Entrevista (Edição nº 26)

" Antropologia: entre a poesia e o raio x "

Vagner Gonçalves da Silva é mestre e doutor em antropologia pela Universidade de São Paulo e professor de Antropologia da USP. Autor de diversas publicações sobre o campo religioso afro-brasileiro e a antropologia pós-moderna, já havia concedido uma entrevista para a Comunidade Virtual de Antropologia ( http://www.antropologia.com.br /entr/entr7.html ). Na presente edição ele fala sobre sua produção, analisa a posição atual do negro na cultura brasileira e antecipa alguns dos projetos em que se encontra envolvido.

Vagner, é um prazer contar novamente com sua participação na Comunidade Virtual de Antropologia.

>> CVA - Suas publicações têm sido feitas em dois campos principais: religião, privilegiando as vertentes afro-brasileiras, e a antropologia pós-moderna. Qual o elo entre estes interesses?

Vagner - Fui levado à antropologia pós-moderna no momento em que estava preparando minha tese de doutorado (“O antropólogo e sua magia”) sobre a questão do trabalho de campo e do impacto do texto etnográfico na área das religiões afro-brasileiras. Naquela época, mais de dez anos atrás, foi entre os chamados autores “pós-modernos” que encontrei um núcleo de discussão muito denso e original. Mas curiosamente era também uma literatura que sofria um certo preconceito, algo do tipo “não li e não gostei”. Meu interesse por essa literatura, eu diria, é mais de “inspiração”. Atualmente, por exemplo, trabalho, juntamente com a Rita Amaral, num projeto que se utiliza dos recursos fornecidos pela hipermídia para a construção de uma etnografia “não linear”, ou seja, uma etnografia em que se possa construir uma “descrição densa” utilizando sons, imagens, filmes, textos etc. em planos articulados previamente, mas cuja leitura possa também ser determinada pelos interesses do leitor.

>> CVA - Este trabalho estaria situado na mesma perspectiva desenvolvida, por exemplo, no vídeo “Tereza”, integrante dos “Valetes Em Slow Motion”, de Kiko Goifman?

Vagner - No curso que dou sobre antropologia pós-moderna, no módulo que discutimos textos, hipertextos, multimídias e algumas possibilidades atuais de representação da dialogia etnográfica, utilizo o “Valetes” do Kiko como um dos raros exemplos destas possibilidades. Ele próprio já esteve lá discutindo com a gente. Apenas eu diria que na nossa proposta, os vários suportes materiais (livro, vídeo, CD) estarão reunidos numa única mídia que dará conta de todo o mapa de interatividade da etnografia.

>> CVA - Uma das críticas à antropologia pós-moderna é que se trataria de uma concepção teórica localizável, no tempo e no espaço, no território norte-americano contemporâneo. O que pode ser dito de seu desenvolvimento em outros países? Suas contribuições são viáveis, por exemplo, para a antropologia que se faz no Brasil?

Vagner - Acho que qualquer proposta de reflexão teórica ou metodológica sobre a antropologia diz respeito a todos os envolvidos com esta disciplina, para além das circunstâncias regionais dos sujeitos que a propõem. Obviamente que podemos fazer uma antropologia da própria antropologia pós-moderna (e muitos o fazem) e analisar suas condições sócio-políticas de surgimento. No artigo que recentemente publiquei, “Entre a poesia e o raio x. Uma introdução à tendência pós-moderna na antropologia” [in: Guinsburg, J. e Barbosa, Ana Mae (org.). Pós Modernismo. São Paulo: Perspectiva, 2005. p.145-158] procuro (é bom que se diga: modestamente, pois se trata de um artigo direcionado a um público de não especialistas e escrito há oito anos para ser usado no meu curso de graduação) mostrar que suas contribuições podem ser úteis para se fazer uma antropologia mais voltada para certas preocupações, sem que seja preciso ficar arranhando constantemente a pintura de totens já consagrados em nossa disciplina, como Malinowski, entre muitos outros.

>> CVA - Você percebe um laço de continuidade entre sua dissertação de mestrado, publicada com o título de "Orixás da Metrópole", e um livro mais recente como "Caminhos da Alma: memória afro-brasileira", que organizou e onde escreveu dois artigos? O interesse do brasileiro pelo campo religioso aumentou?

Vagner - No último capítulo de “Orixás da Metrópole” [Petrópolis: Ed. Vozes, 1995], introduzo uma preocupação sobre o retorno e impacto das etnografias para os grupos estudados. Essa preocupação, posteriormente, foi ampliada e resultou no “O antropólogo e sua magia” [São Paulo: Edusp, 2000]. Nesse sentido, há um laço de continuidade maior entre estes dois trabalhos.

Já “Caminhos da Alma” [São Paulo: Selo Negro/Summus,, 2002] é o primeiro de uma coleção de três volumes, chamada “Memória Afro-Brasileira”, que estou organizando para a editora Selo Negro e que tem por objetivo testar uma metodologia que consiste em articular histórias de vida com contextos mais amplos nos quais estas histórias se tornaram significativas. E o mundo afro-brasileiro é ideal para isso, pois tradicionalmente seus membros foram alijados da chamada “história oficial”, mas são produtores de uma memória altamente significativa em termos de valores artísticos, religiosos, de sociabilidade, auto-estima etc.


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O que permanece e o que distingue aquele Vagner pesquisador do mestrado e o Vagner atual, professor da USP? Qual o paralelismo que se pode traçar entre o amadurecimento profissional e as produções que são levadas a um público mais amplo através de livros?

Vagner - Não vejo grandes rupturas ou distinções, vejo mais continuidades. Comecei a dar aulas na Escola de Sociologia e Política quando estava no último ano de minha graduação em ciências sociais na USP. Depois me tornei professor no Departamento de Antropologia, quando houve um concurso público para substituir a professora Eunice Durham que havia se aposentado. Ainda estava no doutorado e, sempre brinco com isso, fiz o concurso como “treineiro”, apenas para adquirir experiência e ter mais um motivo para me preparar teoricamente. Acabei passando e acho que fui o último doutorando a ingressar num concurso público na FFLCH da USP. De uns tempos para cá, o título de doutor tornou-se necessário para a inscrição no processo seletivo. Enfim, acho que é possível associar amadurecimento profissional com um gosto permanente pelo experimentalismo e pela tentativa de fazer com que nossas reflexões também possam ser compartilhadas por um público mais amplo do que o da academia.

>> CVA - "Candomblé e Umbanda", cuja segunda edição veio recentemente a público, objetiva ser uma espécie de introdução às religiões afro-brasileiras. Por outro lado, "O Antropólogo e sua Magia" constitui-se numa obra mais sofisticada, onde você lança mão de recursos analíticos derivados de um conhecimento antropológico de domínio mais especializado. Qual a diferença na produção dos dois livros? Você sente ter alcançado o objetivo que se propôs em cada um deles?

Vagner - Exatamente o que eu dizia, respondendo a sua pergunta anterior. Acho que não devemos ver os discursos apenas como suportes de “informações” ou “conteúdos”. Por exemplo, quando eu enviei a dissertação “Orixás da Metrópole” para ser avaliada para publicação, o editor me chamou e disse que havia gostado do trabalho, mas ele estava querendo um livro de introdução ao tema para um público mais amplo.

Pedi-lhe alguns meses e assim escrevi “Candomblé e Umbanda” [São Paulo: Selo Negro/Summus, 2005. 2ª Edição]. Escrever um livro de introdução às religiões afro-brasileiras para um público leigo me levou a rever os conceitos que havia trabalhado em “Orixás da Metrópole”. Ou seja, as etnografias não são “softwares” que você pode ter uma versão mais “light” ou mais “hard”. Na economia do discurso etnográfico, alguns fatores como quem produz, a linguagem utilizada, o público para o qual se destina, entre outros, imprimem sua marca nos conteúdos expostos. Já o “Antropólogo e sua magia” é certamente um livro mais direcionado para um público que produz e consome etnografias (e não apenas as afro-brasileiras). Mas, parodiando Oswald de Andrade, eu diria que não há um hiato intransponível entre a massa consumidora de biscoitos finos e do pão nosso de cada dia.

>> CVA - Quando o conheci, no Congresso Afro-brasileiro de Salvador, realizado em 1997, você participava de uma mesa-redonda com Sérgio Ferretti, Tullio Seppilli e Pierre Sanchis, todos pesquisadores já experientes. Chamou-me a atenção sua pouca idade, quando comparada à dos outros componentes da mesa. Mais recentemente, em 2004, a ABA patrocinou a publicação de uma pesquisa sobre "O Campo da Antropologia no Brasil". Segundo os dados, egressos dos programas de mestrado, com idade média de 32 anos, trabalham prioritariamente em universidades particulares, enquanto os doutores, média de 41 anos, em universidades públicas. Considerando estes dados e sua experiência pessoal, como você considera hoje o campo profissional para o antropólogo no Brasil? Ele encontra-se em expansão?

Vagner - Acho que esse campo tem se expandido razoavelmente. Não apenas em instituições de ensino superior, públicas ou privadas, mas em órgãos públicos, tanto na esfera do executivo como do legislativo, em instituições de pesquisa de mercado, de opinião pública, sócio-demográficas, em assessorias a instituições diversas como ONGs, sindicatos etc. Entretanto, paralelamente a isso, há um crescimento do número de profissionais em antropologia que estão entrando no mercado, decorrência natural do aumento dos cursos de graduação e dos programas de pós-graduação e obviamente do número de alunos que destes cursos e programas saem. Do ponto de vista qualitativo, penso que as reflexões acumuladas pela antropologia sobre processos identitários e dinâmicas culturais fazem com que os profissionais desta disciplina sejam muito bem qualificados para atuarem naqueles segmentos do mercado de trabalho envolvidos com políticas públicas ou planejamento social, o que possibilita que nossa área se fortaleça tanto em relação às demandas internas como externas.

>> CVA - No que você atualmente tem trabalhado, em que áreas tem atuado?

Vagner - Atualmente desenvolvo esse projeto de pesquisa em hipermídia, ao qual eu me referi, que pretende abordar os diálogos das religiões afro-brasileiras com a cultura nacional na área da música popular, carnaval, festas, entre outras. Também estou finalizando a organização do terceiro volume da coleção Memória Afro-Brasileira, chamado “Imaginário, Cotidiano e Poder”, que trará artigos sobre a escrava Anastácia, Chico Rei, o “empretecimento” da imagem de Nossa Senhora Aparecida, entre outros. Estou finalizando, ainda, a organização de uma coletânea sobre intolerância religiosa no Brasil, Argentina e Uruguai, tratando principalmente da ação dos neopentecostais contra as religiões afro-brasileiras, a cultura negra e os homossexuais. Essa coletânea aborda um problema que desde a fundação da CRER (Comissão de Relações Étnicas e Raciais) da ABA, em 2003, temos tratado em algumas reuniões internas e nos últimos encontros anuais da própria ABA. Com a ajuda de antropólogos de vários pontos do Brasil, venho reunindo esses casos de intolerância religiosa. O livro terá a participação de antropólogos, sociólogos e de um advogado da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). E, finalmente, fiz parte recentemente de um comitê interdisciplinar para implementação do Museu Afro-Brasil, fundado por seu curador Emanoel Araújo que cedeu em comodato mais de mil obras de seu acervo pessoal para a instalação deste museu no Parque do Ibirapuera. O que me atraiu nesse projeto foi algo que tem uma relação direta com o meu trabalho de pesquisa na academia: pensar os processos de formação da identidade nacional a partir da perspectiva do negro e de sua inestimável contribuição para a constituição da nossa cultura.

>> CVA - Você acha que apesar dos posicionamentos do Governo Federal, tanto na política externa (visitas a países africanos), como internamente (implantação de políticas afirmativas sob a forma de sistema de cotas), o poder público realmente considera a importância do negro para/na cultura brasileira?

Vagner - A importância do negro na formação da cultura e da sociedade brasileira é um dado sociológico inegável, reconheça ou não o governo. O fato de colocarmos a questão nestes termos (reconhecimento, importância, tombamento de bens culturais etc.) demonstra o quanto estamos atrasados em relação a essas políticas públicas, pois isto já deveria ser ponto pacífico e estarmos num outra fase agora. Recentemente, por exemplo, a construção de um acesso rodoviário estava destruindo as edificações de um dos mais antigos terreiros de candomblé de São Paulo. Fomos visitá-lo e os assentamentos dos orixás, que são altares, estavam jogados no barracão. Isso me lembrou aquela cena fotografada pela Missão de Pesquisas Folclóricas, nos anos 30, em que vários assentamentos de orixás aparecem no pátio de uma delegacia de policia, fruto da invasão de terreiros. Enfim, se fosse uma igrejinha barroca (nada contra elas, até mesmo porque a mão afro-brasileira também está lá presente) isso não teria acontecido. Mas, felizmente, com a ajuda do IPHAN, a destruição foi interrompida e o terreiro está sendo tombado. Em outras épocas esse tombamento não seria possível, mas tem de haver pressão, muita pressão social para as coisas acontecerem. Visitas a países africanos, pedidos de desculpas, etc. ajudam, mas é preciso que a “questão do negro” (que é uma “questão do branco”, como diria Guerreiro Ramos) seja também uma questão que envolva não só o Ministério da Cultura, mas o da Fazenda, da Infra-estrutura etc. Por exemplo, a política afirmativa feita com cotas é um passo importante, mas por ser a mais barata para os cofres públicos, temo que sem pressão social e acompanhamento de seus resultados possa ficar somente nisso, escamoteando problemas de base fundamentais, como a falta de investimentos materiais e humanos no ensino público fundamental.


>> CVA /FERNANDO ARAUJO - Vagner, a equipe da Comunidade Virtual de Antropologia agradece pela sua gentileza e espera que em outras ocasiões volte a estar conosco.



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