Entrevista (Edição nº 28)

"A pós-modernidade é agora"

Eurípedes Falcão Vieira é bacharel em Ciências Políticas e Econômicas pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande (RS), onde foi Reitor, doutor em geografia pela Universidad del Salvador (Buenos Aires). Possui o título de educador emérito do Rio Grande do Sul, Mérito Educacional da FURG e é membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Tem artigos e livros publicados. Marcelo Milano Falcão Vieira é PhD em administração pela University of Edinburgh (Escócia). É professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (Ebape/FGV), pesquisador do CNPq, coordenador do Grupo de Pesquisa Observatório da Realidade Organizacional (www.observatorio.dca.ufpe.br) e editor da revista eletrônica Caderno Ebape.br (www.ebape.fgv.br/cadernosebape). Tem artigos e livros publicados.

Em A Dialética da Pós-Modernidade. A sociedade em transformação, os autores destacam na pós–modernidade uma transição paradigmática que vem suplantar a bipolaridade político-ideológica que dominou o cenário moderno. Na era das incertezas em que vivemos, a educação se faz ainda mais importante - "se a educação é prioridade para se formar um sujeito individual e social de qualidade, tudo o que deve ser feito é garantir a todos as mesmas oportunidades para que, após a qualificação pessoal, cada um possa, livremente, e de acordo com cada competência, construir sua própria diferença”. Assim é que os autores analisam o movimento da sociedade, a partir do ordenamento de quatro princípios ou configurações político-ideológicas - o feudalismo, o mercantilismo, o liberalismo e o comunismo - até chegarem à pós-modernidade ou ao pós-industrialismo. Após a revolução cibernética, a queda do comunismo, o enfraquecimento do modelo revolucionário, a globalização da economia, em meio a tantas mudanças tão profundas quanto rápidas, apenas o capitalismo pós-moderno se transforma e permanece.

>> CVA - Nos cenários moderno e pós-moderno, o capitalismo se apresenta como um vencedor inexorável e um vilão. Na sua opinião, a que se deve esse fato?

Prof. Eurípedes - Houve outra experiência político-ideológica em contraponto ao capitalismo. Foi o comunismo implantado na Rússia e que viria a formar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Experiência que, após a Segunda Guerra Mundial, se alastrou pela Europa do Leste, Ásia, África e América Latina. Essa experiência representou a realização de uma utopia, a da liberdade e igualdade em torno da classe operária. O sistema não só não resolveu o problema da pobreza como suprimiu as liberdades individuais e coletivas, nivelando a sociedade socialista num padrão muito baixo. A queda do sistema foi o resultado da centralização burocrática, da falta de perspectiva em relação às naturais aspirações de elevação material, à inflexibilidade do sistema e a perda de impulso à mudança e inovação da sociedade. Em todos esses itens o capitalismo ocidental, individualista e competitivo, mas flexível, superou a experiência coletiva, burocrática e sem aspiração. Por mais que represente um sistema injusto de distribuição de renda, a sociedade democrática sempre tem a perspectiva do investimento individual capaz de propiciar uma elevação social. Sob essa perspectiva a sociedade democrática é vencedora, mesmo praticando um sistema econômico capaz de aprofundar as desigualdades sociais. Contudo, é essa mesma sociedade e esse sistema que proporcionam e acolhem as iniciativas individuais que buscam uma elevação social. O ser individual e coletivo tem encontrado na sociedade capitalista mais oportunidades de crescimento, principalmente, naquelas onde o sistema social conseguiu um espaço consolidado nos projetos políticos, do que na utopia comunista. A condição de vilão está no fato de que o sistema produtivo, de mercado, é de natureza econômica, portanto, tem como mote a lucratividade. Cabe ao Estado-nação se organizar política e socialmente para, retirando do sistema parte de seus resultados, desenvolver políticas que possam garantir a todos as mesmas oportunidades e a partir delas cada um ter condições de construir sua diferença. O vilão, quase sempre, é, na verdade, o Estado-nação. O homem é um ser empreendedor; essa característica o diferencia. Hoje, para empreender em qualquer tipo de atividade, é preciso capital. Mas que capital? O intelectual, certamente! Como os conceitos também mudam, talvez já estejamos no limiar de novo entendimento sobre o sistema de atividades humanas. Os sinais são evidentes. Já se fala em era pós-capitalista. A nova realidade está a exigir um novo discurso crítico e uma nova utopia.

>> CVA - Como estudiosa dos movimentos e comunidades ditos de Nova Era, temos encontrado elementos para entendê-los como uma busca alternativa para um estilo de vida “outro”, com significado, diferente daquele que nos impõe a sociedade de consumo, de competição, de falta de solidariedade, em uma palavra, frente a um mundo desumanizado. O senhor entende nos movimentos sociais independentes que estudou uma busca semelhante? O senhor acredita no sucesso dessa busca?

Prof. Eurípedes - No início do século XX, os movimentos sociais eram animados por um poderoso discurso crítico e uma bem formulada utopia. A modernidade industrial construiu seu modelo de sociedade, baseada na soberba do capital. O capital monetário, imobiliário, de fundos e títulos dominavam a cena quotidiana. As aspirações do ser individual ou coletivo eram possuí-los e com isso promover, quando delas estavam distantes, a mobilidade social. O capitalismo representou essa busca pela riqueza, por melhores condições de vida. Mas as desigualdades se aprofundaram, não propriamente nos centros da ação capitalista, mas nas periferias que não souberam ou não puderam superar ambições locais devidamente exploradas externamente. Fatalmente, o discurso crítico enfraqueceu, perdeu temporalidade; a utopia realizada se desfez em suas próprias contradições. A flexibilidade do capitalismo levou o mundo a uma nova modernidade, com a introdução de novo signo. Os avanços da microeletrônica mudaram não só o signo como provocaram profundas rupturas epistemológicas. A produção evoluiu para um sistema global. O capital já não é a variável principal do sistema; entra em cena outra variável de maior importância: o conhecimento e a informação. Assim, a modernidade industrial se esgotou em suas formulações e em seu lugar aparece a modernidade cibernética, com seus signos, símbolos e novas formas de comportamento. Se os movimentos sociais da atualidade não introduzirem um discurso crítico adequado à presente atualidade e não formularem uma nova utopia a ser alcançada, tudo será em vão. Parece-me que os atuais movimentos sociais não têm uma aspiração definida no tempo da nova modernidade, a pós-modernidade e sua indiscutível realidade.

>> CVA - Os senhores destacam uma aceleração crescente no tempo social pós-moderno, alavancado pelas tecnologias, sobretudo a partir dos avanços no campo da cibernética. Neste sentido, as sociedades simples e as culturas nativas, com menor abertura e entrada para as inovações tecnológicas, moveriam-se em ritmo bem menos acelerado. O senhor entende que existe mesmo uma determinação das inovações tecnológicas sobre a aceleração ou a sensação de passagem mais rápida do tempo cronológico?

Prof. Eurípedes - Pode-se dizer que a modernidade duradoura, aquela que introduz costumes e modos de vida por tempo longo não existe mais. A modernidade atual é transitiva, ou seja, muda inovando e inova mudando, tudo em tempo curto. Os antigos maias falavam em conta curta e conta longa para caracterizar certos eventos. Não temos mais a conta longa. À nossa frente sempre tem uma inovação tecnológica; ou a inserimos em nossas vidas, ou ficamos deslocados. Na verdade, estamos sempre deslocados de alguma coisa. Vivemos numa configuração de tempo-espaço onde os eventos são marcados pela instantaneidade. O espaço foi aniquilado pelas conquistas da tecnologia. As culturas nativas transpõem-se para o legado histórico, onde são cultuadas, mantidas. Não há como reduzir o ritmo do impulso civilizador. Essa característica do ser humano é incontrolável. Quanto mais avança em conhecimento mais conhecimento gera e maior distanciamento ocorre entre as sociedades mais abertas e, portanto, mais dinâmicas, e as mais fechadas e, portanto, mais lentas. Se pensarmos bem essa é uma realidade atual, pois, mesmo com alguns milênios de evolução, há nichos humanos de domínio de alta tecnologia (para os padrões atuais) e os que praticamente ainda não saíram da condição primitiva.

>> CVA - Desculpe-me insistir nisso, mas, na sua opinião, é possível manter fronteiras temporais entre culturas simples e modernas ou pós-modernas no mundo globalizado que ganha forma na contemporaneidade?

Prof. Eurípedes - O choque é inevitável. Sempre que a sociedade moderna avança sobre as sociedades que representam culturas retardatárias ocorrem impactos destrutivos. A sociedade simples se desorganiza por imposição do processo de aculturação. O que sobra, quando sobra, passa para a dimensão histórica. Em algumas cenas políticas da atualidade o que se observa é a marca indelével do impacto de antigas frentes de civilização. Na América Latina Indígena temos um presente que na verdade é uma projeção de 500 anos do impacto desorganizador da sociedade nativa (Bolívia e outros). No lado atlântico não sobrou senão a indignidade da marginalidade nativa.

>> CVA - Os senhores apontam para o campo cultural, o equilíbrio social na pós- modernidade, na superação, que já sentimos, dos dois grandes paradigmas da modernidade - o individualismo e o coletivismo. A força deste novo paradigma me parece assentada sobre um esforço ecumênico, holístico e vocês sugerem que a transição que vivemos seja uma negação ou uma síntese dos paradigmas da modernidade. Estamos falando da mesma coisa?

Prof. Eurípedes - O campo cultural é a dimensão tempo-espaço onde devem ser buscados os indicadores mais aproximados do equilíbrio social. Cada país, como afirmamos, será o resultado de seus investimentos em educação. Educação aqui colocada na visão estratégica e holística do desenvolvimento. O crescimento individual pelo processo educacional será o crescimento coletivo da sociedade. Trata-se de treinar as mentes para as novas realidades, para o avanço do conhecimento. A ciência é o portal do futuro. Por ele entraremos na sociedade do futuro, das novas pós-modernidade, dos novos signos e símbolos e, conseqüentemente dos novos comportamentos. A sociedade coletiva só será forte se o indivíduo for forte. Ser forte significa ter conhecimento, ser culturalmente preparado aos empreendimentos futuros. O tempo da passividade individual que levou à passividade coletiva (submissão à tirania, ao terror, à dialética de rebanho, à demagogia) não volta mais. Se ainda existe, e trata-se de uma realidade muito presente na orla das sociedades mais desenvolvidas, é porque o individualismo ainda não é suficientemente forte para construir uma coletividade também forte. A linha da pobreza, hereditária, consentida e de exclusão, abriga um contingente que representa a negação dos paradigmas da pós-modernidade. Mas há sínteses evolutivas e é nelas que devemos buscar inspiração. Mas é importante que tenhamos competência para construir nosso próprio modelo de sociedade, mesmo fazendo parte da sociedade global.

>> CVA - A perspectiva aberta por suas argumentações apontam para e constatamos a criação de empresas pós-modernas que tenderão cada vez mais para a superação da funcionalidade de operários, para a constituição de coletivos de autônomos, prestadores de serviços e robôs, e para a vitalidade de uma nova dimensão social que é o terceiro setor. O pós-modernismo, que ainda não entendemos bem, traduz, conforme vocês argumentam, uma transformação do processo produtivo por meio de novas tecnologias, técnicas organizacionais e novos métodos de gestão, para a qual um ensino básico sólido, uma formação específica e conhecimento multidisciplinar serão fundamentais. Esta dinâmica está para nós, brasileiros?

Prof. Eurípedes - Ainda não, o que é lamentável. O nosso ensino continua fechado no tempo da modernidade industrial. O perfil da produção mudou. Praticamente não se pode identificar exatamente onde começa e onde termina o processo produtivo. Os lugares-globais são desterritorializações de lugares-locais, produtos da herança histórica. Neles se produz componentes e insumos que viajam pelo mundo global (não inclui todos os países) em busca de montadoras de partes ou do todo, em algum lugar, formando algo parecido com um produto final. O mundo da produção global é um mundo informatizado e robotizado que dá respostas; as perguntas são feitas pela inteligência e essa precisa estar treinada para as novas tarefas. O mundo da produção mudou; mudou o emprego transformando-se em trabalho de diversos formatos. Portanto, o processo educacional, em níveis perfeitamente integrados entre si, tem que passar, necessariamente, por um processo de reestruturação. Não há como colocar num mercado de trabalho altamente qualificado a mão-de-obra que sobrou de mercados de trabalho onde a qualificação não era exigida. Se não mudarmos nosso sistema de treinamento continuado das mentes para os eventos futuros, apenas aumentaremos os índices de desempregados. Países de alta tecnologia tem menos desempregados que os de baixa tecnologia. Paradoxo, lógico, com certeza!

>> CVA - Eu vi há algumas semanas um filme que retrata muito bem o que os senhores disseram sobre a inexistência de um elo entre o mundo das comunidades pobres e a sociedade global rica e culturalmente avançada. Estou falando do filme da Lúcia Murat, o Quase dois irmãos, que nos mostra claramente esta enorme e aparentemente intransponível fissura entre o universo dos favorecidos e dos excluídos. Como vamos resolver isto?

Prof. Eurípedes - Talvez uma mudança na análise conceitual. É preciso ter a clara percepção do que significa favorecidos e excluídos. Há uma ou duas variáveis que gostaria de destacar. As duas são tiradas da experiência de professor. Por mais que tentemos mostrar aos alunos a importância do estudo, mesmo assim as diferenças de esforço pessoal são marcantes. Vencem, pois, os que se esforçaram mais ou os que foram estimulados em casa para estudarem mais. Forma-se aí uma primeira fase do processo de exclusão. A outra foi tirada dos projetos de ensino nas comunidades pobres. A reprodução humana irresponsável responde pela segunda exclusão social, na própria família (mulheres sem condições de sustentar os filhos numerosos os empurram para a marginalidade social, a cruel marginalidade das ruas). A dimensão que esses dois problemas assumem remete ao papel do Estado, da religião e da própria sociedade. A clivagem social não está diretamente ligada à globalização. É um problema histórico, de cultura e de submissão a preceitos equivocados. As sociedades ricas têm taxas de natalidade baixa e taxa de educação elevada. Nas sociedades pobres a relação se inverte. Portanto, há uma nítida diferença conceitual de vida e educação a permear muitos dos aspectos da riqueza e da pobreza, talvez melhor sintetizada em cultura e subcultura.

>> CVA - Pobreza localizada, profunda e ampliada versus blocos econômicos e configuração política e social globalizada, interessante para os países ricos e hegemônicos, é o que a perversidade pós-moderna descortina no nosso horizonte, conforme mostram os seus estudos. A mudança deste encaminhamento depende de sujeitos conscientes ou segue uma dinâmica “própria”, em um movimento conjuntural de transformações históricas, econômicas, políticas, etc.?

Prof. Eurípedes - A riqueza é global e a pobreza é local, penso que foi isso que afirmamos. Mas há o cenário colocado na resposta anterior. A sociedade global inclui hoje países que até pouco eram considerados subdesenvolvidos. Na Ásia temos alguns exemplos importantes. Aliás, em algumas regiões asiáticas tidas como pobres hoje se apresentam ao mundo com elevados índices de desenvolvimento a partir do salto conceitual na educação e controle de natalidade. Qual o nosso salto? Para a má qualidade do ensino, para a violência e para a degradação dos costumes políticos? A consciência do sujeito é o primeiro passo a conduzir às transformações históricas tanto na ordem econômica, como na política e na organização social na visão holística. O paradigma cultural, afirmamos: é a qualificação do sujeito. Será ele o condutor da nova sociedade. Afirmamos que para a sociedade desenvolvida não mais interessa a condição subdesenvolvida, pobre e atrasada nas periferias hegemônicas. Vejamos: hoje, os mais importantes centros operacionais das finanças, do consumo e da produção de alta tecnologia se deslocam para uma região até há pouco tida como das mais pobres do mundo. O que mudou? Tudo mudou. A concepção de transterritorialidade, mas, principalmente, a concepção interna de como gerir o desenvolvimento a partir de estratégias internas e externas.

>> CVA - Por último, o senhor poderia nos fazer um “fecho” para esta entrevista, explicitando o que os senhores estão denominando uma dialética pós-moderna?

Prof. Eurípedes - A sociedade humana é dinâmica, inovadora, evolutiva. Ela é parte de uma configuração de transformação contínua em todas as dimensões do tempo-espaço. A natureza é assim, o universo também. A dialética da pós-modernidade é na verdade a sociedade em movimento. A pós-modernidade é uma transposição de época, a passagem de uma época marcada por um signo (pedra polida, metais, máquina a vapor, computador) para outra com profundas rupturas. Modernidade – pós – modernidade. É precisamente isso: uma modernidade, uma transição (pós), outra modernidade. Muitas outras modernidades virão com o desenvolvimento da ciência, da tecnologia, enfim, do conhecimento. As gerações do futuro encontraram um acúmulo de conhecimento que lhes permitirão transitar permanentemente pela fascinação da inovação. Não se descobre o novo; o novo se cria com o poder da inteligência!

>> CVA - Prof. Euripedes, muito obrigada pela entrevista e parabéns pelo excelente trabalho que resultou neste livro. Gláucia.



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