Entrevista (Edição >> dez - jan 2000/2001)
O professor Eduardo Viana Vargas, do Departamento de Sociologia e Antropologia da UFMG, autor do livro "Antes Tarde do que Nunca - Gabriel Tarde e a emergência das ciências sociais" (Ed. Contra Capa, RJ, 280 pgs), lançado em novembro, fala sobre sua obra, que retoma a teoria sociológica de Gabriel Tarde, um dos principais intelectuais franceses do final do século XIX. 

>> Comunidade Virtual - Fale um pouco de sua trajetória acadêmica.

Eduardo -  Sou belorizontino de nascimento, criação e formação escolar. Fiz minha graduação em ciências sociais na UNICAMP, em meados dos anos 80. Depois fui pro PPGAS - Museu Nacional, onde concluí minha dissertação de mestrado sobre Gabriel Tarde no início dos 90. Em meados de 90, voltei para Belô, depois de ter passado alguns anos como professor de antropologia da UFJF, em Juiz de Fora. Em Belô, tornei-me professor de Antropologia da UFMG e ingressei no então recém criado doutorado em Sociologia e Política, também da UFMG, onde estou em vias de concluir minha tese de doutoramento sobre corporalidade e uso de drogas.

>> Comunidade Virtual - O que motivou-o a escolher um autor como Tarde, de certa forma "marginal" nas Ciências Sociais de hoje?

Eduardo - Meu primeiro contato com os trabalhos de Tarde aconteceu ainda na UNICAMP. Resolvi fazer minha dissertação sobre ele em parte justamente porque se tratava de um autor de certa forma "menor", mas um autor "menor" que havia chamado a atenção ou despertado o interesse (crítico, é certo) de autores "maiores" como Durkheim. Investigando a trajetória de Tarde, percebia que as coisas não tinham sido sempre assim, ou seja, que o ostracismo póstumo de sua obra se seguiu a uma grande notoriedade em vida. Lendo seus trabalhos, percebi também que eles propunham toda uma teoria sociológica centrada nos problemas da diferença e da repetição que merecia ser investigada.

>> Comunidade Virtual - Todos nós aprendemos nas aulas de introdução à Sociologia, principalmente ao estudar a obra de Durkheim, que Tarde era um autor ultrapassado, que sua obra refletia um pensamento "pré-sociológico". Acha que existem perspectivas para esta visão modificar-se?

Eduardo - Essa, a meu ver, é a visão durkheimiana a respeito de Tarde, seu maior crítico contemporâneo. É, digamos assim, a visão dos vencedores, uma visão comprometida com ou motivada pelas posições assumidas por Durkheim e seu grupo, antagonistas de Tarde. Procuro mostrar no livro, entre outras coisas, que o pensamento de Tarde tem muito de atual.

>> Comunidade Virtual - Como foi o processo de produzir o livro? Seu estilo de escrever é de uma dedicação fervorosa, dobrando madrugadas frente à tela do computador, ou tem o estilo de gestação lenta, uma composição gradual do texto?

Eduardo - O livro é uma versão modificada da dissertação de mestrado, que foi escrita entre Angra dos Reis, onde morei por quase um ano, e Belo Horizonte, metade à máquina de escrever, metade no computador, madrugadas afora... O livro propriamente dito foi escrito em Belo Horizonte, em outras madrugadas afora.

>> Comunidade Virtual - Qual sua opinião sobre o mercado editorial das Ciências Sociais? Teve dificuldades em encontrar uma editoria que publicasse seu livro?

Eduardo - É um mercado difícil porque o que temos a oferecer não são mercadorias que dão um retorno financeiro apreciável, pelo contrário. Isso, do ponto de vista do mercado, é fatal. No entanto, parece-me que, apesar disso, ele está crescendo, ao menos no Brasil. Impressionou-me, por exemplo, o número de lançamentos ocorridos na última reunião da ANPOCS. Freqüentemente, no entanto, as publicações só se viabilizam porque o autor consegue apoios financeiro outros que contribuem para, digamos assim, sensibilizar as editoras para a viabilidade da publicação. Foi, em parte, o meu caso. O doutorado em Ciências Humanas: Sociologia e Política apoiou a publicação do livro e isso, certamente, tornou mais fácil o diálogo com a editora que o publicou.

>> Comunidade Virtual - Como você percebe as possibilidades abertas pela internet? Acredita que iniciativas como a Comunidade Virtual de Antropologia trarão algum avanço no conhecimento antropológico? Em outras palavras, acredita em outras possibilidades de construção do conhecimento científico além da Universidade? 

Eduardo - As possibilidades abertas pela internet são muito interessantes. Acho positivo iniciativas como essa da Comunidade Virtual, sobretudo no que diz respeito à divulgação do que tem sido feito na área.

>> Comunidade Virtual - Quais são seus próximos projetos?

Eduardo - Concluir minha tese de doutorado.

>> Comunidade Virtual - Pra finalizar: quem estava certo: Tarde ou Durkheim? 

Eduardo -  Nenhum dos dois, ou os dois ao mesmo tempo. Como digo no livro, não se trata de escolher Durkheim e esquecer Tarde, nem do contrário. Tarde e Durkheim, ou melhor, o que eles produziram, são ferramentas e as ferramentas devem ser avaliadas não em si mesmas, mas com relação ao que elas permitem ou não fazer. Por isso, acho que, para certas coisas, Durkheim continua sendo fundamental. Mas acho também que os trabalhos de Tarde nos fornecem ferramentas muito atuais para pensar uma série de outras coisas que estão contemporaneamente em pauta. Por exemplo, a violência, a aids, a moda, a internet... e uma série de outras coisas que pegam ou passam por contágio.

>> Comunidade Virtual - Considerando que você é antropólogo, fez mestrado no Museu (este livro é resultado de sua dissertação de mestrado), gostaríamos de entender um pouco mais sobre esta relação Antropologia/Sociologia. Como o olhar de um antropólogo percebe a obra de um sociólogo? Faltou alguma coisa em Tarde por ser sociólogo? Onde a Antropologia e a Sociologia se separam e se encontram? 

Eduardo -  As relações entre Antropologia e Sociologia são complexas, objeto de longa e interminável discussão. Não acredito na existência de uma fronteira absoluta separando as duas disciplinas. Isso não quer dizer que elas se confundam de modo inextricável. É possível perceber a existência de certas tradições no modo de encaminhamento das reflexões (privilégio de certas abordagens, de certos objetos ou de certos métodos) que, num certo nível, nos auxiliam a distingüi-las. Assim, para além das distinções mais convencionais entre, de um lado, uma disciplina que privilegia a análise de sociedades outras e uma que privilegia a análise das nossas sociedades, uma que privilegia o uso de métodos qualitativos e outra que privilegia os métodos quantitativos, distinções estas que, diga-se logo, são problemáticas, já que a Antropologia não se dedica apenas ao estudo das sociedades ditas "primitivas", não se vale somente dos métodos qualitativos, nem dispensa abordagens de cunho sociológico em suas análises (é preciso, portanto, ter cuidado para não reificar essas distinções, caso contrário elas não se prestariam a outra coisa senão ao reforço das distinções "totêmicas", por assim dizer, próprias ao métier), talvez fosse possível dizer que uma das marcas características da Antropologia seja, como notara Foucault, sua capacidade em nos apresentar materiais que colocam em questão nossas certezas teológico-filosóficas, inclusive aquelas relacionadas às possibilidades de produção de um conhecimento "científico", no sentido mais positivista do termo, o que garante à antropologia uma impressionante potência crítica que é responsável por boa parte do seu encanto, ao mesmo tempo em que permite que se levante contra ela uma série de ressalvas oriundas de perspectivas tidas como mais "cientificistas". Talvez seja um pouco por conta disso que, ao investigar o processo de emergência das Ciências Sociais tal como ele se deu na França do final do século XIX eu tenha sido levado a concentrar minha atenção não exclusivamente em Durkheim, mas no intervalo que o separa das várias outras tentativas que então estavam em curso no sentido da produção de um saber sociológico. Quanto a Tarde, jurista de formação, ele escreveu obra de Sociologia, mas também de Direito, de Filosofia, de Economia, de Psicologia, além de obras literárias. Se tem um campo que, no sentido mais clássico, Tarde não penetrou foi no da Antropologia. Ele não fez pesquisa de campo de tipo etnográfica, nem utilizou, a não ser de modo muito liminar, materiais provenientes do estudo de sociedades ditas "primitivas". Em suma, se Tarde foi inúmeras coisas, certamente antropólogo ele não foi. No entanto, não deixa de ser curioso que, ainda assim, sua teoria social esteja alicerçada precisamente em uma das categorias mais caras à Antropologia, a saber, à da diferença. Pois foi seu interesse por produzir uma teoria social onde a categoria de diferença ocupa um lugar central que, como antropólogo, eu me interessei por sua obra e seu pensamento.



Topo