Coluna (Edição nº 36)

"Tópicos para uma etnografia dos sintéticos", por Marcio Felipe Salles Medeiros, Jonas Silva Schirmann e Guilherme José da Silva e Sá (*)

Num momento em que a antropologia volta-se para a observação dos diversos mecanismos de circulação e troca de bens materiais e simbólicos presentes nas sociedades ocidentais chamamos aqui a atenção para a existência de uma ampla rede sociotécnica envolvendo atores e seus interesses, agentes e reagentes, curas e males. Um circuito que congrega pesquisas que pressupõem a construção social de doenças em laboratório para o beneficiamento de novos fármacos, e que é habitado por cientistas, empresas e consumidores.

As relações sociais que unem aqueles que produzem conhecimentos sobre os medicamentos e o consumidor são mediadas por aquilo que genericamente denominamos indústria farmacêutica, e a tendência ao consumo de seus produtos, entendidos como materializações destas relações, deve-se a diversas razões, entre elas a doença, a “vontade de ficar melhor”, a “mania”, a “compulsão”, o “modismo”, etc. Pode-se dizer que um início para esta ampla rede situa-se, no caso brasileiro, dentro dos laboratórios de pesquisa experimental de nossas universidades. E é sobre a experiência etnográfica vivida em um destes laboratórios que vamos tratar neste texto.

Um laboratório é um espaço que transcende a visão simplista que o toma como um locus de produção de conhecimento isolado das tendências na política nacional ou alheio aos fatores subjetivos e valores particulares intrínsecos a cada indivíduo que por ali transita. É um mundo onde mundos são construídos.

Todavia, ainda hoje, adentrar neste mundo constitui um exercício de alteridade impactante e complicado em função da desconfiança dos “nativos”, pela dificuldade em compreender a linguagem ali falada, e pelas constantes indagações a respeito de qual o verdadeiro motivo da pesquisa antropológica e de sua validade. Nenhum destes desafios caracteriza-se por serem estruturalmente específicos e impostos pela pesquisa em laboratório, pois são situações presentes já nas etnografias clássicas. Provavelmente, o principal diferencial se dê nas relações de poder pré-estabelecidas na entrada em campo. Se durante um bom tempo para a antropologia pensava-se que os “nativos são outros” é possível reelaborar esta proposição para a posição dos naturalistas, onde “os objetos são os outros”. Temores relacionados à sua “objetivação” promovida pelos antropólogos são equivalentes à apreensão dos naturalistas em não subjetivar seus objetos. E, se falávamos anteriormente no laboratório como um mundo que constrói novos mundos poderíamos argumentar também que é o cenário da criação de um cosmos ordenado, que genericamente chamamos ciência. Não surpreende pensar que as relações aqui também restrinjam a construção das descobertas científicas, afinal a lógica nativa concebe que “cientistas somos nós” e “antropólogos são vocês”.

A rede, que transcende a extensão laboratorial, não se configura simplesmente em suas conexões entre pesquisadores, financiadores e consumidores, mas também nas articulações entre humanos e não-humanos. Em uma etnografia de um laboratório de farmacologia - como se pretende - é preciso considerar as relações estabelecidas entre os pesquisadores e os animais utilizados como cobaias para os experimentos (ratos e camundongos), as noções de aplicabilidade impositiva de sintomas reificados em agentes, bem como nas reações esperadas pelos reagentes. Trabalhar com estes coletivos implica em reconhecer a necessidade de pensar sobre temas relacionados à bioética, já que a utilização de organismos animais não-humanos nas experimentações é uma realidade até certo ponto incontornável, mesmo que obedeça a uma série de cuidados rituais no lido com estes. Outro ponto importante a ser destacado neste tipo de estudo trata da clássica relação entre natureza e cultura, que novamente é colocada em questão no sentido de não mais entendê-la como um par antagônico, mas sim como uma conjunção aproximativa. A natureza da doença é artificialmente introduzida em um organismo (não-humano) que “naturalmente” não a portaria, para imediatamente ser combatida por um paliativo medicinal construído artificialmente. Artificialmente também se formam os modelos associativos entre humanos e não-humanos, na medida em que cabe perguntar o que seria mais interessante: buscar comparações entre seres-humanos e cobaias que justifiquem introduzir sintomas de males de uns nos outros, ou perceber que a própria relação natureza-cultura é também sintetizada em laboratório?

Mesmo que o estudo em rede nos inspire visualizar um mecanismo organizado em círculo e que oriente suas ações, motivações e produtos de forma que se retroalimentem é importante delimitar um ponto fixo que norteie a pesquisa etnográfica. Em nosso caso, ao mesmo tempo em que aventamos diversas possibilidades futuras de desdobramentos para esta pesquisa, etnografando indústrias, práticas de consumo, e aprofundando-se nos hábitos e significados que os usuários experimentam ao associar-se aos fármacos, é preciso destacar que a incursão em um laboratório de pesquisa secreta uma gama de possibilidades para pensar antropologicamente os processos de criação de objetos, de transformação de substâncias e de metamorfose de sujeitos.


(*) Marcio Felipe Salles Medeiros (Graduando do curso de Ciências Sociais – UFSM)
Jonas Silva Schirmann (Graduando do curso de Ciências Sociais – UFSM)
Guilherme José da Silva e Sá (Professor do Departamento de Ciências Sociais – UFSM).
 

 

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