Coluna (Edição nº 21)

"O Entusiasmo Francês pelo Campo Brasileiro", por Sylvie Chiousse (*) 

Os pesquisadores, – sociólogos, antropólogos entre outros, – que se interessam pelo Brasil, têm todos o nome de Roger Bastide em mente. Talvez mais ainda que Claude Lévi-Strauss, foi ele quem, sem dúvida, além de tratar aqui e ali de algumas pequenas coisas do Brasil, envolveu-se verdadeiramente durante um longo período de sua vida, fazendo da ‘coisa brasileira’ bem mais que uma simples ilustração em seu trabalho e incitando muitos jovens pesquisadores a viajar, eles também, para ver o que acontece do outro lado do oceano, compreender e aproximar-se deste verdadeiro laboratório vivo que é o Brasil.

Igualmente famoso por seus trabalhos sobre o Brasil e sobre a África, Pierre (Fatumbi) Verger foi também, sem dúvida, o instigador de vários talentos na França, ao lado de Bastide. Esses pioneiros abriram o caminho a muitas pesquisas na França, avaliadas por centros de pesquisa ou equipes, hoje cada vez mais numerosos, cativados pela ‘coisa brasileira’ e seus objetos. A ‘coisa brasileira’ para os pesquisadores franceses é una e vária; tanto é assim que bem assimilamos a originalidade deste país como a « terre de contrastes », expressão que Bastide gostava de utilizar.

A EHESS – Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Boulevard Raspail, em Paris), - que fez nascer alguns dos grandes nomes da pesquisa e acolhe ainda estrangeiros, inclusive brasileiros (!), compreende há alguns anos um centro de pesquisas especialmente dedicado ao Brasil: o CRBC – Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo. (http://www.ehess.fr/centres/crbc/index.html).

Uma olhadinha sobre o Répertoire des thèses soutenues en France sur le Brésil (Repertório das teses defendidas na França sobre o Brasil) mostra, como declara o CRBC, a « grande visibilité de l’intérêt scientifique que soulève le Brésil en France » (a grande visibilidade do interesse científico pelo Brasil na França): desde a primeira tese sobre o Brasil, defendida em 1823 (Auguste Prouvençal de Saint Hilaire, Voyage dans l’intérieur du Brésil, la province cis-platine et les missions du Paraguay), são quase 1 500 teses que foram defendidas na França sobre algum tema brasileiro.

Porém, mais que o número das teses defendidas desde 1823, é para o entusiasmo crescente dos pesquisadores franceses pela ‘coisa brasileira’ que temos de prestar atenção. Com efeito, se a França se apaixona pelo Brasil desde muito tempo, este interesse ficou, até 1949, pouco visível, e os inúmeros diários de viagem de uns e outros não tiveram repercussões maiores sobre os estudos universitários; no total, 25 teses defendidas entre 1823 e 1949.

Em revanche, desde a metade do século passado (lembremos, se pode ser uma referência, Le candomblé de Bahia – rite nagô, de Bastide, foi publicado em 1958) e da aproximação universitária entre França e Brasil (a fundação da Universidade de São Paulo e depois do Rio de Janeiro), as vocações brasilianistas pareciam ter se libertado com força na França: contavam-se 43 teses sobre o Brasil entre 1960 e 1969, 275 entre 1970 e 1979, 471 entre 1980 e 1989, e 602 entre 1990 e 1999…

A economia, a geografia e a sociologia deste vasto território estão entre as disciplinas de investigação privilegiadas dessas teses; a antropologia também não fica de fora em relação ao interesse pelas coisas brasileiras e o número das teses defendidas na França sobre o Brasil cresce de maneira contínua e regular nos mesmos períodos: 2 teses entre 1960 e 1969, 13 entre 1970 e 1979, 25 entre 1980 e 1989 e 47 na década de 90.

Além do CRBC na EHESS ou do IHEAL – Instituto de Altos Estudos sobre América Latina (Sorbonne), - que são a base de uma rede de pesquisas européias sobre o assunto, outras equipes se constituíram na França, funcionando através de intercâmbios e colaborações entre pesquisadores franceses e brasileiros, além de outros, como acontece, por exemplo, no CEAQ – Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano, Paris V – Sorbonne (http://www.univ-paris5.fr/ceaq) -, fundado em 1982, sob a direção de Michel Maffesoli, onde, sob o ângulo do imaginário e das sociabilidades, os estudos sobre o Brasil têm lugar privilegiado.

Da mesma maneira, alguns grupos e outras equipes, em várias universidades francesas, estão desenvolvendo pesquisas em que o Brasil aparece em boa posição como campo de estudos. É o caso, por exemplo, do GRACC – Grupo de Pesquisa sobre Ações e Crenças Coletivas – da Universidade de Lille 3 (http://www.univ-lille3.fr/gracc), em que estudos sobre messianismos e milenarismos não podem deixar de lado a experiência brasileira. É o caso, também, de Lyon, Aix, Marselha etc.

Enfim, os trabalhos deixados ou lançados pelos grandes pesquisadores do século passado, franceses e brasileiros, pelo menos, marcaram a pesquisa francesa atual e fizeram perpetuar um interesse sempre mais relevante, acentuado por tudo o que o Brasil pode comportar como riqueza social e antropológica, lugares de aproximação científica, de partilha e de colaboração atuais e futuras através dos oceanos. Axé!


(*) Sylvie Chiousse: Sócio-antropóloga francesa que pesquisou no Brasil. Doutora pela EHESS, Paris - França (1995).

 

 

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