Coluna (Edição nº 11)
"As tramas complexas da tradição", por Léa Freitas Perez (*)

Tradições culturais devem ser respeitadas? Eis uma pergunta complicada, pois envolve um complexo de tramas que imbricam delicadas questões conceituais, políticas e éticas. A começar pelo própria idéia de tradição. Fundamentalmente problemática, via de regra é tratada – tanto pela opinião comum quanto pela dita científica – de modo unívoco, sendo circunscrita à certas excentricidades e/ou arcaismos da vida cultural. Práticas consideradas tradicionais são congeladas no passado – no tempo findo –, reduzidas a uma espécie em extinção, a objetos eminentemente exóticos e eivados de irracionalidade. Todo e qualquer sentido e vitalidade lhes é assim retirado. Tal como um fóssil teimosamente vivo, a tradição é vista como um entrave ao progresso e ao desenvolvimento da Humanidade, uma vez que suas manifestações diriam respeito à práticas ultrapassadas, atrasadas, sem nenhuma funcionalidade, enfim, bárbaras. Aqui começa o segundo nó da trama: a questão conceitual desliza para uma questão política que se desdobra em questão ética. Os bem pensantes arautos do progresso e do desenvolvimento adoram criticar as tradições em nome da Humanidade. Mas de que humanidade estão falando? Quem os autoriza a falar em seu nome? O que é uma prática ultrapassada, atrasada, bárbara? Sem funcionalidade para quem? Tomemos o caso exemplar da excisão de jovens africanas. De tempos em tempos ele vem à tona. Poderoso mecanismo de opressão masculina! – esbravejam as feministas. Ataque violento à liberdade, à dignidade e à igualdade! – bradam os comissários do povo. Como manter-se objetivo e neutro diante do insustentável e do inescusável? Urge agir contra esse horroroso absurdo, esse verdadeiro crime contra a Humanidade! – profetizam todos. A ação é uma questão de justiça social e de promoção da emancipação dessa parcela da humanidade subjugada! – clamam os defensores do direito de ingerência. Mesmo os tradicionalistas e os liberais, se confessam escandalizados com tal prática, que é assimilada à tortura e comparada às câmaras de gás nazistas. Argumentam que é preciso resistir ao relativismo cultural, que tudo tem limites, que é preciso julgar. Todavia cabe perguntar: será que as etnias africanas que praticam a excisão são naturalmente atrasadas, bárbaras, cruéis, verdadeiras torturadoras de pobres criancinhas sem defesa? A excisão é um ritual de iniciação que é realizado em nome dos ancestrais, do sagrado, do mito de origem do grupo. Enquanto uma forma de escrita ela inscreve no corpo a memória do grupo. O corpo-memória é a marca viva da existência do grupo. A excisão é portanto uma ontologia. Quando a atacamos não estaríamos nós ocidentais também fazendo uso de uma outra forma de escrita, de uma outra ontologia? Não estaríamos negando ao outro, ao diferente, a capacidade de produzir escritas e ontologias? Não estaríamos confrontando – numa disputa desigual, pois sem direito de defesa – duas matrizes de plausibilidade? Não estaríamos impondo o nosso imperativo cultural (racional-moderno) como o único efetivamente verdadeiro, coerente e libertário? Não estaríamos objetificando a diferença, reduzindo-a aos nossos “programas de verdade”?


(*) Antropóloga, professor adjunto do Departamento de Sociologia e Antropologia da FAFICH – UFMG.
 

 

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