Coluna (Edição nº 40)

"Tropas sem crise: Considerações sobre o filme 'Tropa de Elite'", por Maíra Marchi Gomes (*)

Uma discussão a respeito do filme “Tropa de elite” imprescinde de considerações sobre a significativa repercussão que encontrou em nosso país. Especificamente, no que tange aos questionamentos sobre a veracidade ou não das situações ali apresentadas.

Poder-se-ia, a este respeito, dizer que é indiferente se a semelhança com a realidade é mera coincidência ou não. Ou, de outra forma, que se deve atentar para a narrativa das personagens, compreendendo-se, para tanto, que a realidade só pode ser analisada por meio da narrativa de uma vivência particular. Em outros termos, que a realidade des-singularizada é, antes disto, subjetiva. E, corroborando estas duas idéias, resgatar o fato de que o estilo de José Padilha caracteriza-se por construir uma ficção que pareça ser um documentário. Ou seja, uma fantasia com imagem de realidade.

Entretanto, esta linha de análise do filme parece pouco profícua para se pensar a imensa identificação do povo brasileiro com esta produção cinematográfica; particularmente, se considerarmos o multi-culturalismo de nosso povo e a quantidade de áreas da vida atingidas pelo filme (roupas eróticas, brinquedos, fantasias, música, lazer, etc.).

Uma possível orientação para se refletir sobre a repercussão de “Tropa de Elite” é a de que ele apresenta uma representação de “Polícia” condizente com a sociedade ocidental contemporânea. E, em particular, uma “Polícia” com um manejo particular de situações críticas.

A discussão sobre o conceito de crise, enquanto foco de análise desta Polícia produzida e produtora do ocidentalismo contemporâneo, parece ser convocada pelo percurso histórico da produção deste filme. Em particular, de sua aproximação do conceito estrito de “crise”[1] provindo do meio policial. Neste sentido, tem-se a dizer que o diretor interessou-se pelo cotidiano do trabalho policial enquanto dirigia “Ônibus 174”, documentário que retrata explicitamente de um Gerenciamento de Situações Críticas. E, também, que a personagem André foi construída baseando-se na experiência do Policial Militar que negociou com o “provocador do evento”[2] naquela ocasião.

Entende-se que o que “Tropa de Elite” diz da Polícia e povo brasileiros é a desconsideração do conceito de crise, tanto aquele excepcional quanto o inerente à profissão.

Sobre a desconsideração do conceito estrito de “crise”, tal desconsideração é significativamente evidente quando se aborda situações envolvendo reféns. Percebe-se que Grupos Táticos[3] são criados sem possuírem, ao seu lado, um Grupo de Negociação[4]. Ou, quando este Grupo existe, sua participação é inexpressiva[5].

Mais explícito desta desconsideração é o fato de grupos como o BOPE serem nominados pela sua intervenção em áreas de alto risco (uma de suas atribuições: a de operações especiais propriamente ditas) e não por, por exemplo, sua intervenção no resgate de reféns (outra de suas atribuições: a de operações táticas).

No caso da desconsideração pela Polícia do estatuto crítico inerente a sua profissão, menciona-se que Grupos Especiais tem tido como prática cotidiana não a intervenção em áreas de alto risco (sua principal atribuição), mas a execução de atividades que seriam, inicialmente, de responsabilidade e competência da Polícia “comum”.

Ao lado de discussões sobre a banalização da “crise” pelos Grupos Especiais, portanto, uma questão correlata seria a concepção da Polícia “comum” de que as situações críticas com as quais se confronta diariamente não podem ser integradas em sua prática rotineira[6]. Um dos efeitos disto seria demandar a um Grupo Especial a intervenção que seria de sua atribuição.

Assim, se os Grupos Especiais de Polícia parecem banalizar a “crise” propriamente dita, a Polícia “comum” parece rechaçar o estatuto crítico da atividade policial.

A ação policial nos casos de “crise” é prevista técnica e juridicamente. Logo, o impasse encontrado pela prática policial não parecer ser sua legitimidade (nem da prática cotidiana nem da excepcional), mas a dificuldade em articular os dois estatutos de “crise” encontrados na prática policial: a ordinária e a extraordinária. Ou a “crise” excepcional, em sentido estrito, é negada (já que não se orienta pelas normatizações específicas), ou a “crise” rotineira é rechaçada (ao delegar a um grupo policial e caráter “especial”, não “comum”, a intervenção junto a ela).

Pode-se compreender que os dois tipos de “crise”, se manejados das formas acima descritas, serão banalizados pela Polícia. E, por efeito, a Polícia não terá uma intervenção eficaz e eficiente em termos de preservação da Segurança Pública, tanto na ação cotidiana quanto na ação extraordinária[7].

Uma alternativa a Polícia seria tomar a “crise”, seja ela qual for, enquanto fenômeno liminar.

Para TURNER (apud DAWSEY, 2005), as sociedades desenvolvem mecanismos de interrupção do fluxo da cotidianidade, sendo um deles a rebelião. O caos, sendo uma expressão, reorganizaria os universos sociais e simbólicos. Pode-se até falar que organizaria, já que para o autor é a extraordinariedade que melhor revela a estrutura. Assim, manifestações que aparentemente contrapõem-se à estrutura social seriam aquelas que melhor demonstrariam as relações sociais.

As experiências demarcadas em tempos e espaços liminares podem ser inclusive, em alguns casos, fundantes. Isto porque dramas sociais dão acesso a experiências fundamentais, que até então eram impossibilitadas de serem expressas, permitindo, portanto, um contato mais amplo com o universo social e com a natureza das relações que o compõem. A anti-estrutura abala as classificações comumente utilizadas para se caracterizar os papéis daqueles que se encontram em relação. Ela permite um trânsito entre os possíveis posicionamentos perante o outro, porque questiona as contraposições.

TURNER (apud DAWSEY, 2005) distingue, sobre a liminaridade, fenômenos liminares de liminóides. Estes seriam mais característicos de sociedades cuja solidariedade é própria dos efeitos da Revolução Industrial. Apresentar-se-iam, comumente, como produções individuais em relações entre aqueles que disputam bens simbólicos. Estas produções podem até afetar a coletividade, mas seriam manifestações simbólicas dissociadas dos processos centrais de economia e política, apresentando como dimensão mais proeminente a psicológica/pessoal. Via de regra criticam o status social vigente, possuindo uma conotação revolucionária.

Por sua vez, os fenômenos liminares emergiriam de uma experiência coletiva, sendo associados por exemplo a ritmos sócio-estruturais ou, precisamente, a “crises” (DAWSEY, 2005, p.168). Eles compõem o processo social, mas constituem seu pólo negativo. A estrutura seria constituída dialeticamente e tendo no fenômeno liminar um de seus suportes.

Ainda que TURNER (apud DAWSEY, 2005) pareça compreender que um fenômeno é, em si, de natureza liminar ou liminóide, pode-se indagar se um fenômeno não alcançaria os efeitos de um fenômeno liminóide ou liminar de acordo com a função a ele delegada pela estrutura social.

Pode-se pensar, neste sentido, que a “crise” (tanto em sentido amplo quanto em sentido estrito), caso entendida pela Polícia como fenômeno liminar, traria um questionamento da postura tipicamente repressiva assumida pela Polícia perante aquele que comete um ato ilícito.

Pertinente é, ainda, compreender que este questionamento não precisaria e nem deveria ser rechaçado. Isto porque, segundo TURNER (apud DAWSEY, 2005), mesmo quando produzem inversões, os fenômenos liminares revitalizam as estruturas sociais já vigentes, sendo ao mesmo tempo o ápice e o fim de ruídos, tensões e abalos nos sistemas.

Pode-se concluir, por fim, que “Tropa de Elite” pode ser lido primordialmente por meio de sua maciça recepção; em outras palavras, pela sua efetividade em tocar afetiva e cognitivamente os brasileiros. Isto porque esta recepção diz que a Polícia (agora, a real) não tem reconhecido a “crise”, tanto a cotidiana como a excepcional, enquanto fenômeno liminar, mas apenas como fenômeno liminóide. Por conta disto, a violência expressa pelo autor de um crime não encontra um lugar social. Não pode, então, ser integrada em um universo social, sendo delegada a uma conotação revolucionária. Aí sim, não há perspectiva de integração entre aquele que comete um ato criminoso e a Polícia, restando ao último manter-se em seu ato disruptivo.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ACADEMIA NACIONAL DE POLÍCIA. Manual de Gerenciamento de Crises. Brasília, 1991. 77 p.
DAWSEY, John C. Victor Turner e antropologia da experiência. In: Cadernos de campo, n.13, p.163-176, 2005.
THOMÉ, Ricardo Lemos. A solução policial e gerenciada das situações críticas. Florianópolis: (S. ed.), 1998. 180 p.


[1] As características da “crise” propriamente dita, segundo a ACADEMIA NACIONAL DE POLÍCIA (1991): imprevisibilidade, urgência, extraordinaridade do aparato e resposta policial, risco de vida e fundamentos legais particulares. THOMÉ (1998) compreende o seqüestro e o assalto com tomada de reféns como os mais ilustrativos.

[2] Terminologia utilizada para se referir ao autor do crime envolvido na crise.

[3] Grupos cuja principal atribuição é o resgate de reféns.

[4] Que seria o responsável por executar a primeira opção de resposta policial a situações de tomada de refém - a Negociação – e permitiria que o Grupo Tático fosse acionado apenas em ocasiões para as quais é treinado – quando há indicação técnica e previsão legal para a Polícia matar o “tomador de refém”-.

[5] Pode-se ler desta forma a inexistência no filme em questão de alguma cena em que o BOPE-RJ negocia (ainda que este grupo seja composto por alguns homens preparados especialmente para tanto) ou resgata reféns (atividade para a qual, a foi criado).

[6] Neste sentido, o filme é exemplar. Por exemplo, ao apresentar a Polícia Militar apenas em cenas de caráter tedioso, repudiante ou cômico, e nunca imprevisto, louvável ou estressante.

[7] Assim, insígnia de “risco” passa a ser colada na identidade profissional ou buscado enquanto insígnia de identidade profissional, que o filme bem exemplifica com as personagens Nascimento e Neto, respectivamente.


(*) Maíra Marchi Gomes: Psicóloga Policial – Polícia Civil de Santa Catarina. Psicóloga (CRP 12/05448). Especialista em Saúde Mental, Psicopatologia e Psicanálise (PUC-PR). Especialista em Dependências Químicas (PUC-PR). Especialista em Direito Penal E Criminologia (UFPR). Especialista em Psicologia Jurídica (PUC-PR). Mestranda em Antropologia Social (UFSC). Professora da Academia da Polícia Civil de Santa Catarina.

Atualizado em 01/04/08
 

 

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