Coluna (Edição >> fev - mar 2001)
"O Mundo de Cabeça para Baixo: É Tempo de Carnaval, É Tempo de Brasil!", por Léa Freitas Perez (*)

Todo ano tem carnaval. Todo ano é a mesma coisa! As mesmas perguntas se colocam: por que num país tão cheio de misérias sociais como o Brasil, paramos durante três dias e colocamos o mundo de cabeça para baixo? Qual é o sentido de todas as famosas inversões, excessos e dispêndios carnavalescos? Como explicar a folia generalizada que toma conta do país, independente das vontades e desejos individuais? 

Todo ano é a mesma coisa! As mesmas respostas são dadas. Apologias ou condenações de toda ordem, as respostas não dão conta do que me parece ser fundamental: o fato de que no Brasil, o carnaval, é mais que a festa propriamente dita, ele corresponde a um princípio de organização social que caracteriza o mais profundo deste país. 

Entre nós, tudo começa e tudo termina pelo carnaval, o que vale dizer que nada começa verdadeiramente, tanto quanto nada tem fim. Nós vivemos sempre em trânsito, em movimento, na abundância, no excesso carnavalesco. Neste modo de viver e de perceber o mundo, a realidade não é negada, exatamente o contrário, ela é transfigurada e exacerbada por um realismo irônico que, afirmando-a, ri dela. Entre nós, as relações sociais são marcadas pelo afetivo, que, não importa qual seja sua manifestação, é levado a extremos: a sensualidade altamente desenvolvida, o exotismo do gosto, o exagero dos gestos e das falas, a religiosidade carnal, a aversão às distâncias rígidas, o apelo constante à intimidade, etc. Uma sociedade sinuosa mesmo na violência, onde a complacência e a perversão se misturam. Um organismo social de abundância, de sedução, o que, no entanto, não quer dizer igualdade e harmonia idílicas. Parcimônia e cálculo são estranhos ao Brasil. A sinuosidade das costas marítimas, as linhas serpentinas dos belos corpos bronzeados, desnudos, o perpétuo espetáculo da vida exposta permanentemente, quer no quotidiano, quer nas festas. Uma sociedade feita de curvas, de viravoltas em todos os sentidos, jamais linear, jamais igual a si mesma. É exatamente isso o exotismo tropical: a carnavalização e a mestiçagem enquanto princípio de organização social. Portanto, não é uma simples coincidência se definimos o Brasil e sua lógica social através do carnaval, o espaço por excelência do sincretismo e das trocas múltiplas, onde o princípio de identidade e de contradição são postos em causa, onde a noção de falta faz falta, onde o entrecruzamento dos extremos é a regra.

O povo na rua, a rua em festa: folia, orgia, fantasia, sedução, violência, transgressões de toda ordem, combinam-se a um clima geral de afetividade, de familiaridade, de encontro. Certo, a festa é transitória, efêmera, todavia, como diz tão bem Jean Duvignaud, ela "deixa sementes que, mais ou menos tardiamente, agitam os espíritos e perturbam a sonolência da vida comum"
(1) . E viva o carnaval! Fala Brasil! 

NOTA: (1) Fêtes et civilisations. 1984. Paris, Scarabée & Compagnie, p. 8.


(*) Léa Freitas Perez é professora do Departamento de Sociologia e Antropologia da FAFICH - UFMG.

 

 

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