Coluna (Edição nº 26)

"Tecnologias Intelectuais, ONGs e Sistema Mundial", por Samira Feldman Marzochi (*)

O Organizações Não-Governamentais têm sido compreendidas como emblemas de democracia, participação popular, movimentos sociais, oposição a ditaduras e regimes autoritários. Proponho uma outra abordagem. Estas organizações, bem mais que representantes do ‘povo', são portas de entrada para a compreensão do sistema institucional mais abrangente. Especialmente quando Transnacionais, estão inseridas como pontos significativos em redes que são a ‘matéria-prima' do sistema mundial.[1]

Mesmo fundadas em um lugar geográfico específico, muitas vezes já nascem a partir de uma rede internacional de iniciativas ou financiamentos, fazendo convergir interesses diversos. Tornam-se mais complexas, abrem escritórios em três ou mais países, adquirem status de consultoras em agências especializadas do Sistema das Nações Unidas, trabalham em cooperação com governos e empresas e, sobretudo, participam da seleção, processamento e circulação de informações.

ONGs Transnacionais participam da produção de conhecimento com implicações políticas em nível mundial. Para analisar a maneira como essa produção ocorre, é possível escolher um grupo de instituições como centro a partir do qual feixes de ligações indiquem as tendências do sistema mais amplo. O grupo de instituições mais indicado, acredito, é o Sistema das Nações Unidas, associado a inúmeras ONGs de caráter Transnacional.

A literatura corrente afirma que o próprio termo ‘Organização Não-governamental’ tem seu primeiro registro na Carta das Nações Unidas de 1945, que previa inicialmente a participação destas instituições como consultoras especializadas no Conselho Econômico e Social da ONU.

A multiplicação de instituições deste tipo tornou-se uma tendência. O aumento de associações civis é notado desde fins do século XIX, na Europa e Estados Unidos. Mas há registros de associações semelhantes nos séculos XVII e XVIII, como a Associação Anti-escravagista Quaker. O interessante é que elas se burocratizaram, especializaram suas funções, adotaram profissionais qualificados e, com freqüência, desmembraram-se em outras organizações. No século XX, com o acréscimo de ligações formais, adquirem importante papel na legitimação de governos nacionais e organizações multilaterais (Marzochi, 2004).

Ao analisar-se o sistema institucional mundial contemporâneo, é imprescindível abandonar a separação entre sujeito e objeto, prática e pensamento. ONGs são objetos que ‘pensam’, memorizam, fazem circular informações. Cada ONG é um programa particular, elaborado em função de suas metas e estratégias. É uma técnica, um modo de operar intelectualmente. Reage às exigências internas e externas e, dentro de certos limites, adapta-se e transforma.

Uma ONG é uma ‘Tecnologia Intelectual’ (Lévy, 1993) que contém em si muitas outras. Bancos de dados, saberes especializados, aparatos informáticos, meios de transporte, câmeras de imagem, textos impressos, websites etc., são apenas algumas das técnicas que tornam as ONGs aptas a produzir diferenças significativas em uma enorme rede de conexões institucionais.

As técnicas não são sempre ‘frias’, como se imagina de imediato. Tecnologias Intelectuais, como ONGs, são carregadas de afetividade. ‘Dominação burocrática’ x ‘dominação carismática’ (Weber, 1991) é um outro par de oposições que neste caso podemos aplainar. Como o próprio Weber acentua, ‘não há tipos puros’. Assim como a escrita é uma tecnologia intelectual que comunica mais ou menos afetivamente, a ponto de o leitor ver a personalidade dos caracteres impressos, as ONGs também são mais ou menos carismáticas.

ONGs têm de produzir conhecimento sobre elas mesmas. Assim, afirmam-se politicamente, conquistam confiança, seduzem afiliados. Uma organização como o Greenpeace, por exemplo, que depende de doações, precisa ser simpática a crianças e adultos, e fazer com que todas as suas ações sejam, ao mesmo tempo, um bom investimento em publicidade. O Greenpeace é tanto uma organização ambientalista, quanto uma marca.

ONGs, como Tecnologias Intelectuais, permitem abordar novas questões, pouco ou nada discutidas nas teorias clássicas sobre ‘Organizações’ ou ‘Relações Internacionais’. Especialmente, facilitam a compreensão da maneira como o conhecimento produzido institucionalmente interfere na configuração do Sistema Mundial. A ‘informação’, ao contrário da ‘comunicação’ [2] por excelência, é da ordem da seleção e, portanto, da imposição de forma, da ‘sobredeterminação’ (Cohn, 2001).

Através da informação, o Sistema se impõe como forma ou, o que é mais sugestivo, ‘conformação’. Assim como outras instituições, as ONGs participam deste processo. São capazes de economizar o esforço intelectual de indivíduos na interpretação e julgamento da realidade. A ponderação e produção dos fatos políticos se dá numa rede em que instituições interconectadas reproduzem, criam e traduzem representações.

O problema é que as hierarquias institucionais impedem que o resultado desta ‘conformação’ corresponda à vontade de todos os objetos envolvidos. E, não só isso, as disputas por legitimidade acabam fortalecendo as regras do campo (Bourdieu, 1983) e, por conseguinte, a lógica estrutural. No lugar da democratização, aprimora-se um novo tipo de dominação sistêmica, tão burocrática quanto repleta de carisma.

Neste cenário, não há ‘cidadania’ ou ‘sociedade civil transnacional’. Há algo como ‘cyborgs-cidadãos’, - extensões e pontos últimos do Sistema, - em interface com uma infinidade de instituições, estabelecendo com elas relações de verdadeira dependência. O que parece apologia é pura constatação: ‘O cyborg determina nossa política’, ‘os cyborgs necessitam de conexão’, ‘nossas máquinas são vivas e nós, inertes’ (Haraway, 1994).

O desenvolvimento destes sistemas institucionais equivale seres humanos, animais e plantas, como base orgânica de instalação. Mas atrofia a espécie humana de modo incomparável, substituindo sua capacidade de julgamento e ação por tecnologias intelectuais, instituições de diversos tipos. Como escapar a tudo isso?

O desafio é compreender a relação entre ‘ação’ e ‘estrutura’ nos sistemas institucionais contemporâneos. Afinal, qual é a lógica que regula a maneira como o conhecimento é produzido, selecionado, distribuído, apropriado? Se é possível desvendá-la, de que métodos analíticos devemos partir?

Deixo aqui registradas estas idéias, mas não sem nenhuma angústia: a quem de fato elas interessam? A nós, cientistas sociais, ou ao ‘Sistema’ que através desta cyborg-doutoranda, vos fala?


Bibliografia

BERGER, Peter; LUCKMANN, Thomas. A constituição social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento . Petrópolis: Ed. Vozes, 1973 .

BOURDIEU, Pierre. ‘Algumas propriedades dos campos'. In: Questões de Sociologia . Rio de Janeiro: Editora Marco Zero Limitada, 1983 .

COHN, Gabriel. ‘A forma da sociedade da informação'. In: DOWBOR, Ladislau; IANNI, Octavio; RESENDE, Paulo-Edgar A.; SILVA, Hélio (orgs.). Desafios da Comunicação . Petrópolis: Editora Vozes, 2001.

HARAWAY, Donna. ‘Um manifesto para os cyborgs: ciência, tecnologia e feminismo socialista na década de 80'. In: Heloísa Buarque de Hollanda (org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1994.

LEQUENNE, Philippe. Dans les coulisses de Greenpeace. Paris/Montréal: L´Harmattan, 1997 .

LÉVI-STRAUSS, Claude. Cap. XV: ‘A noção de estrutura em etnologia'. In: Antropologia Estrutural . Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1996 .

LÉVY, Pierre. Cap. 3: ‘Rumo a uma ecologia cognitiva'. In: As Tecnologias da Inteligência: o futuro do pensamento na era da informática . Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993 .

LUHMANN, Niklas. La légitimation par la procedure . Paris: Les Éditions du Cerf, 2001.

LUHMANN, Niklas . ‘O mundo como sistema'. In: ARAÚJO, Cícero, WAISBORT, Leopoldo. ‘Sistema e evolução na teoria de Luhmann'. Lua Nova, 1999, nº 47 .

MARZOCHI, Samira Feldman. ‘Estado, ONGs, Organizações Multilaterais: imperialismo sistêmico-institucional?'. Comunicação & Política , vol. XI, nº 2, nova série, maio-agosto, 2004 .

WEBER, Max. ‘Os três tipos de dominação legítima'. In: COHN, Gabriel (org.); FERNANDES, Florestan (coord.). WEBER . Coleção Grandes Cientistas Sociais nº13. São Paulo: Ed. Ática, 1991 .


[1] Referência a Lévi-Strauss, para quem as relações sociais são a matéria-prima da estrutura social .

[2] A comunicação é da ordem da inclusão e da circulação (Cohn, 2001).


(*) Samira Feldman Marzochi é doutoranda em Sociologia pelo IFCH/UNicamp, orientanda do Prof. Renato Ortiz. Formou-se em Sociologia, Ciência Política (Unicamp, 1995) e Antropologia (Unicamp, 1996) e é mestre em Sociologia da Cultura (Unicamp, 2000). Em 2002 realizou pesquisa de doutorado em Paris (França), sob orientação do professor Dr. Michael Löwy, sobre relações institicionais entre ONGs e Sistema das Nações Unidas a partir da Unesco. É membro do Conselho Editorial da Revista Temáticas e da equipe da Comunidade Virtual de Antropologia.

 

 

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