Entrevista (Edição >> set 2000)
Comunidade Virtual - O que levou você, um psicólogo clínico, a fazer mestrado na área de Ciências da Religião? Como foi essa trajetória? 

Bonfatti - Sou psicólogo de orientação junguiana. Jung, enquanto   pesquisador da psique humana, sempre se interessou  (não só, mas também) pelo fenômeno religioso enquanto expressão  desta mesma  psique. Daí o meu interesse nesta área e em muitas outras, que abrangem  o pensamento e a teoria de Jung no que diz respeito ao estudo da psique. Além disso, existe uma área de pesquisa dentro da Psicologia que, estranhamente, é pouco pesquisada no Brasil: a Psicologia da Religião. Sinto uma grande lacuna neste aspecto e isso me incomoda e provoca. Além disso, o que observamos no meio acadêmico da Psicologia no Brasil em relação a esta área de pesquisa é uma bifurcação bastante limitada do ponto de vista epistemológico: de um lado, os psicólogos que que têm uma vivência religiosa pessoal e que querem dar um certo "ar científico" às suas próprias experiências, de outro, a psicopatologização exclusiva e unilateral do fenômeno religioso. Penso que podemos lidar com o fenômeno psicológico religioso sem cair numa dessas armadilhas metodológicas e foi esta possibilidade (além de me aprofundar mais em Jung) que me seduziu a estudar e coadunar as Ciências da Religião com a Psicologia. 

Comunidade Virtual - Como surgiu a idéia desse tema de pesquisa (Igreja Universal do Reino de Deus)? Considerando os inúmeros trabalhos que já foram escritos sobre o Neopentecostalismo e a IURD, como você definiria a contribuição do seu trabalho?

Bonfatti - Eu me interessei de início pela psicologia do fenômeno do exorcismo e fui estudar este fenômeno no lugar  onde esperava que ele mais existisse, ou seja, na IURD. Todavia, nestas pesquisas sobre exorcismo,  despertou meu interesse os singulares fenômenos de "curas" (que eu chamei em minhas pesquisas de "suspensão"). Como psicólogo, chamou minha atenção a suspensão de quadros como alcoolismo, outras drogadições, alucinações e delírios, bem como recuperação das capacidades laborativas, de socialização e de reestruturação existencial e econômica. Intrigou-me também o sentido que milhares de pessoas estavam encontrando em suas vidas neste grande fenômeno coletivo que é a IURD no campo religioso brasileiro.
Acho que a contribuição do meu trabalho sobre a IURD, em primeiro lugar, foi de não ter uma perspectiva de crítica ou de julgamento, mas de compreensão do fenômeno - o que tem sido diferente até então da maioria dos trabalhos realizados. Segundo, e talvez mais importante, a utilização interdisciplinar das ferramentas da Antropologia para uma tentativa de compreensão do universo simbólico da IURD e de seus membros e as ferramentas da Psicologia Junguiana para tentar compreender as experiências subjetivas dos membros dentro deste universo simbólico. Outro aspecto que de certa forma me levou a isso, foi que a literatura sobre o neopentecostalismo brasileiro tem sido privilegiada pelos antropólogos. Assim, a Antropologia acabou sendo minha interlocutora privilegiada. O resultado deste diálogo me pareceu interessante e bastante rico.
 
Comunidade Virtual - Como foi o trabalho de campo? Houve muitas dificuldades?

Bonfatti - Entrevistas, observações participantes, participações em rituais (fui até exorcizado um dia...), gravações de dezenas de horas dos programas televisivos, visitas a casa de membros e ser visitado pelos mesmos. Não tive grandes dificuldades e sempre fui bem recebido. Tentei não ter uma postura "invasora", nunca filmei, gravei ou anotei nada dentro dos rituais da IURD, pois acho isso um tanto agressivo. Sempre me apresentei como um interessado em conhecer a igreja, suas curas e exorcismos e nunca fui mal recebido. Ao contrário, quando me apresentava como psicólogo que estaria pesquisando os fenômenos de cura na IURD, achavam interessante que um "doutor de cabeça" confirmasse as mudanças que lá estavam acontecendo com as pessoas. 

Comunidade Virtual - Como se interligam "conversão", "exorcismo" e "cura" dentro da IURD?

Bonfatti - É difícil falar disso de uma forma sintética! A experiência religiosa é uma experiência de totalidade. Na IURD, estes elementos de exorcismo, conversão e cura aparecem, na minha concepção, de forma unitária. Assim, eu sugeri o conceito de tríade destes três elementos. Cada um deles está ligado ao outro: para se "curar" há de se "exorcizar" o demônio que causa todos os males. Para se exorcizar, tem que se entregar a Jesus, que é "converter"... Todavia, os conceitos são utilizados por mim com uma maior flexibilidade. Na conversão, por exemplo, percebemos a existência da presença tranqüila de uma população flutuante nesta igreja. Até mesmo os não-flutuantes vivenciam uma inserção que não implica sempre numa experiência radical, já que a entrada na IURD é feita sem grandes traumas ou passagens simbólicas. Isso devido ao fato da IURD se articular o tempo todo sob o viés do sincretismo religioso brasileiro. Os exorcismos também nem sempre são aqueles clássicos de incorporações (não são todos que possuem características psicológicas para tal). São feitos no dia-a-dia através de diversos rituais diretos ou indiretos e através de artifícios simbólicos utilizados pela IURD. As curas também são amplas, já que o conceito de doença, causada sempre pelo demônio, também é amplo: a cura da dor de cabeça, da falta de emprego, da dificuldade de relacionamento do casal, do filho "problemático", da falta de dinheiro enfim, o demônio está em tudo. Os discursos encontrados na IURD nos sugerem esta totalidade da tríade sempre presente, nutrindo, norteando e construindo sentido para as experiências de seus membros.

Comunidade Virtual - Como você encara a "explosão" do Neopentecostalismo e a expansão da IURD no Brasil?

Tem sido comum na humanidade um "boom" religioso nas grandes passagens cronológicas como esta mudança de milênio. O fenômeno do surgimento de denominações de característica neopentecostal não é somente um aspecto exclusivamente brasileiro e esta "explosão" já vem fazendo parte do panorama religioso brasileiro há muito tempo. O que estamos nos dando conta agora é a explicitação mais acentuada do fato. Há uma quebra da hegemonia católica no campo religioso brasileiro e a inauguração, ou reinauguração, de novas expressões religiosas. O que nos sugere que o sagrado nunca foi embora e que sempre fará parte da construção de sentido do ser humano, mas vem se manifestando de formas distintas. Parece, com isso, que as formas de expressão religiosa já existentes não estão sendo mais satisfatórias para uma massa de fiéis desejosa de um novo sentido existencial. 


Maiores informações podem ser encontradas na homepage de Paulo Bonfatti: http://www.artnet.com.br/~bonfatti. Nela, o internauta tem acesso à resenha do livro em português, inglês, espanhol e alemão,  além de um artigo sobre a IURD publicado por Bonfatti. Vale conhecer!


Topo