Coluna (Edição >> jun - jul 2001)
"Por uma Poética do Sincretismo Tropical", por Léa Freitas Perez (*) 

Este texto é o produto de um desejo de olhar diferentemente o Brasil, de ver o país de uma maneira que é, evidentemente, uma interpretação, mas uma interpretação que se pretende aberta, que ambiciona escapar das soluções preguiçosas e ultrapassar a abordagem moderna e nostálgica de que o país tem sido objeto, instaurando em seu lugar um saber alegre e generoso. Trata-se de realizar um exercício de reflexão e uma tomada de posição no que diz respeito às relações da sociedade brasileira com a modernidade e, mais particularmente, de fazer uma crítica a uma certa concepção do Brasil para a qual, em nosso país, a modernidade é um projeto inacabado. 

Segundo o mito da modernidade inacabada, o Brasil seria ainda incompleto, devendo se «modernizar» para «conquistar seu lugar no concerto das nações desenvolvidas». É o que a doxa corrente costuma chamar de «dilemas brasileiros». O país seria ainda uma potencialidade - «o gigante adormecido», «o país do futuro» - e não uma realidade acabada. Um «país dual» formado por contrastes e por contradições. Os «dois Brasis», eterna e irremediavelmente divorciados, de costas um para o outro. Uma «sociedade a duas velocidades», cindida entre o moderno e o tradicional, entre a ordem e a desordem. Esta maneira de ver o Brasil se articula em torno de uma lógica da falta e opera a partir de oposições binárias, sobretudo com as oposições tradicional-moderno e centro-periferia. O centro - o moderno - é a vanguarda. Lá, tudo é criado - de forma original - por isso o seu poder de tudo comandar. A periferia - o tradicional - não passa de uma retaguarda. Aqui, tudo é cópia e, em sendo cópia, é sem originalidade. A modernização, isto é, o crescimento econômico segundo os padrões do centro, é o único caminho para a periferia sair da marginalidade e da dependência. O ponto focal da mudança é a industrialização que, bem implantada, agiria no conjunto da sociedade subdesenvolvida de maneira a aproximá-la das sociedades desenvolvidas, segundo uma visão messiânica do poder da economia para resolver todos os problemas e uma lógica claramente evolucionista: os mesmos processos levariam ao mesmo fim. De fato, o que existe nesta concepção do Brasil e de seus dilemas de país dividido é uma forma de tradicionalização do moderno. Vivemos uma sorte de nostalgia do que jamais existiu, segundo um raciocínio do tipo «se tivesse sido diferente» e criando uma confusão entre reformismo, desenvolvimento sócio-econômico e modernidade. 

Quando o Brasil se coloca a questão da modernidade, ele o faz não por causa de uma falta de modernidade, justamente ao contrário, ele se coloca a questão por causa de uma crise de modernidade, de uma percepção dos limites de realização do projeto moderno. O mito da modernidade inacabada é, antes de tudo, uma prova de que no país as idéias estavam em seu lugar, que o princípio da crise enquanto valor moderno já existia. Desde o fim do século XVII se fala em crise no Brasil e na necessidade de modernização, isto é, de reformas. Esta discussão, que adquire a partir dos anos 1850 o foro de questão central em toda e qualquer abordagem sobre o Brasil, é contemporânea da aparição da palavra modernidade, que data do mesmo período. É exatamente nesta época que a sociedade moderna se pensa a si mesma enquanto tal. 

O problema que se coloca, e ele se coloca para os românticos da modernidade redentora, é que no movimento histórico brasileiro não houve a ruptura mítica que a modernidade supõe. Aqui, uma dinâmica da mestiçagem tomou o lugar da dialética da ruptura. O Brasil se organizou socialmente não a partir de uma lógica de exclusão e de contradição, mas segundo uma lógica da relatividade e da inclusão, que não exclui o conflito, mas o incorpora como um dado de base. Uma forma de harmonia conflitual, cujo resultado é uma sociedade singular, que combina contrastes e antagonismos os mais variados, irredutível a uma abordagem rígida. Com seu sistema híbrido de composição, feito de complementaridades e de conflitos, o Brasil é um problema para a lógica cartesiana. Na nossa lógica social, o princípio em vigor não é do tipo ou ... ou, ao contrário, trata-se, todo o tempo, de reunir, de re-ligar. É um princípio de tipo e ... e. O princípio de organização social que prevalece em nossa sociedade, queiramos ou não admiti-lo, é o da plasticidade e do movimento. A marca das relações sociais à brasileira é o afetivo, que, não importa qual seja sua manifestação, é levado a extremos: a sensualidade altamente desenvolvida, o exotismo do gosto, o exagero dos gestos e das falas, a religiosidade carnal, profana, o apelo constante à intimidade e a cumplicidade, etc. Um organismo social de abundância, de sedução, o que, no entanto, não quer dizer igualdade e harmonia idílicas. Uma sociedade toda feita de curvas, de viravoltas em todos os sentidos; jamais linear, jamais igual a si mesma. 

Uma tal sociedade não pode ser apreciada sem que se leve em consideração seu incessante movimento, sua incompatibilidade com soluções definitivas, sua composição mole, plástica, ondulante, sua estrutura sincrética e carnavalesca. A realidade brasileira não pode ser analisada através de conceitos rígidos. Como percebeu a fina sensibilidade de Roger Bastide para entender este país complexo e intrincado é preciso «descobrir noções que sejam de algum modo líquidas, capazes de descrever os fenômenos de fusão, de ebulição, de interpenetração, que se moldariam numa realidade viva, em perpétua transformação» . Seguindo a inspiração de Bastide, proponho que paremos de procurar a Revolução que não existe, a Grande Transformação que não tem sentido, que nos moldemos em poetas para tornar este país imaginável. Assim o fazendo, podemos escapar da armadilha dos «utópicos nostálgicos dilacerados pelo ideal, mas no fundo repugnando sua realização». Honni soit qui mal y pense!


(*) Léa Freitas Perez é professora do Departamento de Sociologia e Antropologia da FAFICH - UFMG.

 

 

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