Entrevista (Edição >> out - nov 2000)

A professora da Faculdade de Educação da UFMG e doutoranda em Antropologia Social pela USP, Nilma Lino Gomes fala sobre a sua trajetória pessoal e sobre o livro que acaba de organizar juntamente com a professora Lilia K. M. Schwarcz, "Antropologia e História: debate em região de fronteira", em lançamento pela Ed. Autêntica. Os textos que compõem o livro são resultado dos trabalhos desenvolvidos pelos alunos de pós-graduação em Antropologia Social durante o curso "Antropologia e História: notas sobre um debate", ministrado pela professora Lilia K. M. Schwarcz, no segundo semestre de 1998, na USP. Os artigos são de autoria de Ailton José Agostini, Alessandra El Far, Ciméa Barbato Bevilaqua, Claude G. Papavero, Cleyde R. Amorim, Maria José Campos e Sidney Antonio da Silva. 

>> Comunidade Virtual - Em primeiro lugar, tendo defendido sua tese de mestrado na área da Educação, o que “fisgou” você, trazendo-a para o campo da Antropologia? Consegue identificar um momento no tempo e/ou espaço quando decidiu ingressar no campo antropológico? 

Nilma - De uma certa forma, desde o mestrado venho me aproximando do campo da Antropologia. Na minha dissertação de mestrado, que foi publicada em 1995 pela Mazza Edições com o título "A Mulher Negra que Vi de Perto", trabalhei com a construção da identidade racial de professoras negras. Assim, desde esse momento tive que me aproximar das discussões da Antropologia como etnia/raça, identidade e teorias raciais. Durante o contato com os textos antropológicos, fui “fisgada” pelo fascínio que as boas etnografias exercem sobre nós. Entendi, cada vez mais, o quanto o campo da educação possui pouco acúmulo sobre a dimensão cultural e, principalmente, sobre as relações raciais. Hoje, percebo que a educação está se abrindo para um diálogo mais profícuo com as Ciências Sociais, reconhecendo que o fenômeno educativo não se restringe ao âmbito da pedagogia.

Além disso, fiz uma disciplina de introdução à Antropologia com o prof. Pierre Sanchis da FAFICH/UFMG. Nesse momento, meu desejo de conhecer mais de perto o campo antropológico aumentou ainda mais não só pelo contato com a teoria antropológica como, também, pela oportunidade ímpar de conhecer o prof. Pierre, um competente antropólogo, reconhecido no meio intelectual e um homem de uma sensibilidade encantadora.

Para saber se a minha incursão na fronteira entre Antropologia e educação teria um futuro promissor, decidi, junto com a minha orientadora, na época, prof.a Eliane Marta Teixeira Lopes, convidar um antropólogo para a banca da dissertação de mestrado. O convidado foi o prof. Kabengele Munanga, do departamento de Antropologia da USP, que fez uma argüição atenta e uma bela leitura do meu trabalho. Naquele momento, o prof. Kabengele me estimulou a continuar aprofundando os estudos no campo antropológico. Segui o seu conselho à risca tanto que, atualmente, ele é o meu orientador de doutorado.

A partir desse “ritual de passagem” senti-me autorizada a continuar dialogando com o campo antropológico, apresentando o resultado da pesquisa na ABA, dialogando com colegas das Ciências Sociais. Atualmente, trabalho com políticas de estética, investigando a relação entre corpo negro e identidade em alguns salões étnicos da cidade de Belo Horizonte. 

>> Comunidade Virtual -
Parece que sua própria trajetória acadêmica acontece nesse espaço “inter-campos”. Acha que isto influenciou no investimento que teve para organizar este livro?

Nilma - Sinceramente, ainda não tinha refletido muito sobre isso. Mas, hoje, vejo que sim. Na realidade, acho que quando se trabalha numa região de fronteiras, ficamos atentos aos possíveis espaços “inter-campos” que poderão surgir na nossa trajetória acadêmica. Mas caminhar nesse espaço é, talvez, mais complicado do que fazer uma imersão em um único campo ou área do conhecimento, pois temos que tomar cuidado para não produzirmos análises superficiais. Construímos, então, uma grande responsabilidade de falar com seriedade e profundidade do nosso campo de origem e também do campo do outro. 

Lembro-me de um texto de Marc Augé em que ele chama a atenção para o fato de que a palavra “Antropologia” entra hoje em todas as searas. Ele diz (de uma maneira provocativa) que a profissão dos antropólogos pode regozijar-se com isso, considerando que, independentemente dos erros de linguagem e de perspectiva e das distorções de pensamento, alguma coisa da Antropologia passou às demais disciplinas. Contudo, ele alerta para o uso dos conceitos antropológicos de uma maneira um tanto frouxa pela necessidade de uma “perspectiva” e até de um “diálogo” entre outras ciências e a Antropologia. Chama a atenção para o risco dessa circulação inter-campos produzir uma Antropologia mutilada, reduzida ora a seus objetos empíricos, ora a seus supostos métodos, ora a seus supostos objetos teóricos. 

Acho que esse não é um risco exclusivo da Antropologia e sim de qualquer debate em região de fronteira. Concordo com a prof.a Lilia Schwarcz quando ela diz que no caso da fronteira entre disciplinas, não se inventou ainda o melhor juiz nem há como inventar. O importante é destacar a relevância desse debate que vai além de um estudo interdisciplinar. Talvez essa postura nos mostre que o debate entre diferentes disciplinas tem sido estimulado não só por um movimento interno, mas pelas mudanças históricas, culturais, sociais e políticas dos últimos anos, as quais exigem dos intelectuais muito mais do que a especialização no seu campo de conhecimento.

Mas nem sempre esse diálogo é visto com bons olhos por alguns especialistas das áreas. Esse debate em região de fronteira sempre traz alguns conflitos e muitos desafios. Politicamente, o intelectual que faz essa opção costuma ocupar uma posição marginal dentro de sua área de conhecimento. Isso nos leva a refletir que a opção por estar no centro desse debate é mais do que uma questão de profundidade teórica. Ela diz respeito às relações políticas, pois nos coloca no cerne das relações de poder que permeiam o meio acadêmico. Relações que, de uma certa forma, “determinam” a legitimidade das áreas, das temáticas, de quem possui autoridade para falar sobre determinado assunto ou de quem “pode” fazer determinado tipo de pesquisa. Acho que o debate/embate na região de fronteira ajuda a desvelar qualquer tipo de visão romântica e neutra sobre a relação poder x saber que se instaura no campo científico e fora dele. Por isso ele é desafiador.


>> Comunidade Virtual - Você acha que o livro vai despertar o interesse apenas dos antropólogos ou os historiadores também procurarão lê-lo?

Nilma - Os temas discutidos no livro "Antropologia e História: Debate em Região de Fronteira" sempre estiveram nas fronteiras. Por isso, acho que o livro despertará o interesse de antropólogos/as, historiadores/as e também dos demais interessados pelo campo das Ciências Sociais. O diálogo entre as duas disciplinas á apresentado através de temas diversos como, por exemplo, o encontro cultural, o consumo, a crítica literária, a imigração, a questão racial. Todos eles ligados à dissertação ou tese que o autor ou autora do artigo vem desenvolvendo até o presente momento. Apesar de ser considerada uma pessoa suspeita pelo meu envolvimento com o trabalho, acho que vale a pena conferir. 

>> Comunidade Virtual - Fale um pouco desta experiência de gerar um livro a partir de um curso ministrado na Universidade. Geralmente são apenas os professores que chegam a publicar livros a partir dos cursos que ministram. Como se sentiu ao inverter de certa forma esta posição? Como foi a relação com os outros autores?

Nilma - Essa experiência tem sido gratificante desde o início. Primeiro, a forma como o livro surgiu: ele é o resultado do curso "Antropologia e História: notas sobre um debate", ministrado pela prof.a Lilia K.M. Schwarcz para alunos e alunas da pós-graduação em Antropologia Social da USP, no segundo semestre do ano de 1998. O curso foi muito importante para todos nós. As leituras, os debates, as polêmicas surgidas tiveram um significado especial devido ao tipo de relação pedagógica estabelecida entre a professora e o grupo de alunos/as. De uma certa forma, ao final do curso, todos/as nós nos sentimos desafiados a produzir um texto que falasse da fronteira ente Antropologia e História, mantendo alguma relação com as nossas pesquisas ou com nossos interesses naquele momento. E isso foi realmente estimulado pela professora durante todo o curso.

Em segundo lugar, os alunos e alunas que aceitaram refazer o trabalho de final de curso e tiveram os artigos aceitos para publicação apostaram no projeto e o levaram a sério até o final. Aproveito esse momento, para agradecer aos meus colegas e minhas colegas que acreditaram no livro. Todos os contatos foram realizados através de telefonemas e e-mails e penso que, além da oportunidade da publicação, o processo pedagógico que possibilitou a produção do livro foi o maior estímulo para que todos se empenhassem para o sucesso do trabalho. 

Tudo isso estimulou muito a mim e prof.a Lilia que sempre apostamos no projeto desde o início. Acho que essa iniciativa deveria se tornar mais comum em nossos cursos de pós-graduação. Muitas vezes, participamos de cursos riquíssimos e, ao final, a experiência não é divulgada e nem socializada. Algumas vezes, transformamos um trabalho final em um artigo e o publicamos aqui ou ali, mas não conseguimos tornar público o processo, as principais discussões e os debates que fizeram parte do curso de pós que participamos. Tornar público esse processo é, para mim, uma das formas de socialização, de democratização do conhecimento, de estímulo à pesquisa e à produção científica. 

>> Comunidade Virtual - Deixe uma mensagem para os internautas que formam a Comunidade Virtual de Antropologia.

Nilma - Acho a experiência da Comunidade muito importante. Acredito que a internet, se for utilizada com ética, poderá resultar em contatos interessantes. A possibilidade de comunicação, a quebra de fronteiras, a democratização da informação são mais do que temas contemporâneos enfrentados pelo antropólogo. Fazem parte da nossa vida, da nossa história. Assim, não há como os/as antropólogos/as se manterem afastados desse processo e o surgimento da Comunidade, para mim, significa estar no cerne dessas questões. Vamos nos comunicar!!!

Clique aqui e leia o resumo do livro (PDF).

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