Coluna (Edição nº 8)

 "Comentário sobre a IV Reunião de Antropologia do Mercosul"
, por Isabel Travancas (*)


Aconteceu em Curitiba, de 11 a 14 de novembro, na Universidade Federal do Paraná, a IV Reunião de Antropologia do Mercosul. Apesar da greve das universidades federais, o encontro reuniu antropólogos de diversas regiões do Brasil e colegas da Argentina, Uruguai, Cuba e França.

O coquetel de abertura no Hotel Mabu no dia 11, além de agradável, propiciou o contato entre pesquisadores de diversas áreas. Os três dias seguintes foram intensos, com os simpósios com suas mesas redondas concentrando-se na parte da manhã, e na parte da tarde, os fóruns de pesquisa. No total foram 26 fóruns e nove simpósios. Além de duas conferências “noturnas”. Em sua apresentação o Prof. Dr. Otávio Velho falou sobre os “Dilemas do trabalho de campo”, discorrendo com elegância e humor sobre as particularidades do método antropológico. Velho chamou a atenção para o fato de que a noção de trabalho de campo está se alargando com as inúmeras possibilidades da atualidade, que incluem a pesquisa em arquivos e na e sobre a Internet. A seu ver, o trabalho de campo tem muitas dimensões além da intelectual e é preciso tomar cuidado para não reificá-lo. O professor do Museu Nacional ressaltou também que a etnografia não se reduz à coleta de dados e a especificidade do ofício do antropólogo pode ser definida por uma postura epistemológica, por modos de ser no mundo. Concluiu afirmando que a antropologia é uma vocação extremamente exigente e muito estimulante, mas que envolve riscos.

Minha participação na RAM foi apresentar a comunicação “Em defesa do livro – intelectuais e imprensa nos anos 90” no Simpósio Literatura e Antropologia que reuniu duas antropólogas e duas professoras de Literatura Comparada. A questão presente nos quatro trabalhos foi a relação entre estas duas áreas e as possibilidades de trocas efetivas. Heloísa Toller (UERJ) refletiu sobre a relação entre estes dois campos, perguntando-se sobre a especificidade da literatura. Para isso lançou mão da teoria de W. Iser sobre o caráter ficcional do texto literário. Regina Przybycien (UFPR) em “Zonas de contato ou de conflito? A literatura e a antropologia em tempos de estudos culturais” também abordou a proximidade da Literatura com a Antropologia, destacando a obra da poeta Elizabeth Bishop e sua leitura do Brasil. Apresentei algumas discussões em torno de minha tese de doutorado sobre os suplementos literários dos jornais franceses e brasileiros nos anos 90. Afirmei que eles podem ser interpretados, juntamente com o depoimento dos intelectuais que entrevistei, como um discurso em defesa do livro. A antropóloga Selma Baptista(UFPR) falou em sua comunicação ”O socialismo mágico de José Maria Arguedas e Rodrigo Montoya” sobre a obra dos escritores e antropólogos peruanos José Maria Arguedas e Rodrigo Montoya que transitam nestes dois mundos em seu texto.

Participei como ouvinte também de alguns fóruns. Um deles Cultura escrita e práticas de leitura reuniu alguns trabalhos muito interessantes sobre o tema. Foram estes os que pude assistir: “Los lectores argentinos y brasileiros de Paulo Coelho” pesquisa desenvolvida em feiras e bienais nos dois países pelo antropólogo argentino Pablo Seman; “Doidos mansos, boas famílias e eruditos: um diálogo possível entre teóricos da prática e escritores locais do noroeste de Minas” da mestranda da UNB, Andréa Borghi Jacinto que analisou três livros de escritores da cidades de Unaí, Buritis e São Francisco e o artigo da professora Gerusa Coutinho da Universidade de Salta, “Imprensa e imaginário social: estudo de uma comunidade de leitores em Salta- Argentina”, que tratou da comunidade de leitores a partir de periódicos locais da Segunda metade do século XIX.

Além de outras conferências e espetáculos culturais, a RAM deu a possibilidade aos seus participantes de desfrutar da paisagem urbana de Curitiba, com seus inúmeros parques e belo centro histórico. Diferente da última Reunião da RAM em Posadas, Argentina, o encontro deste ano demonstrou que houve um crescimento no número de participantes e a consolidação do evento no calendário acadêmico brasileiro. A próxima reunião será em 2003 em Florianópolis, Santa Catarina. Até lá!  


(*) Isabel Travancas é jornalista, formada pela PUC-RJ, tendo trabalhado vários anos como jornalista e assessora de imprensa. É mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional-UFRJ. Doutorou-se em Literatura Comparada pela UERJ. Lecionou nos cursos de Comunicação da PUC-RJ e UERJ. Atualmente é professora da Faculdade de Comunicação da Estácio de Sá e do Departamento de Antropologia Cultural do IFCS da UFRJ,

Colaboradora da Comunidade Virtual de Antropologia, Isabel já publicou dois artigos neste site: "Comunicação de Massa e Diversidade Cultural" e "A coluna de Ibrahim Sued – um gênero jornalístico".

 

 

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