Coluna (Edição >> out - nov 2000)
"Religiões de Transe, Religiões da Vida", por Fernando César (*)

Nas transformações desencadeadas pela pós-modernidade, índices visíveis são a proliferação das imagens, o esvaziamento de seu conteúdo e o deslocamento de materiais culturais, processo que recebeu o nome genérico de globalização. 

TV, TV a cabo, TV no computador, videoclipes, videoconferências, antenas de TV, “parabélicas”, Internet, informação instantânea ... Há uma compressão espacial e temporal gerada pela extrema velocidade da circulação de informações. O planeta diminui. O tempo se estreita. E o imaginário entra em questão.

Um perigo imediatamente derivado deste processo globalizante é que a proliferação de imagens esvazie cada uma delas de sentido, deixando-as ocas, descartáveis, sem substância, ‘evanescentes nas telas’.

Por outro lado, a fecundidade das imagens não se esgota. Torna-se apenas necessário encontrar onde “vivem”, têm corporalidade, som, cheiro, sabor, ritmo. E os “paradigmas de alta frequência simbólica” (Durand) encontram-se na arte, filosofia e religião. 


Quando nos aproximamos das religiões de matriz africana podemos falar da densidade dos símbolos aí presentes. Há correspondências entre os orixás, cores, dias da semana, animais, plantas, comportamentos, sonhos... O cosmo inteiro é abarcado pela consciência religiosa, formando uma teia simbólica complexa. 

Esta capacidade de simbolização representa uma qualidade altamente desejável de uma cultura, sinônimo de regeneração, de luta contra a estagnação da morte. Gerar símbolos é gerar vida, energia, axé. E as sociedades tradicionais renovam a ‘realidade objetiva’ através de um universo sobrenatural densamente povoado (Laplantine). Muito diferente da mera proliferação de imagens ocas que a globalização parece nos sugerir e que provocam um vácuo, de onde nasce “o excesso e a loucura do poder” (López-Pedraza). Pois, se uma imagem não está acompanhada de emoções, se não tem uma densidade psíquica, não surge dela nenhuma criatividade, tornando-se puro signo.


Examinando a expansão das religiões afro-brasileiras, cruzando as fronteiras nacionais e se instalando nos países da América do Sul e mesmo do “primeiro mundo”, verificamos como se torna importante recuperar as noções de “tradição” e “identidade”. Pois, ao contrário do que afirmava o discurso clássico das ciências sociais, a “tradição” não se extinguiu no mundo contemporâneo. Diante da aceleração do tempo e a espacialização das imagens é necessário que “os pés toquem o chão...”. E no espaço dos terreiros de Candomblé, egbés, comunidades litúrgicas, encontraremos fontes preciosas - e tradicionais - de identidade.
 


Mas, fica a pergunta: porque esta expansão do Candomblé? Muniz Sodré oferece parte da resposta apontando para sua dimensão comunal. É justamente na prática cotidiana dos valores comunitários, “do corporal, do mítico, da memória coletiva, do ficcional, do encantamento ou enfeitiçamento” (no sentido de conquistar alguém para um destino comum), na lógica do estar próximo, da “rede”, que se situa a atração do Candomblé, sua potência simbólica. 


Ao se transpor a religião puramente “para os espaços privados do indivíduo” (numa introversão da sensibilidade religiosa) deixa-se de lado a contribuição que possa trazer para um “debate moralmente modulado sobre questões atuais” (Samuels). E, mesmo distante de defendermos uma concepção de militância como requisito da produção do saber  científico (Vágner Gonçalves), percebemos que o Candomblé, religião do transe por excelência, mostra o estreito vínculo entre a tradição e a formação de identidades, questões preponderantes em plena era de globalização. Para caminhar numa “Terra em Transe”, uma trilha que se descortina na aurora de um novo milênio é a do transe na terra.



NOTA: Desenhos de Carybé in: "As Sete Portas da Bahia", Ed. Record, RJ, 1976.


(*) Fernando César é psicólogo e mestrando em Antropologia/Sociologia pela UFMG.
 


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