Coluna (Edição nº 38)

"Arte nas bases da incerteza", por Bernardo Curvelano Freire (*)

Durante muito tempo a antropologia disciplinar, esta fundada no jogo de forças epistemológicas dos séculos XIX e XX, vem marcando diversos pólos de pesquisa. Alguns deles traçam uma dicotomia tão constante quanto discutível. Sem pensar sobre os dilemas da dualidade corpo-espírito, que vige em distinções como natureza/cultura ou infra-estrutura/superestrutura, a apropriação das diferenças culturais e sociológicas gerou um outro campo de forças que pode ser sintetizado na pergunta de Jean Copans: antropologia, ciência das sociedades primitivas?

Independente do estatuto pós-colonial da disciplina, especialmente na revisão da qualificação dos povos primitivos que não mais o são, algo novo desperta interesse. Ao menos o meu. Qualquer esforço etnográfico digno de nota, em especial no que tange ao campo ameríndio, melanésio, asiático, desde que praticado por parte de estrangeiros fora do ninho, partem de um problema importante que versa sobre o que haveria por lá. Quando praticada com alguma honestidade, a etnografia revela este aspecto inconstante entre os objetos de análise do etnógrafo e os objetos de análise do pesquisado. Pode-se procurar feiticeiros e acabar por falar de vacas numa relação de nuerose qualquer.

Esta incerteza angustiante, mas profícua, para o esforço etnográfico é anulada nas pesquisas de objetos familiares. Afinal, é claro que ao falarmos de casa sabemos do que estamos falando. É mesmo? Esta arrogância do familiar sequer dá conta, por exemplo, das variações pragmáticas da evocação do termo “casa”, que pode ser tanto uma circunscrição arquitetônica quanto uma cidade para a qual “se volta”. E esta acepção não é uma questão nacional, vale notar: volver a la casa, going back home...

Avançando no problema, chegamos ao contorno de um campo de pesquisa mais preciso, o da antropologia da arte – no meu caso, o teatro. Campo tão fértil quanto impreciso, tem nas pesquisas de Franz Boas, Raymond Firth, Carlo Severi, Michael Taussig e Alfred Gell a marca fundamental da descolonização do pensamento sobre o outro, e trabalhos mais recentes como os de Aristóteles Barcelos e Elsje Lagrou avançam neste sentido. Desfazendo a relação entre primitivismo e rusticidade, o cuidado em abordar as agências de confecção (Gell, 1994, 1998) e as máquinas de memória e captura (Severi, 2000 e Taussig, 1994, respectivamente), estas pesquisas têm sucesso ao aprofundar as investigações sobre a experiência sensível das diversas formas de vida dispostas à humanidade e outros seres antropomórficos. Mas diante este estado de coisas e do campo comparativo da maior parte destas assertivas sobre o que faz o ser humano ao desenhar, pintar e cantar, é a arte um conceito transcultural?

Esta pergunta traz consigo dois pressupostos importantes. O primeiro, diz respeito aos ex-primitivos. Dizê-los fazendo arte e imputar uma estética indígena traz consigo toda a carga semântica do esforço disciplinar moderno e burguês por via de uma teoria das sensações delineada pela fisiologia, pelo direito civil e pelas práticas de fruição, coisas que não são exatamente as formas de viver mais bem distribuídas do mundo. É a partir deste tipo de correlação, o da universalidade da arte, que Boas intui a gênese do estilo artístico de cada cultura a partir de uma espécie de spleen primitivo que é tão instigante quanto questionável.

O segundo pressuposto é o de que sabemos o que é arte diante a civilização Ocidental (esta que distribui à força a fisiologia, o direito civil e as práticas de fruição), considerando esta instituição um significante estável, e não uma palavra solta nas formas contingentes de fala. Este pressuposto não leva em consideração que há artes, inclusive aquelas não artísticas: fazer arte do arteiro, a arte de escapar e a arte da malandragem, todas constituintes inclusive do campo artístico das artes. A prova disso, num dos melhores documentos etnográficos fílmicos já feitos sobre o tema, está em F for fake de Orson Welles. Não sabemos o que queremos dizer com as palavras mais familiares que designam práticas ainda mais familiares exatamente porque não as deixamos seguir seu próprio caminho. Num etnocentrismo às avessas, partimos da certeza ontológica de quem somos, permitindo a transferência do determinismo teo-sociológico, antes voltado para os povos primitivos, para as práticas de familiaridade.

Partindo da premissa de que eu não sei exatamente o que é teatro, como um Evans-Pritchard não imaginava a centralidade das vacas entre os nueres, me dispus a pesquisar a variedade pragmática implicada nas diversas situações em que o teatro é evocado, seguindo algumas indicações das pesquisas de Raymond Williams (1966) e Elizabeth Burns (1973), mesmo que não me adequando exatamente à metodologia de nenhum dos dois. Pretendendo fazer uma pesquisa de campo voltado para os ensaios de uma peça teatral, me vi obrigado a explorar alguns outros condicionantes da possibilidade de haver o teatro disponível à assistência na cidade do Rio de Janeiro, um pouco na esteira da variação de sentidos da palavra que constituem a objetividade teatral. Assim, o teatro é tanto um endereço quanto uma peça, uma economia, um grupo, um exagero de expressão, uma tradição, uma terapia, uma ficção. A aplicação irrestrita do termo em todos estes níveis pragmáticos, sem qualquer policiamento mais ostensivo quanto ao uso do termo, me permite assumir que todos os usos estão certos, um pouco à maneira lévistraussiana de dizer que não há uma versão correta do mito. Imagino se não é possível partir da hipótese de que não há uma definição correta do objeto, tanto porque me impediria de abordar a agência do mesmo, assumindo aqui a possibilidade de definições infelizes, nos termos de Austin (1975:12-24). Não estou certo do significado da palavra teatro, dado que há vários, mesmo que, mais do que contraditórios, estão em contradição. Cabe à pesquisa descrever as práticas de dizer, saber e fazer o teatro que estejam diretamente em correspondência ao coletivo de pessoas com o qual pesquiso, sejam operários da construção civil ou atores formados, igualmente fazendo teatro, embora teatros desiguais. Não preciso dizer que, etnocentricamente, pesquiso com atores. Mesmo assim, tive que começar com a ordem dos endereços teatrais, seguindo a semiótica dos encontros possíveis próprios à vida urbana até o ponto em que me deparo com o esforço em possibilitar encontros do jogo cênico teatral por parte do grupo de teatro em questão. Chegar a um teatro é tão problemático quanto as outras seqüências de ação possíveis.


Bibliografia

AUSTIN, J. L. (1975) How to do thing with words, Cambridge, Harvard Univesity Press
BOAS, Franz (1955) Primitive Art, New York, Dover Publications
BURNS, Elizabeth (1973) Theatricality: a study of convention in the theatre and in social life, New York, Haper Torchbooks
FIRTH, Raymond (1967) Tikopia ritual and belief, Boston, Beacon Press
                          (1975) Symbols: public and private, London, George Allen and Unwin Ltd.
                         (1994) Art and anthropology in COOTHE & SHELTON (ed), Anthropology, art and aestheticas, Oxford, Clarendon Press
GELL, Alfred (1994) the technology of enchantment and the enchantment of technology in COOTHE & SHELTON (ed), Anthropology, art and aestheticas, Oxford, Clarendon Press
                      (1998) Art and agency, Oxford, Clarendon Press
SEVERI, Carlo (2000) Cosmologia, crise e paradoxo: da imagem de homens e mulheres brancos na tradição xamânica Kuna in Mana: estudos de antropologia social, Abril 6/1, Rio de Janeiro, Contracapa/PPGAS-Museu Nacional/UFRJ
TAUSSIG, Michael (1993) Mimesis and alterity: a particular history of the senses, New York/London, Routledge
WILLIAMS, Raymond (1966) Modern Tragedy, London, Chatto & Windus


(*) Bernardo Curvelano Freire: É mestrando do PPGSA/IFCS-UFRJ.
 

 

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