Coluna (Edição nº 34)

"Pares de gêmeos e alguma delimitação da noção de pessoa", por Ana Amália Alves da Silva (*)

Tomando como inspiração as idéias de Louis Dumont, autor que pensa a igualdade como um valor central no esquema de pensamento ocidental, avanço nesta coluna a hipótese de que a gemelaridade possa nos dizer algo sobre as representações que o Ocidente produz sobre alguns problemas antropológicos fundamentais, como as noções de reciprocidade, igualdade, hierarquia e identidade. A hipótese está ancorada em material etnográfico, um estudo em uma comunidade repleta de gêmeos, no qual buscamos entender em que termos se dá a construção da noção de ‘pessoa’ em uma cidade com essa característica peculiar.

A presença de muitos pares de gêmeos na cidade tornou essencial pensar a relação entre parentesco e individualismo. Se aceitamos o pressuposto de que a noção de igualdade é uma linha mestra da cultura Ocidental moderna, o índice de gemelaridade acima da média não traria alguma tensão em termos de valores? Poderíamos supor um problema de lógica para um pensamento baseado na idéia de igualdade. Se todo indivíduo ocidental, brasileiro ou não, está baseado na idéia de igualdade, pelo menos até um deles se tornar pessoa no caso brasileiro[1], o que se passa com aqueles indivíduos que são tidos como iguais no discurso comum, os gêmeos? Seriam eles mais iguais? O que eles podem representar para essa noção geral de individualismo?

A gemelaridade coloca em questão a idéia de limite entre duas pessoas, e logo, a construção social do indivíduo único. Se é comum fazer referência a gêmeos usando a denominação “iguais” ou “idênticos” (tanto no senso comum como nas referências científicas[2]), podemos chegar a algumas conclusões sobre quais seriam os atributos mínimos definidores da ‘pessoa’ ao conseguirmos entender de qual maneira esses mesmos dois indivíduos se diferenciam e/ou são diferenciados pela sociedade em geral que os engloba.

Por mais que haja uma vasta bibliografia antropológica que se refira a casos de gêmeos em diferentes comunidades, geralmente os vemos inseridos em discussões sobre natureza e sobrenatureza, o que não cabe exatamente aos propósitos desse trabalho. Assim, a pesquisa de campo foi muito reveladora.

Situada no estado do Rio Grande do Sul, o município de Cândido Godói se apresenta e é apresentado pela mídia como a “capital mundial dos gêmeos”, sendo o local do mundo onde mais existiriam famílias que têm alguma relação parental com os mesmos. A região, habitada em grande parte por descendentes de alemães, alemães russos e poloneses, foi estudada por etnografia durante um mês e meio, e acreditamos que chegamos a algumas possíveis conclusões – a visão da própria comunidade sobre as duplas de gêmeos (só há um caso de trigêmeas) é algo um tanto conclusivo.

A maioria da população, inclusive os outros pares de gêmeos, afirma não saber identificar cada um dos irmãos, e isso mesmo quando se trata de bivitelinos. Os que afirmam conseguir diferenciá-los são as pessoas de convívio mais íntimo, como os pais, os irmãos, os amigos mais próximos, algumas professoras etc. Isso nos leva a duas considerações: a primeira, que é uma visão um tanto quanto geral que aquelas pessoas que denominamos “irmãos gêmeos” são vistas como tendo um alto nível de igualdade, a ponto de ser quase que impossível, sem a convivência diária, de reconhecê-las; a segunda, que o reconhecimento de cada uma das pessoas da dupla dá-se mais por outros fatores do que por algum detalhe diferenciador físico.

As primeiras impressões que foram surgindo remetiam a distinção entre pessoas através dos seus gostos. Por exemplo: “um gosta da escola, enquanto o outro vai ficar na roça”. Afirmações desse tipo, que surgiam quando se questionava a respeito da individualidade de cada um do par de gêmeos conhecidos, foram freqüentes na maior parte da etnografia, fazendo mesmo crer que essa seria a conclusão final: os gostos individuais delimitariam a pessoa. Entretanto, com mais tempo e já quase no final da pesquisa, acabaram aparecendo casos de gêmeos que se consideram muito parecidos em termos de gostos e hábitos, senão mesmo exatamente iguais. O impasse surgido nessa etapa nos leva a indagações mais profundas, já que apesar de terem uma igualdade de gostos e hábitos (sem mencionar a igualdade física já atribuída), essas duplas não se consideram por isso como uma mesma pessoa, mas sim pessoas distintas.

É onde então aparece o conceito de personalidade como fundamental para a distinção entre duas (ou mais) pessoas. Frases como “cada um é um” e “cada um faz a sua própria personalidade” passaram a ser, então, muito freqüentes e reveladoras. Isso se torna um paradoxo se percebemos que, unida a essa pré-noção de igualdade, de um, indivisível, completo, idêntico, atribuída a uma dupla, também se espera que sejam dois indivíduos providos de suas diferentes personalidades.

Por mais que “façam” o mesmo, “pensem” o mesmo, “gostem” do mesmo, tenham as mesmas redes de relações sociais e parentais (até o momento do casamento), não se consideram como uma mesma pessoa; e a distinção não está no fato de serem dois corpos (o mesmo, à primeira vista), mas de serem/terem duas distintas personalidades. Assim, pelo conjunto dos atributos subjetivos internos, que em muitos casos só os próprios irmãos conhecem, pode-se dizer que a noção de duas pessoas completamente idênticas pode ser concebida (bio-geneticamente falando); por outro lado, não se concebe a noção de duas exatas mesmas personalidades. A personalidade é sempre única, independente de qualquer fator. Tudo aponta, nesse sentido, uma forte inflexão individualista atribuída ao plano subjetivo.

O que chamamos de determinação genética ou biológica da igualdade seria, na verdade, uma determinação social pautada no conceito de personalidade, que no caso, a posteriori, não é igual entre duas pessoas. Como que por uma ilusão de ótica, ao descobrir a personalidade de alguém, percebe-se como ela não é igual à pessoa mais semelhante à ela: seu irmão gêmeo. É dizer que, também no Ocidente, ao menos pelo que nos mostra Cândido Godói, é muito difícil de se equacionar a noção de perfeita simetria e igualdade entre sujeitos.


Referências Bibliográficas

Beiguelman, Bernardo. Estudo de Gêmeos. http://www.desvirtual.com/bbeiguel/ebook.htm, acessado em 13 de janeiro de 2006.

DaMatta, R., 1997, Carnavais, Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro, Rio de Janeiro, Rocco.

Duarte, L. F. D., 1983, Três ensaios sobre pessoa e modernidade, Boletim do Museu Nacional, Rio de Janeiro, n.41 – agosto.

Dumont, L., 1993, O Individualismo: uma perspectiva antropológica, Rio de Janeiro, Rocco.

Lévi-Strauss, C., 1993, História de Lince, São Paulo, Companhia das Letras.

Peirano, M., 1999, A alteridade em contexto: a Antropologia como ciência social no Brasil, Unb.

Strathern, M., 1995, Necessidade de pais, necessidade de mães. Estudos Feministas, Rio de Janeiro, v.3, n.2, p.303-29.


[1] DaMatta, R., 1997.

[2] Beiguelman, Bernardo. Estudo de Gêmeos. http://www.desvirtual.com/bbeiguel/ebook.htm.


(*) Ana Amália Alves da Silva é bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Carlos. Esses pensamentos são frutos da idéia básica que foi seguida durante os anos de 2005 e 2006 em pesquisa de iniciação científica fomentada pelo CNPq - que acabou por gerar a monografia “Paradoxos da gemelaridade: etnografia da Capital Mundial dos Gêmeos”.
 

 

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