Coluna (Edição nº 12)

"Cinema e Museu das Imagens: para uma futura museologia antropológica cinematográfica", por Alexandre Fernandes Corrêa [1]

Sumário do Texto
Do filme etnográfico ao cinema etnológico.
O Cinema como agente de Animação Cultural das Imagens do Patrimônio e da Memória Coletiva.
O Cinema como agente democratizador dos acervos museológicos e patrimoniais.
O audio-visual e a expressão das identidades plurais. 


A intenção deste texto é de comentar alguns aspectos relacionados ao tema do cinema e da preservação dos patrimônios culturais e naturais na sociedade moderna. Como meio de expressão o cinema se define, grosso modo, enquanto imagem em movimento, com sua eficácia garantida pela técnica de filmagem e projeção. Neste sentido, o cinema é tanto arte como indústria. Para evitar adentrar e arriscar-se muito em assunto dominado por diversos especialistas, sugerimos uma breve reflexão sobre a possibilidade do cinema vir a desempenhar um papel fundamental como animador cultural dos acervos patrimoniais e museológicos existente em diferentes regiões do país e do planeta.

Sabemos que hoje existem diferentes tipos de produção de filmes. Basicamente, tomando suas principais características podemos distingui em 4 tipos gerais: educativo, documentário, turístico e espetáculo. Claro que se poderia acrescentar outros tipos de filmes, mas se refletirmos mais detidamente veremos que se enquadram em uma ou outra dessas divisões que propomos. Temos ainda algumas dúvidas no que se refere ao específico do filme publicitário, mas esse é um tema que não nos diz respeito diretamente.

O cinema como animador das imagens dos bens culturais e naturais, não apenas serve como agente difusor de uma “consciência” da diversidade mas, principalmente, como agente estimulante na reflexão sobre o processo de criação de imagens identitárias. Tomemos como exemplo especial àquelas imagens identitárias que se referem às identidades étnicas[2]. Vemos que se pode inferir que o cinema pode estar intrinsecamente vinculado com a visão que cada povo tem de si mesmo, isto é, com a busca uma identidade cultural possível no labirinto antropológico contemporâneo.

O que parece ser interessante neste momento é tentar desenhar um quadro de referência básico sobre os conteúdos das imagens produzidas em cada uma das quatro categorias que distinguimos mais acima. Compreender as ideologias, os interesses, os discursos de quem está dirigindo a criação e a produção de filmes, é de fundamental importância. O cinema pressupõe a existência de investimentos coletivos, agenciamentos de grupos com interesse de veicular certas imagens e exibi-las em circuito regional, nacional ou mundial. Estes interesses de grupo estão ligados a afirmação de identidades culturais, investidos por vários tipos de interesses econômicos: turísticos, educacionais, artísticos, etc. Portanto, o cinema é produto de investimentos coletivos em imagens, e é nesse entendimento que concebemos o fenômeno cinematográfico, e como tal analisamos suas potencialidades enquanto instrumento de reflexão antropológica.

No caso específico dos bens culturais preservados e tombados[3] ou que estão vinculados particularmente aos acervos dos museus e patrimônios etnográficos, consideramos imprescindível que eles sejam filmados e difundidos nas escolas, videotecas, bibliotecas e cinematecas. O modelo ideal desse processo realiza-se na criação de Museus da Imagem e do Som, como os do Rio de Janeiro e de São Paulo, em diversas regiões do país.

O cinema pode ser um animador cultural de acervos museográficos e tombamentos culturais, democratizando e tirando-os do isolamento em regiões distantes do país. Fazer com que circulem entre diferentes instituições, e até mesmo em circuito comercial (como em locadoras de vídeo), dará acesso a toda gente, e sendo exibido em associações, escolas e universidades – como em qualquer outro instituto – pode vir a ser o veículo privilegiado para a renovação das idéias e das imagens que temos de nós mesmos. Através do cinema podemos “estranhar” nossa “realidade”, podemos nos ver-olhar e tomar o mundo em perspectiva, de uma certa distância, e assim nos conhecermos melhor, além de conhecermos melhor os outros, reconhecendo neles nossa humanidade plural.

Somos carentes de pesquisas que enfoquem mais o cinema e o patrimônio cultural brasileiro. O Brasil é um país que possui um riquíssimo mosaico antropológico de rica pluralidade, por isso integrar ativamente a discussão sobre ações institucionais do cinema na área da Museologia e do Patrimônio Cultural pode render frutos interessantes.

Neste texto sumário, tratamos especialmente da categoria de bens etnológicos, mas estas reflexões servem para todo o tipo de acervos naturais e culturais. Desejamos afirmar, de um modo mais direto, que o cinema – como técnica e arte de produção e exibição de imagens – pode encurtar a distância e o acesso da maioria da população aos bens culturais e naturais regionais, nacionais e mundiais.

Tem-se afirmado, principalmente nos estudos educacionais, que os museus em muito contribuem para formação mental e cultural das crianças e dos jovens. O museu é considerado importante elemento na evolução dos métodos de aprendizagem e é inegável a importância de seus recursos para a construção da cidadania e a constituição de sujeitos conscientes e autônomos.

Vemos em muitos países surgirem cada vez mais os Museus das Crianças, que promovem ações de dramatização e pesquisa da memória desenvolvendo as bases para a constituição do museu das imagens – que o cinema encarna perfeitamente.

Diante destes fatos concluímos que a melhor forma de encurtar a distância que separa a maioria da população dos museus, dos sítios históricos ou dos parques nacionais, é difundir sua cultura de imagens pelo cinema. Como a arte e a técnica da indústria cinematográfica são partes essenciais no processo de democratização e difusão das imagens da cultura brasileira, cremos que desta forma nossos bens e valores singulares chegarão para o maior número de pessoas possível.

Uma política de produção, difusão e exibição de filmes sobre o tema do patrimônio e da memória (preservação da bio-cultura), não deve se restringir a um apoio financeiro a projetos de filmes que façam apenas locação nos diversos sítios históricos brasileiros. Acreditamos que as Universidades e os Institutos do Patrimônio, devem promover a produção de filmes, que façam a difusão dos grandes museus nacionais e regionais pelo país à fora. O conhecimento destes acervos é imprescindível para a difusão de uma visão mais dinâmica da paisagem ecológica e da cultura brasileira e, por extensão, latino-americana.

Regiões as mais distantes do país devem receber, com mais facilidades, exposições em filmes dos acervos dos Grandes Museus Nacionais que estão em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, assim como os acervos históricos do Norte, do Nordeste e do Sul. A promoção de concursos de roteiros, projetos e idéias na área do cinema etnológico e popular (conhecido comumente como filme etnográfico), pode nos fazer sair da ‘fase etnográfica’ das produções, que pouco ou quase nada diferem da visão folclorista.

Uma das primeiras tentativas disso temos na Expedição de 1938, organizada por Mário de Andrade e refilmada recentemente[4], no qual há uma mistura de elementos prenunciadores de novas posturas em relação as memórias e aos patrimônios. Algo que produzirá com o tempo autênticos monumentos cinematográficos da sociedade brasileira.

Mas uma pergunta aflora: é possível uma renovação do ponto de vista cinematográfico – deixando o “etnografismo” dos filmes documentários? Esta indagação se inspira em alguns cineastas singulares, como Jean-Luc Godard – que se formou em Etnologia em Paris – Jean Rouch, Martin Scorcese, Frederico Fellini ou Win Wenders, e ainda outros, tão geniais quanto estes citados.

Contudo, Win Wenders chama atenção em especial quando refere-se a influência que causou na sua vida a frase da escritora Béla Balázs, que reflete sobre a possibilidade (e da responsabilidade) de o cinema “mostrar as coisas como elas são”. E, mais, quando se questiona se o cinema poderá servir para “salvar a existência das coisas”. Win Wenders numa entrevista, questionado sobre o porquê de se filmar, o cineasta disse:

Alguma coisa acontece, vêmo-la acontecer, filmamo-la enquanto acontece, a câmara observa, conserva-a, podemos contemplá-la repetidamente, contemplá-la mais uma vez. A coisa já não está lá, mas a contemplação é possível; a verdade da existência desta coisa, essa, não se perdeu. O acto de filmar é um acto heróico (não sempre, nem sequer freqüentemente, mas por vezes). A progressiva destruição da percepção exterior e do mundo é, por um instante, suspensa. A câmara é uma arma contra a miséria das coisas, nomeadamente contra o seu desaparecimento.        

Quando afirmamos isso fazemos referência a um cinema que desenvolva uma linguagem aberta, sem restrições de regras ou objetivos comerciais. O cinema etnológico reflete sobre a condição humana, tem em foco seu modo de existir, seu ethos, em suma seus estilos de vida: estética e ética da vida humana.

Vem a nossa lembrança um outro excelente exemplo, que é a produção do filme brasileiro Nós que aqui estamos, por vós esperamos (1999) de Marcelo Marsagão. Filme que é um fragmento de memória áudiovisual sobre o século XX, a partir de recortes biográficos reais e ficcionais de pequenos e grandes personagens que viveram neste século. Este é o mais recente exemplo de como se pode pensar em modos diferentes de fazer cinema com criatividade e imaginação.

Pensamos num cinema como um verdadeiro museu imaginário, num mundo e numa sociedade que se transformam numa velocidade cada vez alucinada e vertiginosa. Lembramos novamente de Win Wenders, quando cita Paul Cézanne:

Isto está mau. Temos de nos apressar, se ainda queremos ver alguma coisa. Tudo está prestes a desaparecer (p.40).

A análise aqui sugerida tem ainda muitas fontes de inspiração, mas se liga muito intimamente na proposta de Gilbert Durand (1995:46), que defende, em palavras precisas, o quanto é urgente e necessário enfrentar o esvaziamento do sentido, atualmente presente nas sociedades ocidentais. Sugere isso através do que chama de uma nova prenhez simbólica no processo de produção, distribuição e consumo das imagens. Podemos dizer que trata-se de uma resposta patafísica[5] à avassaladora proliferação de imagens insignificantes[6] que se manifesta hodiernamente nas sociedades industriais e pós-industriais. O cinema antropológico autêntico poderá servir como esse veículo[7], isto é, um novo agente de animação da cultura e da arte brasileira. Esse movimento antecipa uma síntese mais significativa do que tem sido desajeitadamente chamado de filme etnográfico, ou de documentários etnográficos, repletos de convencionalismo e conformismo. Em suma, é preciso mais criatividade e imaginação[8]! Oxalá, tenha eco estas palavras utopistas! 


Bibliografia

CORRÊA, Alexandre Fernandes. Vilas, parques, bairros e terreiros: novos patrimônios na cena das políticas culturais. São Luís: EDUFMA. 2003

DURAND, Gilbert. Imaginação simbólica. São Paulo: Cultrix. 1988

____. A fé do sapateiro. Brasília: UNB. 1995

____. O imaginário. Rio de Janeiro: Difel. 1999

FLUSSER, Vilém. A filosofia da caixa-preta. São Paulo: HUCITEC, 1985  

____. Ficções filosóficas. São Paulo: EDUSP, 1998b

LEMINSKI, Paulo. Jarry, supermodertno In, JARRY, Alfred. O Supermacho. São Paulo: Brasiliense.1985.

WENDERS, Win. A lógica das imagens. Lisboa: Edições 70. 1990


Notas

[1] Prof. Dr. Alexandre F. Corrêa. Adjunto Antropologia. UFMA. www.antropologia.com.br/tribo/alexandrecorrea

[2] Como exemplo citamos a lista do Cineclube Pandora (História-USP), que colocou em cartaz uma série chamada Guerras Étnicas, incluindo na programação os seguintes filmes: Antes da Chuva de Milcho Manchevski (Macedônia,1994), Faça a Coisa Certa de Spike Lee (EUA,1989) e Em Nome do Pai de Jim Sheridan (EUA,1993).

[3] Processos de tombamento realizados por conselhos de patrimônio como o IPHAN, o CONDEPHAAT e o CONPRESP.

[4] Destaque para esta experiência notável de refazer o percurso da Missão de Pesquisas Folclóricas de Mário de Andrade, realizado com o apoio da TV Cultura de São Paulo.

[5] Referência a Patafísica de Alfred Jarry, que a definiu como “um capítulo da Grande Ciência e Arte Teatral das Soluções Imaginárias”.

[6] Ver o texto de Castoriadis As Encruzilhadas do Labirinto IV: a ascenção da insignificância. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

[7] O advento de uma nova fonte de produção imaginária. Movimento CRISOL de Arte e Cultura Emancipatória e Autonomista. São Luís, 2003.

[8] Algo que o hip hop já faz há algum tempo na cultura popular internacional, mas que as academias e os museus resistem em encampar como linguagem.

 

 

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