Coluna (Edição nº 23)

"Observação etnográfica em hospital", por Rachel Aisengart Menezes (*) 

No mestrado e doutorado em Saúde Coletiva (no Instituto de Medicina Social da UERJ) desenvolvi pesquisa qualitativa em ambiente hospitalar. No mestrado realizei observação etnográfica, complementada por entrevistas com os profissionais, em um Centro de Tratamento Intensivo (CTI) de hospital público universitário para compreender como se dá, na prática cotidiana de seus profissionais, a tomada de decisões relativas à vida, sofrimento e morte dos doentes internados. O CTI foi escolhido como lócus de observação por se tratar de uma unidade que concentra recursos tecnológicos e pessoal altamente especializados, a serviço de pacientes em situação crítica. É exemplar de uma prática médica voltada ao prolongamento artificial da vida e de uma forma de gestão das emoções, na qual há pouco espaço para expressão de sentimentos - de pacientes, familiares ou profissionais. A principal característica do CTI é o processo de negação da morte (Menezes, 2000).

No doutorado, a etnografia foi realizada em um hospital especialmente construído para atender doentes oncológicos considerados como "fora de possibilidades terapêuticas" ou terminais. Localizado no Rio de Janeiro, o Hospital do Câncer IV do Instituto Nacional do Câncer segue o modelo denominado internacionalmente de Cuidados Paliativos (CP), que propõe uma assistência à "totalidade bio-psico-social-espiritual" dos pacientes e de seus familiares. Esta proposta surgiu no final da década de 1960 na Inglaterra e foi implantada no Brasil por iniciativa exclusiva de profissionais de saúde. A equipe multidisciplinar - pressuposto básico dos CP - busca acompanhar o doente até o final de sua vida, minimizando tanto quanto possível sua dor e desconforto e dando suporte emocional e espiritual a seus familiares. A filosofia é centrada na autonomia do enfermo - seus sentimentos e preferências tendo precedência sobre os regimes institucionais padronizados. A expressão das emoções de todos os atores sociais envolvidos - incluídos os profissionais - é extremamente valorizada (Menezes, 2004).

Os dois campos investigados - o CTI e o hospital de CP - constroem diferentes formas de gestão das emoções: no primeiro, os profissionais tendem a fragmentar e objetificar o doente, lidando com seus parâmetros, órgãos e funções e no segundo, a equipe volta-se à "totalidade" do paciente e de seus familiares. No CTI, os horizontes do trabalho profissional são demarcados pela batalha contra a morte, evento que pode ser significado como derrota e fracasso. A emergência de sentimentos é percebida pelos profissionais como transtorno ao "bom" andamento da rotina institucional e a equipe busca um distanciamento das emoções. No hospital de CP, os profissionais trabalham remetidos ao ideal da "boa morte" e, para tal, passam por um processo de reeducação da expressão das emoções: deve-se falar abertamente sobre o morrer. Indo além, os profissionais podem chorar com familiares de um doente, por sua morte, desde que em proporções "adequadas". Há um novo condicionamento da equipe diante do morrer. Estas duas formas de gestão das emoções remetem à afirmação de Foucault (1993:27) sobre o dispositivo de poder: é tanto o silêncio como o incitamento ao discurso, é tanto o ocultamento social como o tornar público.

Como aprendiz do ofício da psicanálise e da antropologia, não tenho dúvidas sobre a conexão entre a história pessoal do pesquisador e a escolha do seu objeto de investigação. Assim, considero serem focos de atenção e reflexão inerentes à elaboração da pesquisa, os sentimentos do pesquisador e as reações despertadas pela escolha de objeto. Ao decidir desenvolver investigação nestes campos, recebi comentários sugestivos das representações sobre a morte e o contato com dor e sofrimento. Em relação ao CTI, um médico disse-me: "não se aproxime dos leitos, pode espirrar sangue em você..." e, sobre o hospital de CP, uma antropóloga afirmou: "prefiro fazer pesquisa na selva, com indígenas, do que ficar confinada num hospital, com gente sofrendo e morrendo...". Outros antropólogos indagaram: "para quê? Um assunto tão pesado, doloroso...", "porque não optar por um campo mais ameno?". Alguns amigos expressaram seus comentários sobre o tema da pesquisa através de referencial psicopatológico, como: "não seria uma escolha masoquista?", "apesar de achar esta escolha meio mórbida", "cuidado para não ficar deprimida, trabalhando com a morte". Estas observações evidenciam a associação da morte às idéias de depressão, sofrimento, perversão e como esta temática deve ser mantida a uma distância da vida saudável. Em última instância, estes comentários sugerem que a escolha de investigar as práticas profissionais em torno do morrer seriam indícios de um afastamento da "normalidade" psicológica. Sudnow (1967:9) refere-se ao estigma que recai sobre os indivíduos que se relacionam profissionalmente com cadáveres e sobre os que investigam a temática da morte.

Em ambos os campos fui "presa" do "anthropological blues" (Da Matta, 1978:30): os dois serviços me preocuparam de forma especial, para além dos períodos de permanência. Pensava nos pacientes, nas situações enfrentadas pelos profissionais, nas reações dos familiares. Os dois setores possuem ideários distintos, com habitus (Bourdieu, 1994:15) e instrumental diversos: no CTI há pouco tempo e espaço para reflexão sobre as decisões, para contato com emoções e com o sofrimento vivido por todos os envolvidos. Em contraposição, a proposta de assistência em CP centra-se no sofrimento dos enfermos, familiares e equipe. Há diversas atividades, que buscam propiciar um espaço para a expressão das emoções. Em reuniões observadas, fui solicitada a participar, dando minha opinião e relatando meus sentimentos - "os hóspedes não convidados da situação etnográfica" (Da Matta, 1978:30). O contato com a doença, o sofrimento e a morte implica angústias para o pesquisador. Ao examinar as formas de gestão das emoções dos profissionais é, pois, imprescindível refletir sobre os sentimentos que emergem na observação.


Bibliografia

BOURDIEU, Pierre. "Esboço de uma teoria da prática". In: ORTIZ, R. (org.). Pierre Bourdieu. São Paulo: Ática, 1994.

DA MATTA, Roberto. "O ofício de etnólogo, ou como ter 'Anthropological Blues'". In: NUNES, E O (org.). A aventura sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I. A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1993.

MENEZES, Rachel Aisengart. Difíceis decisões: uma abordagem antropológica da prática médica em CTI. Dissertação (Mestrado em Saúde Coletiva). Instituto de Medicina Social da UERJ, 2000.

MENEZES, Rachel Aisengart. Em busca da "boa morte": uma investigação sócio-antropológica sobre Cuidados Paliativos. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva). Instituto de Medicina Social da UERJ, 2004.

SUDNOW, David. Passing on. The social organization of dying. New Jersey: Prentice-Hall, 1967.
 


(*) Rachel Aisengart Menezes é médica, psiquiatra e psicanalista, Doutora em Saúde Coletiva (Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

 

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