Coluna (Edição nº 45)

"Notícias do Vídeo Índio Brasil"

Aconteceu em Mato Grosso do Sul, de 23 a 29 de junho, a Mostra Vídeo Índio Brasil. Fui convidada a participar e sabia que iria encontrar novidades para exibir na Programação da 13ª Mostra Internacional do Filme Etnográfico, da qual sou a curadora, aqui no Rio. A Mostra reuniria diversos filmes sobre povos indígenas incluindo também a produção de cineastas indígenas. Mas o evento a que presenciei foi muito mais que isso. Tendo como principal espaço de exibição um cinema cultural de Campo Grande, o Cine Cultura, a Mostra se desdobrou para outros pontos na periferia da cidade e do interior: realizou-se em três aldeias urbanas, em dois espaços denominados Casa Brasil também na periferia de Campo Grande assim como nas cidades de Dourados e Corumbá. Foi um sucesso!

A princípio, nada me parecia tão diferente das expectativas, acostumada como estou a freqüentar algumas mostras e festivais. Uma mostra de filmes sobre índios, um bonito cartaz com rostos indígenas, seminários e debates programados paralelo ao filmes e uma oficina de formação audiovisual.

Aos poucos fui me surpreendendo com o distintivo do evento: a significativa e maciça presença de povos indígenas. Numa sala de cinema, com aproximadamente 100 lugares, 80 lugares estavam sempre ocupados por representantes de diversas etnias locais: Terena, kadiweu, Guarani Kaiowá, além de parentes mais distantes, como os bororo, e os Xavante, do Mato Grosso. Na maioria jovens, além de algumas lideranças e várias crianças, sempre.

Nas diversas falas, debates e encontros realizados, a tônica era a mesma: a importância e a representatividade do encontro num estado considerado o segundo maior estado do Brasil em termos de população indígena e, ao mesmo tempo, a constatação da falta de um espaço para reflexão sobre suas questões no contexto local. Desde os anos 80 não se fazia qualquer evento de maior peso para pensar as questões indígenas em Campo Grande, diziam os presentes.

Depoimentos pessoais muito enfáticos apontavam para esse problema. Por um lado, diversos representantes indígenas locais, tanto das aldeias urbanas como de aldeias do interior. Professores indígenas, expressivas lideranças indígenas nacionais presentes, como Marcos Terena, Daniel Munduruku e Fernanda Kaingáng e, por outro, pesquisadores e cineastas, como por exemplo, a antropóloga Dulce Ribas (UFMS) que mediou uma mesa ou o cineasta Joel Pizzini, nascido no estado e diretor do recém lançado filme “500 Almas”, sobre os índios Guatós.

O encontro foi marcado por seis mesas redondas temáticas, pela manhã, ocupando toda a semana e exibição de filmes em duas sessões, à noite, na sala de Campo Grande, além de outras itinerâncias. A primeira sessão tinha sempre um debate com os realizadores após o filme, seguida do último filme na sessão das 20 horas. Sempre sala cheia!

Atividades paralelas aconteceram durante o evento. E aí, outra surpresa! A oficina de vídeo oferecida na Mostra destinava-se a jovens indígenas e seria ministrada por dois jovens realizadores indígenas Divino Tserewahú (Xavante) e Paulinho Kadojeba (Bororo), com a participação de dois professores colaboradores: Sérgio Sato, fotógrafo e membro da equipe do Museu das Culturas Dom Bosco ligado a Universidade Católica Dom Bosco (dos Salesianos), onde se realizou a Oficina, e o prof. Helio Godoy, do Departamento de Artes da Universidade Federal (MS). A parte prática da Oficina foi totalmente orientada pelos realizadores indígenas e, ao final de 4 dias, finalizaram um vídeo de 8 minutos sobre a experiência. Um sucesso total com os 25 alunos inscritos!

Impressionou-me muita coisa nesse encontro. Vivi a experiência de conhecer de perto um Brasil que desconhecemos e precisamos conhecer. O Brasil dos povos indígenas. Quem é a população indígena do Brasil? Quantas línguas falam? Onde estão localizados? Quais são as principais questões? Porque vivemos tão afastados, nos grandes centros urbanos, dessa realidade?

A advogada indígena Lúcia Fernanda Jófej Kaingáng nos apresentou uma coleção de livros, recém lançada pelo MEC, com a participação do LACED, do Museu Nacional, que pretende dar conta das principais questões que temos sobre o tema. É ótimo conteúdo para as novas exigências do MEC de conteúdo indígena nos curriculuns escolares. Ela e Daniel Munduruku representam o INBRAPI, o Instituto Brasileiro de Propriedade Intelectual Indígena, com sede em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Muitas publicações, incluindo literatura infantil indígena, fazem parte de sua bibliografia. Foi um sucesso a participação de ambos.

Importantes filmes foram exibidos nessa Mostra, dando relevo as diversas questões tratadas: Estratégia Xavante, de Belisário Franca, mostra histórias de sucesso na convivência entre índios e não índios. Um ótimo filme com material histórico maravilhoso. Serras da desordem, de Andréa Tonacci, outro grande documentário premiado, que conta a saga do índio Carapirú que fica vagando durante anos, tendo perdido sua família massacrada no processo de ocupação nas serras do Brasil Central.

O filme do realizador indígena Paulo Kadojeba que, sentindo-se injustiçado com uma matéria feita pelo Fantástico, da Rede Globo, em sua aldeia (teriam transgredido rituais privados, tornando-os públicos )- investiu na realização de seu próprio filme, descrevendo o ritual a seu modo: Boe Erro Kurireu. Divino Tserewahu, que já tem vários filmes em seu curriculum – é um dos representantes das primeiras turmas de realizadores indígenas formados pelo famoso projeto Video nas Aldeias, de capacitação das populações indígenas para o audiovisual. Nos apresentou Wai’a Rini, o poder do sonho, vídeo que ganhou prêmio na Mostra Internacional do Filme Etnográfico de 2001. O também premiado Pirinop: meu primeiro contato, de Mari Corrêa e Karané Ikpeng (Vídeo nas Aldeias), também foi exibido, assim como alguns clássicos relembrados: Avaeté, a semente de vingança, de Zelito Viana; Uirá, um índio em busca de Deus, de Gustavo Dahl e Mato Eles?, de Sérgio Bianchi. Ao todo 28 filmes.

A presença de Vincent Carelli, idealizador e um dos diretores da ONG Vídeo nas Aldeias, de Olinda (PE), que vem há 21 anos atuando junto às populações indígenas no Brasil, capacitando-as para a realização de projetos audiovisuais, foi destacada no evento, fazendo justiça a esse seu trabalho maravilhoso e de enorme abrangência. Não só Tserewahu fazia constantes menções a importância do Vídeo nas Aldeias na sua formação e a orientação permanente de Vincent Carelli a seus projetos, como inúmeras referências positivas foram feitas pelos presentes: o próprio Museu Dom Bosco, ao criar seu Programa de Audiovisual Indígena não nega ter-se inspirado no projeto Video nas Aldeias. Uma segunda geração de realizadores indígenas vem aí.

Durante a Mostra, o Vídeo nas Aldeias apresentou-se, Vincent falou de sua trajetória, os novos projetos e divulgou três séries de vídeos que estão disponibilizando para distribuição. Cineastas Indígenas: Kuikuro; Cineastas Indígenas: Panará, Cineastas Indígenas: Hunikui. (Foram encaminhados para distribuição gratuita para escolas indígenas via MEC). Fazem parte de um projeto maior, englobando outras três etnias: Ikpeng, Ashaninka e Xavante. Os vídeos tem legendas em cinco línguas, incluem dois curta-metragens extras contextualizando os povos. Acompanha um cadernos bilíngüe ilustrado com fotos e diversas informações.Um bonito trabalho que pode ser melhor conhecido em www.videonasladeias.org.br.

Fomos visitar as aldeias urbanas: casas populares para indígenas desaldeados, que se organizam em condomínios na periferia de Campo Grande. São três existentes na cidade. A Aldeia Água Bonita reúne 40 casas, com 4 etnias (cada casa tem um grafismo pintado na fachada) e uma casa redonda central, que funciona como um centro cultural. Foi conquista da conhecida líder indígena Marta Guarany, em anos recentes, que se desdobrou em outros dois projetos bancados pelo governo local.

No momento de nossa visita passava o filme IX Jogos dos Povos Indígenas, de Ronaldo Duque, um documentário que descreve didaticamente a realização dos jogos indígenas que aconteceram em Recife e Olinda, no ano de 2007. Um evento que, aparentemente, pouco espaço ganhou na mídia nacional à época, apesar de ter reunido mais de 1050 atletas, representando 40 etnias diferentes brasileiras. Um grupo grande de moradores, de várias gerações, acompanhava, muito interessado, as projeções e o debate, a seguir, com o diretor.

Assim como essa exibição, a Mostra desdobrou-se nas cidades do interior (Corumbá e Dourados), também com a presença de alguns realizadores em sessões com debates.

É importante destacar a participação da cineasta Aymara Maria Morales, da Bolívia, no evento. Sua presença com longas tranças, o chapéu côco tradicional e a indumentária campesina boliviana chamava a atenção por onde passava. Seu filme Venciendo el Miedo é uma ficção encenada com atores naturais locais. A diretora, em seu comentário após o filme justificou sua realização, como uma militância política, tratando dos assuntos: mulheres, saúde, educação e terra. Trata-se de um bonito trabalho, com roteiro seu e participação da equipe de Yvan Sanjines, filho do famoso cineasta boliviano Jorge Sanginez.

Quero parabenizar a equipe da Mostra Vídeo Brasil pela realização desse evento. Importantes encontros aconteceram. Importantes articulações envolvendo as questões indígenas e o audiovisual também foram encaminhadas. Certamente novidades virão por aí. Há jovens realizadores indígenas em formação. A proposta, como dizia Vincent, deve ser na excelência dos novos projetos. Acredito que os diversos envolvidos nessa Mostra possam se sentir, de alguma forma, contribuindo para o seu sucesso. A Secretaria de Identidade e Diversidade Cultural do MINC, a FUNAI e os demais parceiros tiveram a sensibilidade para apoiar a iniciativa que, nas pessoas da Luana Salomão e do Belchior Cabral, lideraram essa Mostra (ver www.cinecultura.com.br.)

Que ela tenha vida longa!

Rio, 03 de julho de 2008

Patrícia Monte-Mór


Texto originalmente publicado em:
http://www.overmundo.com.br/overblog/noticias-do-video-indio-brasil, sendo cedido à CVA pela autora.


(*) Patricia Monte-Mor Alves de Morais possui mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1984), quando estudou os rituais das Folias de Reis no universo da cultura popular do Rio de Janeiro. Atualmente é professora assistente no Departamento de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde coordena a Oficina de Ensino e Pesquisa em Ciências Sociais e o Núcleo de Antropologia e Imagem NAI. É editora da revista Cadernos de Antropologia e Imagem. Como produtora cultural é diretora da Interior Produções, sendo coordenadora e curadora do festival de cinema documentário Mostra Internacional do Filme Etnográfico, que realiza no Rio de Janeiro, anualmente desde 1993, além de organizadora do Fórum de Cinema e Antropologia, com seminários, debates e workshops anuais, no mesmo evento. Como antropóloga, participou de diversas pesquisas na área da religiosidade popular desde os anos 80, quando desenvolveu seu interesse pelo diálogo da antropologia com a imagem - área de estudos a que vem se dedicando nos últimos anos. Coordena, através do NAI, na UERJ, diversos projetos de ensino, pesquisa e extensão no âmbito da Antropologia Visual. Organiza, desde 1999, o Atelier Livre de Cinema e Antropologia, um curso de formação voltado para o uso da imagem nas ciências sociais, com a 5a edição em 2007. Fez parte da criação do Prêmio Pierre Verger de Vídeo Etnográfico, da ABA, estando em sua coordenação nos primeiros três anos, a partir de 1996.Tem atuado junto a diversos festivais dedicados ao filme documentário, com ênfase na produção etnográfica, nos últimos anos, no Brasil e no exterior.

Atualizado em 01/09/08 
 

 

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