Coluna (Edição nº 14)

"O resgate da Cidadania – voltando para o Brasil", por Gláucia de Oliveira Assis (*)

O vôo que aterrissou no Aeroporto Hercílio trazendo 17 catarinenses encerrou o drama vivido por uma parcela dos 1.000 brasileiros, detidos por tentar cruzar clandestinamente a fronteira com o México. No aeroporto foram recepcionados pelo Chefe da Casa Civil, o comandante da Base Aérea e por integrantes do gabinete da senadora catarinense que integra a subcomissão permanente de proteção dos cidadãos brasileiros. A recepção por autoridades do estado e o empenho da comissão de parlamentares em trazê-los de volta surpreenderam esses brasileiros humilhados pela experiência da prisão no estrangeiro. Após desembarcarem, seguiram num ônibus cedido pelo governo do Estado para as cidades de Laguna, Criciúma, Içara, Araranguá na região sul do estado.

Quem são esses migrantes que arriscam a vida e a dignidade ao tentar cruzar a fronteira? As histórias dramáticas de travessia pelo México trazem a tona um fenômeno migratório de grande impacto para as cidades de origem desses fluxos, mas desconhecidos da população em geral. Os catarinenses fazem parte de um número crescente de brasileiros que vem sendo presos tentando entrar ilegalmente nos Estados Unidos. Segundo o dados da Embaixada Americana, o índice de brasileiros flagrados tentando passar ilegalmente para os Estados Unidos cresceu 787%, passando de 350 prisões em 1992 para 3.105 prisões em 2001.Entre 2002 e 2003 foram 5.242. 

A cidade de Criciúma, ponto de partida da maioria dos migrantes catarinenses, se insere nesse movimento de brasileiros que vão para o exterior em busca de trabalho e de uma vida melhor. Esse fenômeno migratório rumo a Itália e aos Estados Unidos começou no início dos anos 90 com a crise do carvão na região, mas é no final da década que se torna um fluxo continuo de migrantes. Como os brasileiros que partiram de outras regiões como Governador Valadares (MG), os criciumenses vão para a região de Boston, que recebe 33% dos migrantes. Uma vez estabelecidos chamaram seus parentes, seus amigos e cria uma conexão Criciúma-Boston, uma rede de migração. 

Essas redes nos ajudam a compreender que a migração não é um projeto individual, mas envolve parentes e amigos no processo. Para os migrantes essa ajuda chama-se help e cria uma solidariedade entre quem dá e quem recebe. Assim 58,5% dos criciumenses viajaram acompanhados de parentes e ao chegaram no destino contaram com ajuda de parentes e amigos para arranjar trabalho. Além dessa rede de parentes e amigos, entram outras redes: as agências de viagem, de falsificação de passaportes e agenciadores especializados em atravessar a fronteira com o México que custa entre US$ 6000,00 e US$ 7500,00 dólares que explicam porque algumas cidades se tornaram ponto de partida de migração. 

O projeto de “fazer a América” traduz o desejo desses migrantes de conseguir dinheiro “para comprar uma casa e garantir um futuro melhor para seus filhos”, como disse Rogério ao desembarcar no aeroporto Hercílio Luz. Movidos por esse sonho foram em busca de trabalho e deixaram seus familiares, seus amigos, seu país. Por isso, os migrantes se aventuram nessa arriscada empreitada que é passar pelo México.

O sonho torna-se pesadelo quando são presos pelos agentes da imigração norte-americana. Esses imigrantes não são criminosos, nem terroristas, apenas queriam trabalhar num outro país e circular no mundo globalizado como circula o capital, mas não só são impedidos de entrar no país, como são tratados como criminosos. 

Ao retornarem ao país, esses brasileiros chegaram cansados e tristes por verem frustrados o sonho de fazer a “América” encarcerado em presídios americanos. Pouca bagagem, muita desilusão, dívidas e humilhação, mas com sua cidadania restituída. O esforço dos parlamentares da subcomissão permanente de proteção dos cidadãos brasileiros e dos diplomatas que se empenharam em trazer de volta os brasileiros, devolveu a cidadania seqüestrada quando seus passaportes foram presos. 

Os migrantes voltam para casa com seus sonhos frustados. Talvez o episódio reconcilie seus sonhos com a realidade um tanto adversa de ser cidadão brasileiro, chegaram recebendo rosas, mas querem emprego ou políticas públicas que forneçam crédito a pequenos proprietários, querem poder ficar no país. 

No entanto, o episódio sugere uma transformação ainda mais interessante e de conseqüências políticas nada desprezíveis para os cerca de 1,5 de brasileiros no exterior: as autoridades políticas, particularmente os parlamentares que se envolveram com todo o processo de repatriamento dos brasileiros, começam a olhar para o imigrante brasileiro não como aquele que deixou o país, mas como um cidadão brasileiro além de nossas fronteiras, ou seja um cidadão em qualquer lugar. 

Essas mudanças começaram já na década de 90 quando os consulados nos Estados Unidos tiveram que mudar o seu perfil, pois estavam mais voltados para atender uma elite social – turística e de negócios e tiveram que atender a crescente massa de imigrantes que demandava outro tipo de serviços: registro de nascimento, renovar passaportes, organizar eleições no exterior, atender a problemas com brasileiros como deportação, prisões etc. Essa mudança na política consular ainda está em curso e esbarra em dificuldades financeiras e burocráticas. 


(*) Gláucia de Oliveira Assis é antropóloga, professora do Centro de Ciências da Educação – FAED/UDESC - e doutoranda em Ciências Sociais na Unicamp.

(Agradecemos a Flávia de Mattos Motta, doutora em Ciências Sociais - Núcleo de Identidade de Gênero e Subjetividade (NIGS)/UFSC, por articular a elaboração da coluna com a antropóloga Gláucia de Oliveira Assis.)
 

 

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