dos casos analisados no livro, os relatos são de aparições da Virgem a leigos que não têm poder dentro da instituição Igreja. Em geral são pouco instruídos, são crianças ou jovens, gente pobre, com pouco status dentro da Igreja como um todo. Também os primeiros a apoiarem os videntes e acreditar em seus relatos são também leigos. Dessa forma, a interpretação de ser uma reação da instituição a seu esvaziamento mais pode ser visto como reação dos leigos a mudanças de discursos e práticas da Igreja ou ao próprio mundo moderno como um todo, já que o discurso em geral é de muita crítica à modernidade. O que se procura chamar atenção nos diferentes artigos do livro é que há várias linhas de tensões na Igreja que não se reduz apenas ao catolicismo popular e oficial ou leigo e clero. Há setor do clero que apoiaria os videntes e também leigos que o apoiaria, e setor do clero bem como leigos que rejeitariam os relatos dos videntes. Por outro lado, embora se possa pensar que uma maior tolerância da igreja a esses eventos se relacione com o medo dessa Igreja se esvaziar mais, penso que essa maior tolerância seja falta de mecanismo de controle, como no passado, e uma nova postura em relação à diversidade cultural e valores locais.

>> CVA - Os artigos sugerem uma relação próxima entre as aparições marianas e o Movimento de Renovação Católica Carismática. Na dinâmica deste processo, vocês já têm mais clareza sobre esta relação?

Cecília - O MRCC defende a possibilidade de acesso direto ao sagrado. O leigo pode receber mensagens do Espírito Santo, receber revelações, profecias, fazer cura. Ao legitimar essa possibilidade de manifestação do sagrado e sobrenatural no cotidiano dos leigos, o MRCC reaviva também outras formas de acesso ao sagrado, já tradicionais no universo católico; como seria o caso da visão da Mãe de Deus. Essa relação fica mais clara no modelo de aparição destacado por Carlos, no primeiro capítulo, que foi inaugurado em Medjugorje e que se repete nos diversos eventos estudados no livro. O vidente pode falar como se fosse a própria Virgem falando, o que tem sido chamado no grupo que pesquisei de “locução interior”. Assim, o vidente é também chamado confidente. A partir daí muitos dos videntes atuais do Brasil tiveram passagem no MRCC, e muitos dos que acompanham os videntes e organizam movimento de apoio às aparições têm ou tiveram relação com o MRCC.

>> CVA - A que vocês atribuem o fato dos videntes de Maria serem, via de regra, crianças, mulheres e pessoas de origem mais simples?

Cecília - Esse é um fato que tem chamado muito a atenção. Talvez seja o fato de representarem os mais inocentes, os mais humildes que, em princípio, seriam os procurados pela Virgem...

>> CVA - As mensagens de Maria variam através dos videntes - de pedidos de mais devoção e de orações a mensagens apocalípticas; de anunciação de sofrimentos coletivos e individuais a julgamento e reprovação de pecados, como o orgulho do povo mercesano (destacado no artigo de Camurça e Barreto). Sociológica ou antropologicamente, como devemos entendê-las?

Cecília - Essas mensagens e pedidos podem ser entendidos como uma forma de reação e rejeição ao mundo moderno. Em geral, são grupos que não se vêem com espaço nesse mundo, e que se sentem mais vinculados a um mundo e valores em extinção. O fim do mundo que criaram, do seu mundo, parece para eles o “fim do mundo”.

>> CVA - Além da ressurgência de uma “espiritualidade eclética”, podemos dizer que o século XXI, à maneira do que afirma o Movimento de Nova Era, revaloriza o papel e o poder da grande Deusa, através de Maria?

Cecília - A aparição de Maria tem a ver mais como um movimento de reação de busca do passado cristão-católico, que, para alguns, parece ameaçado de extinção; de uma mãe amorosa e cuidadosa que tenta amenizar, com sua doçura, as regras severas do Pai. Mas ela prega essas mesmas regras também. Diferentemente da Grande Deusa ou de deusas mais ligadas ao movimento Nova Era, o discurso das aparições não valoriza a fusão com a natureza nem flexibilidade das leis patriarcais. O discurso dos relatos de aparições vai na direção oposta da do New Age, embora também possam ser igualmente apocalípticos, encantados, com prática extáticas.

>> CVA - Em nome da Comunidade Virtual Antropológica, Cecília, agradeço imensamente esta entrevista, Gláucia.

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