Entrevista (Edição nº 25)

"História oral: metodologia e conhecimento"

Verena Albert é formada em História pela Universidade Federal Fluminense (Niterói-RJ), mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e é doutora em Teoria da Literatura pela Universidade de Siegen (Alemanha). Coordenadora do Programa de História Oral do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas (CPDoc/FGV) e presidente da Associação Brasileira de História Oral (ABHO) no biênio 2002-2004. Publicou Manual de História Oral (1990) e O riso e o risível na história do pensamento (1999; 2ª edição 2002). Em 2004,  veio a público a 2ª edição do Manual de História Oral (Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2004, 236 p., R$38,00) e a publicação de Ouvir Contar. Textos em História Oral (Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2004, 196 p., R$29,00), objetos desta entrevista.


Entrevistas temáticas, histórias de vida – aplicabilidade e procedimentos, como, onde, quando, por que usar; como fazer e como tratar o acervo da história oral, estas e outras orientações é o que podemos encontrar nos dois livros em destaque, de Verena Alberti. Manual de História Oral é uma obra de referência, com valor instrumental, conforme sugere o título. Ela ensina “como fazer” história oral. A autora produziu um modelo com base na sua experiência de historiadora no Programa de História Oral do CPDoc/FGV. No Ouvir Contar. Textos em História Oral, a autora destaca valor e aplicabilidade da história oral no âmbito da pesquisa interdisciplinar. Trata-se de uma coletânea de oito artigos nos quais ela mostra como a entrevista pode ser um documento e destaca a sua aplicabilidade.


>> CVA -
Olá Verena, obrigada pela entrevista. Sobre o desenvolvimento da história oral, conforme li na sua obra, podemos dizer que se trata de um campo recente, um movimento que teve início nos anos 90. Quer dizer, na verdade, primeiramente, eu gostaria que você nos esclarecesse: campo temático ou método de pesquisa?

Verena - Olá, Gláucia, é um prazer conversar com você e os leitores da Comunidade Virtual de Antropologia. Podemos dizer que a história oral é um método de pesquisa que tem grande afinidade com temas como memória, biografia e narrativa oral. Consiste na realização de entrevistas gravadas com pessoas que participaram de, ou que testemunharam, acontecimentos e conjunturas do passado, e também do presente, os quais se pretende investigar. Na sua origem, a história oral muito aprendeu com a antropologia, que freqüentemente recorre a entrevistas qualitativas com os chamados “informantes” para ampliar o conhecimento sobre os modos de vida e os valores do grupo estudado. Por causa disso, podemos dizer que ela teve origem bem antes dos anos 1990, pois já na década de 1960, com a invenção do gravador a fita, alguns pesquisadores, antropólogos sobretudo, passaram a realizar entrevistas de história de vida como forma de aproximação de seu objeto de estudo. Nessa época, fizeram sucesso livros de entrevistas que “davam voz”, melhor dizendo, “davam ouvidos”, a minorias sociais, com ênfase para a vida cotidiana, a família, os gestos do trabalho, os rituais, as festas etc. Era a fase que alguns analistas perspicazes chamam hoje de “história oral militante”.

Mas você tem razão quando cita os anos 1990, porque nesse momento a história oral começa a ser admitida dentro da academia, na área de história. Já se observou que a partir dessa década alguns cursos superiores de história passam a oferecer disciplinas de história oral, na graduação ou na pós-graduação, e que pesquisas utilizando essa metodologia também não são mais olhadas totalmente de revés. É que a própria história passou por mudanças, como o interesse pela chamada “história do tempo presente” (e não mais exclusivamente por períodos distantes do historiador) e uma nova forma de se perceber a biografia (não mais os feitos dos grandes homens, mas o conjunto de elementos tornados possíveis em determinada sociedade).

Hoje em dia observamos que o interesse pela história oral tem aumentado bastante, não só na história e na antropologia, mas em outras áreas das ciências humanas, como a sociologia e a ciência política, a educação, a psicologia e a literatura, por exemplo. Esse sucesso da história oral pode ser explicado, a meu ver, pelo fato de essa metodologia se encaixar em dois paradigmas do mundo contemporâneo: a idéia do indivíduo enquanto valor e o modo de pensar hermenêutico, que procura encontrar sentidos que sirvam como estratégias totalizadoras para a explicação das experiências. Discuto essa relação da história oral com esses dois paradigmas no primeiro capítulo de Ouvir contar, pois, como digo lá, convém saber de que lugar se fala quando se opta por utilizar essa metodologia. No fundo, ela faz sucesso porque, de alguma forma, ela oferece aquilo que as pessoas em geral (pesquisadores e público) estão querendo ouvir.

É sempre bom ter em mente que os dois paradigmas com os quais a história oral se entende muito bem não são as únicas formas possíveis de elaborar a realidade. No último capítulo de Ouvir contar pretendo justamente mostrar, com o auxílio do exemplo de Fernando Pessoa, que recusou a unidade totalizadora do indivíduo enquanto valor e deu vida a seus heterônimos, que há outros caminhos possíveis no nosso mundo contemporâneo.

Por isso, grande parte do meu esforço, especialmente nesse livro, vai no sentido de mostrar que a história oral pode ser uma ferramenta útil, mas não é a única possível, nem é a salvação da lavoura. Se uma pesquisa utiliza esse método como forma de aproximação do objeto de estudo, convém ter claros seus limites e os “perigos” de seu fascínio.

>> CVA - E quanto ao seu desenvolvimento, se entendi bem, a história oral, no Brasil, começou no CPDOC da FGV... você pode nos contar sobre a origem e o desenvolvimento da história oral no Brasil?

Verena - O CPDOC da Fundação Getulio Vargas começou a gravar suas primeiras entrevistas de história oral em 1975, no contexto de um projeto de pesquisa bastante abrangente que tinha como objetivo estudar a trajetória e o desempenho das elites políticas brasileiras através de suas histórias de vida. Durante alguns anos, o CPDOC foi “acusado”, vamos dizer assim, de fazer a história dos vencedores, das elites, ao invés de buscar a experiência daqueles que geralmente não têm oportunidade de deixar registros escritos sobre seu passado. É claro que a história oral é uma metodologia adequada a todo universo de atores a serem pesquisados, mas em sua origem ela se firmou bastante com a justificativa de estar dando voz àqueles que não tinham voz, proporcionando uma história “democrática”. No terceiro capítulo de Ouvir contar trato dessa discussão, abordando ao mesmo tempo o caso da história oral na Alemanha, que tive a oportunidade de estudar quando fiz meu doutorado na Universidade de Siegen.

O interesse do CPDOC naquela metade da década de 1970 era procurar entender como as lideranças brasileiras (seja da situação, seja da oposição) se formaram desde os anos 1920, que tipo de influências sofreram, como estabeleciam entre si redes de relações, que padrões de comportamento e de estratégia desenvolveram ao longo do tempo. Estávamos em pleno regime militar e interessava também tentar compreender como se tinha chegado a um regime de exceção, à suspensão do estado de direito.

Por ter começado a trabalhar com a história oral muito cedo, em uma época em que o método se difundia pelo mundo, o CPDOC acabou servindo como modelo de referência para outros programas de história oral que se desenvolveram no país. Hoje em dia vários centros de pesquisa, em universidades ou fora delas, desenvolvem pesquisas de história oral, seguindo caminhos diferenciados, o que permite uma troca constante de experiências.

Em 1994 foi fundada a Associação Brasileira de História Oral (ABHO), que no ano passado completou 10 anos de existência e já organizou seis encontros nacionais, além de diversos encontros regionais, nos quais pesquisadores e professores de várias áreas do conhecimento têm tido oportunidade de debater suas pesquisas.

>> CVA - Com efeito, a história oral tornou-se um instrumento de pesquisa igualmente importante fora do Brasil. Você tem informações referenciais do desenvolvimento da história oral lá fora?

Verena - As primeiras experiências de pesquisas com história oral após a invenção do gravador portátil foram feitas nos EUA, no México e em alguns países da Europa. Costuma-se dizer que nos EUA a história oral começou com ênfase sobre a atividade de arquivo, isto é, constituía-se um arquivo de entrevistas para a posteridade. Na Europa, os praticantes da história oral estariam mais preocupados com o uso da metodologia no desenvolvimento de projetos de pesquisa específicos. Na verdade, o trabalho com a história oral pressupõe essas duas partes: a pesquisa e a documentação. As entrevistas são produzidas no contexto de certas questões (que determinam quem entrevistar, por que, o que perguntar etc.) e são elas mesmas documentos que precisam ser tratados e conservados para viabilizar sua consulta.

O intercâmbio entre os profissionais que trabalham com a história oral tem ocorrido principalmente nos congressos internacionais. Em 1996, foi fundada a International Oral History Association (IOHA), que tem se preocupado em difundir o método e acolher pesquisadores de diferentes partes do mundo. Foi com essa preocupação, por exemplo, que três dos quatro últimos congressos internacionais foram realizados fora do eixo Europa – América do Norte: no Brasil, na Turquia e na África do Sul.

>> CVA - A história oral não é somente entrevista... você pode esclarecer melhor para nós, o que devemos entender por história oral?

Verena - O cerne da história oral é, sem dúvida, a entrevista – este é o documento que se cria e que vai ser objeto de análise. Mas é preciso pensar que há todo um trabalho anterior à gravação da entrevista que é de suma importância, pois dele depende a qualidade do documento que se vai constituir. Uma boa entrevista tem um projeto de pesquisa por trás: questões, etapas, seleções, escolhas... Para bem conduzir a entrevista, é necessário estudar muito o assunto e procurar conhecer a trajetória do entrevistado com antecedência. A própria condução da entrevista depende de toda uma postura do pesquisador, que deve saber ouvir e saber interagir com seu entrevistado. E o tratamento da entrevista e sua análise também requerem dedicação especial. Uma entrevista que não é tratada acaba permanecendo muda no acervo, pois ninguém saberá o que contém, a não ser o próprio entrevistador.

Todo processo envolvido na preparação, na realização e no tratamento de entrevistas de história oral está detalhado no Manual de história oral, que tem o objetivo de orientar o pesquisador que optar pelo uso dessa metodologia.

>> CVA - Pode parecer evidente e você já nos deu parcialmente a resposta, mas gostaria que você explicitasse para o nosso leitor, como a história oral contribui para o conjunto das pesquisas em ciências sociais e em que ela difere das entrevistas tradicionais que os antropólogos fazem com os seus informantes?

Verena - Uma das principais contribuições de uma entrevista de história oral para as pesquisas em ciências sociais é o fato de ela permitir tornar inteligível o sensível, como dizia Lévi-Strauss. É claro que nem toda entrevista oferece esse potencial. Mas, se temos uma boa entrevista, ou um bom conjunto de entrevistas, podemos compreender como determinadas concepções de mundo se tornam fatos, a ponto de as pessoas passarem a tomar decisões e a agir em função delas. As leituras e as visões de mundo de um indivíduo ou de um grupo social incidem diretamente sobre suas escolhas eleitorais, por exemplo. E são, por isso mesmo, capazes de mudar o curso dos acontecimentos. Uma boa entrevista permite “isolar” essas visões de mundo, digamos assim, como objetos de análise e torná-las “inteligíveis”.

Quanto à comparação entre a entrevista de história oral e aquela realizada pelos antropólogos, talvez possamos dizer que há mais semelhanças do que diferenças. Mas um aspecto tem chamado a atenção dos pesquisadores: em uma pesquisa de história oral, geralmente o nome do entrevistado é tornado público; aquela entrevista tem um autor, que é reconhecido pelo pesquisador e pode ser conhecido pelo leitor ou ouvinte. No caso da antropologia, o que temos é o “informante” anônimo, que pode ser qualificado (profissão, sexo, idade, por exemplo), mas não importa enquanto indivíduo. Ele geralmente não “assina” a entrevista, se assim podemos dizer.

>> CVA - Em nome da CVA, eu agradeço os esclarecimentos e desejo sucesso no teu trabalho. Gláucia.

Verena - Obrigada. Eu agradeço a oportunidade de conversar sobre meu trabalho.



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