Coluna (Edição nº 22)

"A Vila de Jericoacoara", por Charles Alberto Barbosa de Souza (*) 

Mangues, mata de restinga, coqueirais, dunas móveis: um impressionante cenário natural ameaçado pela especulação imobiliária e pelo turismo descontrolado.

“No Serrote existe uma gruta enfeitada e cheia de riquezas, onde mora uma princesa amaldiçoada. Ela foi transformada em serpente, restando apenas os pés e a cabeça humana. Para acabar com o encanto, é necessário que alguém desenhe uma cruz com sangue humano em cima da pele de cobra”. Esta é uma das lendas que circulam em Jericoacoara, uma vila de pescadores do litoral cearense conhecida sobretudo pela sua beleza natural. Mas é também uma metáfora das ameaças que este paraíso ecológico vem sofrendo com a especulação imobiliária e um turismo descontrolado.

Serrote é o nome dado a duas colinas de aproximadamente 100m de altura que se destacam entre as grandes dunas de Jericoacoara. Visto do alto, o Serrote tem o formato de um jacaré deitado ou um "jacaré qüarando ao sol". Para os moradores mais antigos esse é o motivo do nome da vila que, segundo eles, era chamada antes de Jacarequara. Mas também existe uma explicação mais oficial para o nome: é a de que ele deriva do vocábulo tupi-guarani yuruco, que quer dizer buraco, mais cuara, que quer dizer tartaruga, formando a expressão "buraco das tartarugas".

Jericoacoara pertence ao município de Jijoca de Jericoacoara, que fica a 317 km a oeste de Fortaleza. Mangues, mata de restinga, coqueirais, dunas móveis com lagoas, formações rochosas, morros e toda sua extensão litorânea compõem o impressionante cenário natural de Jericoacoara, habitat propício para peixes de várias espécies e uma abundante variedade de pássaros.

Um dos locais mais bonitos de Jericoacoara é a “Pedra Furada”, uma enorme formação rochosa em forma de arco esculpido pela ação das ondas do mar. Durante o período que vai de 15 de julho a 15 de agosto, o sol se põe justamente no arco da pedra, formando um belo espetáculo.

A ocupação da vila de Jericoacoara começou provavelmente no final do século passado, quando cinco famílias teriam chegado para explorar a pesca. A grande quantidade de peixes garantiu o crescimento da vila, que chegou a abrigar na primeira metade do século XX dois armazéns que estocavam farinha e goma para atender barcos de outros lugares.

Até os anos setenta não existiam pousadas e os turistas ficavam nas casa dos pescadores, que emprestavam redes e cozinhavam para eles em troca de produtos alimentícios ou roupas. Esses turistas ficavam semanas ou meses na vila.

Impulsionada pela propaganda boca a boca dos visitantes e por uma reportagem do jornal norte-americano Washington Post, que elegeu Jericoacoara como uma das dez praias mais bonitas do mundo, aos poucos os turistas foram chegando e introduzindo novos hábitos na comunidade. Vieram as primeiras pousadas e restaurantes, e com eles novas matérias de jornais e TVs de todo o mundo.

O uso de redes de pesca – no lugar da tradicional linha de mão e tarrafa – não permitia a renovação dos cardumes e causou a escassez do peixe. Muitos pescadores tiveram de abandonar seus barcos para trabalharem no comércio e serviços. Bugueiro, vendedor, comerciante e guia são profissões comuns entre os mais jovens.

Em 1985, Jericoacoara tornou-se Área de Proteção Ambiental (APA), e isto ajudou a conter um crescimento desordenado da população e das construções. Mesmo assim o censo de 1984 apontava 580 habitantes na vila (48,8% da população entre 0 a 15 anos) e, na virada do ano 2000, este número cresceu para cerca de 1.300.

Nos últimos anos os moradores de Jericocoara organizaram-se em um conselho comunitário afim de promoverem um maior diálogo entre ele acerca de seus problemas. Isso trouxe grandes conquistas para a comunidade que se tornou mais consciente dos desafios que o progresso apresentava como, por exemplo, a implementação de um sistema de reciclagem de plásticos e vidros e de compostagem do material orgânico.

Uma das maiores preocupações dos moradores é a especulação imobiliária. O regulamento da APA proíbe que novas pousadas e restaurantes sejam construídos, mas muitas casas, compradas por moradores de outras regiões do país, são ampliadas para aluguel de quartos. O quadro ficou ainda mais complexo com a aprovação, pela Câmara de Vereadores de Jijoca, de uma lei que aumenta a altura máxima das casas para 7 metros, permitindo a construção de dois andares. Isto descaracteriza a vila e esconde a vista da praia, além de atrair mais visitantes do que o local comporta. O Conselho Comunitário de Jericoacoara, contrário a esta decisão, propõe um novo limite de 5 metros, o que viabiliza um mezanino.

Mas a omissão do poder público se exprime também em outras decisões. Há pouco tempo, por exemplo, construiu-se um centro de informações turísticas no meio da rua principal o que dificulta a passagem de transeuntes e compromete a bela vista para o mar. Antes da construção, o conselho comunitário apresentou várias propostas que não foram aceitas. A comunidade revoltada chegou a queimar o início da construção, mas as atividades no local foram reiniciadas sob a vigilância da polícia.

Segundo a lei que rege a APA local, apenas veículos de moradores, de emergências e de abastecimento podem chegar até Jericoacoara. No entanto, carros de turistas e agências circulam livremente pelas ruas. O maior número de denúncias ao IBAMA é de bugues que circulam por trechos proibidos nas dunas ameaçando o natural movimento das mesmas e, consequentemente, a destruição de Jericoacoara.

Esta vila “enfeitada e cheia de riquezas, onde mora uma princesa...” não pode continuar amaldiçoada e fadada à destruição. As agressões sofridas pela natureza, o tráfico e a prostituição infantil existentes em Jericoacoara não combinam com este Paraíso ecológico. A sociedade civil organizada e o poder público precisam fazer sérias e urgentes intervenções para evitar tais danos. A especulação imobiliária, os interesses econômicos e politiqueiros não podem decretar a destruição da “Princesa” da Vila de Jericoacoara que pertence a todos nós. E justamente por isto esta luta não pode ser somente dos seus moradores, que continuam dando “sangue humano” para acabar com o “encanto da serpente”.
 


(*) Charles Alberto Barbosa de Souza Pró-Reitor Titular do Campus Avançado do Junco da Universidade Estadual Vale do Acarau - CE. Pós-graduado em Ética Pública pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma (IT), com o projeto: O Princípio da Fraternidade como Categoria Política – Uma Releitura Histórica dos Movimentos Sociais no Brasil. Mestrando em Políticas Públicas pela UECE.

 

Topo