Coluna (Edição nº 29)

"ONGs Transnacionais como Tecnologias Intelectuais", por Samira Feldman Marzochi (*)

O conceito de tecnologia intelectual permitiria acentuar características relevantes de organizações não-governamentais que atuam transnacionalmente e ajudaria a compreender o modo dessa atuação. Porém, mais do que isso, possibilitaria indagar sobre as implicações das ONGs Transnacionais, como tecnologias intelectuais, para a cultura política em nível mundial. Em outras palavras, se é verdade que organizações não-governamentais estão inseridas no sistema mundial como tecnologias intelectuais, de que forma devemos pensar “democracia”, “cidadania”, “participação”, “representação”?

O conceito de tecnologia do intelecto foi introduzido nas ciências sociais por Jack Goody, referindo-se à escrita em sociedades tradicionais, numa obra de 1968, e re-apropriado por Pierre Lévy, já na década de 90, para pensar as técnicas de comunicação em geral e também instituições. Considero ONGs Transnacionais como um tipo de tecnologia intelectual, articulado a outros, que estaria criando condições institucionais para o desenvolvimento de uma nova cultura política e forçando, por conseguinte, a reflexão sobre “cidadania”, “participação”, “representação”, “democracia’, em outras bases.

Este conceito permitiria acentuar cinco características das ONGs Transnacionais:

1. O seu aspecto dinâmico, mais suscetível às variações da opinião pública que outras instituições;
2. O aspecto tecnológico, pois fazem uso de tecnologias de comunicação como parte de sua atividade cotidiana de troca de informações e produção de imagem publicitária;
3. O aspecto automático, porque passam a orientar-se, uma vez instituídas, para a sobrevivência, adaptação e diferenciação pautadas na contabilidade de erros e acertos inscritos numa memória institucional;
4. O aspecto ideológico, que diz respeito ao descompasso entre a “missão” declarada que fundamenta e justifica as ações da organização e a maneira como atua de fato ou “pensa” institucionalmente;
5. E, por fim, e talvez o mais importante no caso das ONGs Transnacionais, o seu relativo descolamento do sistema institucional mais amplo. Embora estejam, sem dúvida, inseridas no sistema mundial, possuem maior autonomia para deslocar-se geograficamente, abrir escritórios, romper e refazer ligações institucionais, buscar novas fontes de informação, financiamento, estruturar e desfazer grupos de trabalho.

Os cinco aspectos apresentados são, portanto, características que compõem o tipo particular de tecnologia intelectual que são as ONGs Transnacionais. E elas podem ser tratadas como tecnologias porque não só utilizam técnicas de informação como redes eletrônicas, bancos de dados, recursos audiovisuais, mas funcionam elas mesmas como um programa específico que retém memória, produz conhecimento, capta, seleciona, traduz, organiza e transmite informações.

Relacionado às questões da cultura política, um problema, então, se coloca: o conhecimento produzido por uma ONG Transnacional destoa do conhecimento aceito como verdade pelo sistema mais abrangente? Como “pensa” ou atua uma ONG?

Tomo a organização Greenpeace como exemplo de tecnologia intelectual. Seu discurso, a maneira como constrói seu mito fundador, conta sua história, são obviamente forjados, a partir de dados reais, como artifício de sedução do público com objetivo de convertê-lo em sócio ou convencê-lo da legitimidade de suas posições. Fica a dúvida se o Greenpeace, como tecnologia intelectual, produz de fato informações novas, capazes de abalar verdades pré-concebidas pelo sistema, uma vez que depende do financiamento e opinião favorável do público a que se dirige.

Um interessante aspecto da lógica do sistema capitalista, inaugurado pelo “Fetichismo da Mercadoria” de Marx, é a indistinção entre sujeito e objeto, que pode ser entendida como fetichismo e reificação. Nos sites do Greenpeace, de diversos países, lê-se as fichas técnicas dos seus barcos que são apresentados com nome, história, foto e caráter, como se fossem indivíduos autônomos. Funcionam como a encarnação, em diferentes personalidades, do Greenpeace no mar.

A ONG não distingue representação de realidade. Os barcos são extensões da organização, o site é o próprio Greenpeace, em forma e conteúdo, e o mar é incorporado como signo de distinção, independência, aventura e renovação. A natureza que o Greenpeace se dedica a proteger aparece ao mesmo tempo doce e ascética, em fotos coloridas. Os sócios são chamados Cyberativistas que assinam cartas eletrônicas já prontas, contribuem mensalmente com dinheiro e acompanham através de Internet, TV, rádio ou imprensa escrita as “ações diretas” da ONG.

Baleias, barcos, caçadores, presidentes, transgênicos, poluentes, operam num mundo de relações ecológicas em que não fica claro quem tem mais ou menos poder, obrigação, responsabilidade. Um mundo fantástico é recriado a partir da lógica dominante do sistema. Coincidente com esta lógica de indistinção entre sujeito e objeto está a ciência como fonte de legitimidade. Uma ciência bem mais próxima da técnica, da ação, que da ciência especulativa de tradição filosófica antiga, renascentista ou iluminista. É preciso responder às críticas e pautar argumentos sobre dados científicos selecionados estrategicamente, levando-se em conta que um dado científico não é o mais correto, mas aquele capaz de conferir legitimidade.

Uma ONG pode, desse modo, ser lida como uma tecnologia intelectual inserida num sistema mais amplo articulado por regras que irão determinar, pelo menos parcialmente, a lógica do conhecimento que será produzido pela organização. Ou, nas palavras de Bourdieu, o modo como “os interesses subjetivos dos agentes, envolvidos num campo de disputas, são substituídos pelos interesses objetivos do próprio campo”. A dificuldade em mudar essa lógica está, para o mesmo autor, no fato de que as regras do campo são continuamente reafirmadas quando se adere a um jogo de competição por legitimidade e pelas vantagens que advêm da legitimidade.

Desse modo, ONGs participam como sujeitos involuntários de uma configuração específica de poder e produção de verdades. Tal consideração põe em dúvida discursos e práticas que as tomam como promotoras de discussão e questionamento público da realidade ou como representantes da sociedade civil. Num quadro de indistinção entre sujeito e objeto, em que ONGs buscam, sobretudo, evitar a entropia, a natureza é forjada pela publicidade e o conhecimento é produzido com fins de legitimação, como compreender cidadania e representação política?

O conceito de tecnologia intelectual aplicado às ONGs Transnacionais nos permite pensar um novo tipo de ausência de representação e cidadania no campo da política e, mais do que isso, algo inusitado: a política sem o homem, a democracia sem o povo e a privatização da política.

O “homem de chinelos” de Edgar Morin foi radicalizado. Uma constelação de seres humanos privados transfere a capacidade de julgamento individual e participação à condição cibernética das conexões institucionais. As instituições fazem de indivíduos isolados sua extensão e não o contrário, como imaginava McLuhan. A cidadania de fato, nesse contexto, é a das organizações participantes de um governo mundial que os homens se encarregam de pensar, conservar e regular em favor do bom funcionamento das instituições.

O desafio é como converter esta retirada do homem do centro do jogo em algo realmente transformador além de simples reflexo do fetichismo e reificação levados ao limite pelos sistemas luhmannianos. Como o movimento ambientalista, por exemplo, poderia efetuar esta operação em favor da humanidade e da natureza sem contribuir para sedimentar, ainda mais, a lógica sistêmica que as anula ao torná-las equivalentes? Ao mesmo tempo, como recuperar a diferença entre coisas, humanidade, natureza, sem evocar, necessariamente, o antropocentrismo ou apelar para um sujeito transcendental?


Bibliografia

BOURDIEU, Pierre. (1983), “Algumas propriedades dos campos”. In: Questões de Sociologia. Rio de Janeiro, Marco Zero.

FOUCAULT, Michel; DELEUZE, Gilles. (2002), “Verdade e Poder” e “Os intelectuais e o poder”. In: MACHADO, Roberto (org.). Microfísica do Poder. São Paulo/Rio de Janeiro, Graal.

GOODY, Jack (comp.). (1996), Cultura escrita en sociedades tradicionales. Barcelona, Gedisa.

LÉVY, Pierre. (1993). As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro, Ed. 34.

LUHMANN, Niklas. (1999), “O mundo como sistema”. In. ARAÚJO, Cícero; WAISBORT, Leopoldo. Sistema e evolução na teoria de Luhmann. Lua Nova, nº47.

MARX, Karl. (1988), “O fetichismo da mercadoria e seu segredo”. In: O Capital, vol. I. São Paulo, Nova Cultural.

MORIN, Edgar. (1999), Cultura de Massas no século XX. Vol.1: Neurose. Rio de Janeiro/São Paulo, Forense Universitária.


(*) Samira Feldman Marzochi é doutoranda em Sociologia pelo IFCH/UNicamp. Formou-se em Sociologia, Ciência Política (Unicamp, 1995) e Antropologia (Unicamp, 1996) e é mestre em Sociologia da Cultura (Unicamp, 2000) sob orientação do professor Dr. Renato Ortiz. Em 2002 realizou pesquisa de doutorado em Paris, sob orientação do professor Dr. Michael Löwy, sobre relações institucionais entre ONGs e Sistema das Nações Unidas a partir da Unesco. É membro do Conselho Editorial da Revista Temáticas e da equipe da Comunidade Virtual de Antropologia.
 

 

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