Entrevista (Edição nº 16)

Patrícia Birman é antropóloga, doutora pelo Museu Nacional (UFRJ), professora do Dpto. de Ciências Sociais da UERJ e pesquisadora do CNPq. É autora do livro O que é Umbanda (Col. Primeiros Passos, Abril/Brasiliense, 1983), Fazer Estilo Criando Gêneros (Relume/Eduerj, 1995), organizou junto com Regina Novaes e Samira Crespo a coletânea O Mal à Brasileira (Eduerj,1997) e publicou vários artigos relativos às suas pesquisas sobre diversidades religiosas no Brasil e na França, com enfoque na relação religião e política. No final do ano passado, organizou um excelente livro, intitulado Religião e espaço público (S. Paulo: Attar, 2003), sobre o qual ela nos fala na entrevista deste mês.

>> CVA - Patrícia, você organizou o Religião e espaço público a partir de um colóquio realizado com um grupo de cientistas sociais da UERJ, visando a constituição de um campo onde foram observadas interações mais estreitas entre o religioso e o social. Você poderia nos falar um pouco sobre a novidade dessa obra?

Patrícia - Acho que o livro reforça uma tendência analítica existente entre pesquisadores no sentido de tratar os fenômenos religiosos desconsiderando o que seriam suas fronteiras “naturais”, estabelecidas historicamente como o modelo próprio à modernidade, onde prevalesce a “religião” como uma esfera definida pela “crença” e distinta das outras como a política, a economia e a ciência. Sabemos que estas fronteiras pertencem mais a um modelo do que propriamente às relações sociais existentes. Mas mesmo como modelo, nem sempre bem considerado, ainda assim, pode inibir tentativas de pensar o que lhe escapa. A idéia de analisar a presença do “religioso” no espaço público opera de forma a valorizar por intermédio de trabalhos empiricamente fundados algumas das suas presenças específicas, com o contorno e o valor que adquriram em certas circunstâncias. Espero que os leitores possam aproveitar o melhor possível a nossa intenção de desestabilizar interpretações que fazem desta esfera um domínio claramente assentado na sociedade, cujas interrogações possíveis a seu respeito dificilmente desrespeitam os limites previamente fornecidos pelas suas fronteiras. Limites estes, aliás, que dificultam as análises já que a sua normatividade implícita encerra o religioso na esfera privada, distante da política e essencialmente em oposição a esta, quando vemos cada vez mais que o “religioso” se expande nas esferas públicas, contribuindo para redefini-las e se redefinindo também ao mesmo tempo.

>> CVA - O campo religioso brasileiro parece passar por profundas e sensíveis transformações, representando um crescente desafio analítico aos pesquisadores da religiosidade...

Patrícia - Sim, acho que as transformações recentes, por exemplo, a perda relativa da influência da igreja Católica para os grupos evangélicos, sobretudo em relação ao antigo monopólio católico da religião na relação com o Estado; o surgimento de uma mídia religiosa impactante com poder econômico e projetos tanto institucionais quanto políticos e, também, sem esgotar a lista, as transformações que estes eventos estão produzindo nas relações oficiais e oficiosas das igrejas com o Estado. Continuaremos como um estado laico, nos próximos anos? Os descaminhos da sociedade brasileira e seus processos de exclusão social, por exemplo, têm criado um campo novo de solidariedade animado por fontes ao mesmo tempo laicas e religiosas. Quais as orientações políticas que parecem emanar das ongs e de movimentos associativos e culturais diversos, ao mesmo tempo laicos e “confessionais”? De que maneira estes têm renovado a percepção dos problemas sociais e contribuído para criar novos protagonistas na vida associativa, nos territórios marcados pela exclusão e também na “grande política”? Em suma, questões não faltam neste campo em que a instabilidade se apresenta como um dado incontornável para os pesquisadores. Alguns desses problemas estão tratados direta e indiretamente neste livro.

>> CVA - Na introdução da obra, você fala em “questões de estilo” ligadas a modelos aplicados. Você poderia nos falar um pouco mais sobre isso?

Patrícia - Busquei simplesmente enfatizar o que os autores deste livro, de diferentes maneiras, demonstram através de suas pesquisas empíricas e suas etnografias: a densidade das relações sociais e os sentidos que podem eventualmente deter, passam por “estilos”, isto é, por maneiras de agir e de interagir, de se fazer presente, de se deixar “tocar” por certos eventos, de produzir, trocar e consumir bens e mensagens religiosas. Em suma, diálogos, projetos, imagens e objetos condensam relações sociais que se constróem também por intermédio do gosto, do valor emocional, estético e afetivo que lhes são atribuídos, sem excluir, claro, nem a política nem a economia.

>> CVA - Teorias mais tradicionais da sociologia e da antropologia da religião tratam a religiosidade muito em termos de sua “função social”, reduzindo o tema a apêndice dos estudos sobre a sociedade. Os artigos deste livro que você organizou colocam a ênfase na relação complementar, ou antes, na interação entre religião e sociedade. Podemos dizer que trata-se de uma tendência teórica, uma entrada nova, que vem de encontro a uma compreensão de uma complexidade maior dos fenômenos contemporâneos?

Patrícia - Não se trata de ignorar as funções eventuais que certos comportamentos possam deter, mas talvez de evitar uma tendência analítica que privilegie a totalidade social que, além do mais, supostamente, já teria a sua ordem e os componentes desta previamente estabelecidos. A limitação deste modelo para pensar a sociedade de forma a valorizar a sua relativa instabilidade, as tensões e os conflitos cujos termos e definições guardam uma certa provisoridade ligada à sua história fica evidente se privilegiarmos a religião nas suas “funções sociais”.

>> CVA - Para encerrar, considerando o número tuas publicações, está muito difícil organizar uma obra como esta, digo, publicar na área das ciências sociais? Os editores têm privilegiado algum tema especialmente?

Patrícia - Acho que é extremamente complicado imaginar que as publicações em ciências sociais devem depender inteiramente do “mercado” e de um improvável sucesso editorial para serem implementadas. A edição deste livro dependeu do Pronex, cujo apoio financeiro foi indispensável. O problema maior a meu ver tem sido a distribuição dos livros científicos que o governo brasileiro de maneira geral financia parcialmente a produção. Com raríssimas exceções, as editoras brasileiras enfrentam problemas nesta área e fica difícil para os pesquisadores fazerem o que, afinal, faz parte de suas obrigações, isto é, apresentarem seus pontos de vista críticos e seus achados analíticos à sociedade que paga seus trabalhos e com quem querem e precisam debater.

>> CVA - Obrigada, Patrícia. Sucesso no seu projeto!

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